Nossa Opinião

0.5
O terceiro ato é o mais vergonhoso, e mostra Blatter como o homem honrado e ético da entidade
Nota 0.5

“Minta pra mim”, provocava o personagem de Tim Roth na série Lie To Me, em que interpretava um perito em ler as expressões corporais de suspeitos para saber se diziam ou não a verdade em seus depoimentos. Não deixa de ser irônico que agora ele, ator acostumado a interpretar personagens de moral duvidosa no cinema, seja o escalado para viver Joseph Blatter em United Passions. Em meio aos escândalos envolvendo a FIFA, o suíço acaba de renunciar à presidência da Federação Internacional de Futebol Associado, cargo que ocupava desde 1998.

A produção francesa, que custou 30 milhões de dólares pagos quase em totalidade pela FIFA, chegou às salas de exibição norte-americanas na última semana, e tinha tudo para ser solenemente ignorada após uma passagem discretíssima no Festival de Cannes 2014. A diferença para agora é o escândalo de corrupção que está mexendo com as estruturas das organizações futebolísticas ao redor do mundo, dando ao longa mediano uma dose extra de (má) publicidade.

Didático como um filme institucional ficcionalizado, United Passions começa em 1904, quando o esporte crescia na Europa. Um grupo de cidadãos de diversos países (França, Espanha, Dinamarca, entre outros) toma para si a responsabilidade de profissionalizar o futebol no continente, batendo de frente com os britânicos, inventores do futebol. Durante todo o tempo, os ingleses são retratados como os vilões, mais ou menos como aquele garoto mimado dono da bola que decide quando o jogo começa e termina. Cabe a então recém-criada FIFA nos salvar.

Chama a atenção, porém, como os personagens pouco falam de futebol. Em momento nenhum dá pra acreditar que são apaixonados pelo esporte, mas sim interessados na criação e crescimento de sua instituição. O filme faz sugestões, aparentemente descuidadas, de favorecimentos aos campeões Uruguai na Copa de 1930, Itália em 34 e 38, Inglaterra em 66 e Argentina em 78, todos por questões políticas extra-campo.

João Havelange (papel do irlandês Sam Neil, de Jurassic Park), o brasileiro que presidiu a entidade por 24 anos, de 1974 a 1998, é colocado como um esperto articulador, alguém capaz do que for preciso para tornar a associação rentável. Não por acaso, foi sob seu comando, já assessorado por Blatter, que a FIFA costurou acordos milionários com Coca-Cola e Adidas, patrocinadores da Copa do Mundo até hoje.

Diante das notícias recentes, o terceiro ato de United Passions é o mais vergonhoso. Nele, o Joseph Blatter de Tim Roth é o homem honrado que promove uma limpeza ética, falando duro com seus secretários e indicando que não irá tolerar que interesses escusos contaminem as decisões. Em clima de celebração, tudo termina na cerimônia que oficializa a África do Sul como sede da Copa de 2010, realizando o velho sonho dos poderosos de conquistar o continente africano. Vale lembrar que as investigações do FBI apontam que este é um dos muito mundiais cujo anfitrião pode ter sido escolhido com a ajuda de compra de votos.

O filme é pontuado por imagens de um jogo entre crianças simples num campinho de um canto indefinido do planeta. As traves são marcadas com tênis e não há uniformes que distinguam os times. É o futebol em sua essência, e é justamente disso que a FIFA tenta se apropriar. Falta, porém, algo que é mais fundamental ao jogo do que habilidade ou coordenação tática: alma.

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