selomostra39“O primeiro filme que eu vi no cinema foi Tarzan. Não me lembro o nome, não sei se era Tarzan e as Sereias…”, Ney Matogrosso tenta despertar a memória. “Foi uma surpresa incrível, porque eu achei que aquilo fosse real. Pegou fogo no filme e eu saí correndo, tamanha a força daquela experiência”, relata o cantor durante o ciclo Memórias do Cinema Brasileiro da 39.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A lembrança de sua primeira ida ao cinema ainda é muito viva. “Tenho a memória toda de chegar, entrar naquele lugar, ver aquela tela imensa, de não saber o que ia acontecer. E quando aquilo tudo começou, eu fui ficando excitadíssimo com aquelas pessoas na tela.”

“E isso num filme de Tarzan, que era um herói seminu. Tenho impressão de que esta minha nudez vem de todas essas referências, da primeira vez que fui a uma transmissão de rádio e minha mãe me levou para ver a Elvira Pagã seminua, com trapos de pele de onça. Sempre tive esta relação com a nudez muito forte.”

'Tarzan e as Sereias'
‘Tarzan e as Sereias’ (1948)

Nascido em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, Ney morou em diversas cidades por conta da profissão do pai, militar, que era constantemente transferido.

Passou a tomar contato com o Cinema Novo, as Chanchadas e o Neorrealismo italiano quando voltou do Mato Grosso do Sul (“onde só havia um único cinema pornô na cidade; só tinha homem no cinema, nunca entendi”) para o Rio de Janeiro.

Para mim era uma grande alegria assistir a Oscarito e Grande Othelo. É algo que guardo dentro de mim até hoje
“Foi aí que entrei para o ginásio e voltei para o cinema. Comecei a frequentar os cinemas maravilhosos em que eu via a realidade das pessoas. Foi uma consciência mais humana da vida o que os filmes italianos me traziam”, declarou o cantor, que também adorava as Chanchadas.

“Para mim era uma grande alegria assistir a Oscarito e Grande Othelo. É algo que guardo dentro de mim até hoje. Nem Sansão Nem Dalila é genial. E o que é ver Grande Othelo vestido de Julieta? Era muito engraçado.”

O Cinena Novo também marcou profundamente o artista, que via no movimento uma postura muito crítica e contestadora. “Até mesmo os mais ingênuos, como O Padre e a Moça, não tinham nada de ingênuo, mas traziam uma mensagem, uma contestação. Não tive contato com os cineastas do Cinema Novo, não os frequentava porque eles eram intelectuais. E eu não me vejo e não sou um intelectual. Sou mais relaxado. Mas os acompanhava e seguia seus filmes.”

Ney também contou que o cinema de Pier Paolo Pasolini o marcou profundamente. “Eu esperava ansiosamente por cada novo filme seu. Não tinha nem consciência da transgressão que ele representava, mas meu espírito percebia isso”, avalia.

“Quando percebi essa coisa transgressora de seu cinema, aquilo me estimulava de uma maneira que não sei nem te dizer. Ele era o que eu mais esperava, embora eu gostasse dos outros italianos. Pasolini foi o diretor que mais me impressionou na vida.”

O cinema interfere até mesmo nos meus shows, em que meus movimentos são conscientemente editados
Ney, que também é ator e está naMostra com Ralé, de Helegna Ignez, contou que sua relação com o cinema o ajudou a criar imagens e movimentos para seus espetáculos.

“A questão da imagem gerada, imposta, é muito forte para mim. O cinema interfere até mesmo nos meus shows, em que meus movimentos são conscientemente editados. Claro que não é uma coisa 100% editada o show inteiro, mas o que eu posso ter controle, eu tenho”, contou Ney.”Eu ofereço algo que confio que está sendo bem posto e bem montado.”

Para o cantor, atuar é uma forma de dar vazão de poder explorar um talento que não dá vazão no palco. “Com Sonho de Valsa, de Ana Carolina, na década de 80, passei dos palcos para os sets. No primeiro dia de filmagem, a Ana me disse que havia algo estranho em mim, parecia que eu ia voa”, relembra o cantor.

“Foi então que entendi que esta era a minha forma instintiva de entrar no palco. Eu aprendi a baixar os ombros, que no cinema, para olhar para a direita era só mover os olhos, que menos era mesmo mais. Quando vi o filme, senti e achei que no fundo dos meus olhos havia um susto. Depois eu fui aprendendo e hoje adoro atuar, buscar em mim algo que está escondido, fazer personagens que jamais eu seria na vida real. Chego à disposição do diretor, quero que ele diga tudo o que quer de mim. E quero atuar cada vez mais. Atuar e cantar são duas coisas diferentes, mas amo as duas.”

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