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Não vai dar tempo: o medo de ‘GoT’ virar um ‘Lost’ de outro mundo

Nossa Opinião

8.5
Atire a primeira pedra quem nunca soltou um bocejo vendo aquela gente toda indo e voltando a pé por Westeros ou esqueceu quem era aquela pessoa que chegava no meio de uma cena, já no meio do assunto, brandindo (mais) uma espada
Média 8.5

Na manhã da segunda-feira 15, o terror e a ansiedade com que acordou boa parte da humanidade eram culpa de três pessoas. A saber, D.B. Weiss, David Benioff e George R.R. Martin, os principais nomes por trás de Game of Thrones

No resumo mais breve possível, a série, uma adaptação dos livros do último, conta a história de famílias que disputam reinos e buscam o controle de toda a fictícia Westeros entre batalhas sangrentas, entidades sobrenaturais e sexo. Heróis e bandidos morrem a torto e a direito e quase sempre de forma horrenda, à revelia de qualquer empatia que possam ter criado com o leitor/espectador/fã. Tanto é que já a primeira temporada terminou com um de seus personagens principais decapitado.

A escolha de levar ao ar no domingo à noite um final de temporada chocante bateu os recorde de audiência e foi visto por pelo menos 8,1 milhões de pessoas nos Estados Unidos de acordo com o Nielsen (um número que pode ser multiplicado ainda muitas vezes quando somado ao de vídeos sob demanda da HBO). A título de comparação, a produção ganhou 1 milhão de espectadores só no intervalo entre uma season finale e a outra.

A consagração como a série mais vista da história da emissora parece clara, mas algo parece incompleto se olharmos mais de perto. Não dá para negar que foi um quinto ano lotado de cenas fortes – algumas mais pela polêmica que por outras qualidades -, mas, se fizermos o exercício de fingir que elas nunca existiram, o que sobra?

Tyrion e Daenerys
Tyrion e Daenerys se encontram

Se há uma coisa que os números provam é que os roteiristas sabem bem manipular as tramas para tocar a audiência o suficiente e garantir que voltem de novo e de novo, tornando-se o assunto mais falado de nove entre dez rodinhas bacanas, reais ou virtuais. Mas atire a primeira pedra quem nunca soltou um bocejo vendo aquela gente toda indo e voltando a pé de um lado a outro de Westeros ou esqueceu completamente quem era aquela pessoa que chegava no meio de uma cena, já no meio do assunto, brandindo (mais) uma espada.

Vamos tirar de frente o choque causado por aquela cena com Jon Snow, o estupro de Sansa, o sacrifício da menina Shireen ou a caminhada vexaminosa de Cersei. O que sobra são histórias que, se formos sinceros com nós mesmos, são bem mal contadas. Nada do que se relaciona à viagem de Jamie a Dorne e a tudo que lá se passou empolga. Pode até ser diferente nos livros, mas, na televisão, parecem subaproveitadas.

O mesmo vale para os momentos de Arya lavando cadáveres e os chãos do templo, à revelia da trama de seu irmão Bran, que terminou em alta na temporada anterior e, nesta, foi cortado sem muita cerimônia. A desculpa na época foi de que a série havia chegado no mesmo ponto dos livros para esta história, então era melhor “dar um tempo”. (Só é possível especular se a mesma justificativa pode valer para o caso de Jon Snow e o que isso significaria.)

Outro dia mesmo esse sumiço foi lembrado pelo colega Pedro Venceslau de quem discordei só por esporte e que definiu de forma brilhante a situação política atual de Westeros: “Se fosse um jogo de War, a partida estaria naquele ponto em que o tabuleiro fica lotado de peças coloridas, mas ninguém tem coragem de ir para cima”.

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Arya à espera de si mesma

O fator mais preocupante, se eu tivesse que elencar só um, é que, com o crédito que subiu no domingo à noite, foram também as últimas histórias escritas em livro por Martin, que não é exatamente a pessoa mais rápida do mundo. Dizem que são tantas as versões e cortes nos originais que o que acaba sobrando é pouco mais de uma dezena de material aproveitável. Ele até gosta de contar uma anedota de que deixou em um cofre num banco um calhamaço de 14 mil linhas detalhando tudo o que deve acontecer na série caso ele morra antes de terminá-la. A chave estaria com sua editora.

Pois bem, considerando só o que ele já publicou até hoje, um leitor comum levaria umas cem horas para atravessar essas milhares de páginas. Na TV, vimos cerca de cinquenta horas. Logicamente, muita coisa teve de ficar de fora, mas parece que, de tanto cortar, chegamos a um mínimo necessário para se manter no ar e sustentar meia dúzia de momentos realmente bons enquanto a série se vira com o resto. Poderia bastar para um programa qualquer, mas Game of Thrones tem de ser mais do que isso.O segredo até agora parece ter sido criar debates tão inflamados sobre pontos tão absurdos (tem violência sexual demais, sim), que o público para de perceber que, em boa parte do tempo, não está acontecendo nada demais. É quase como se esses momentos fossem o ponto de chegada de toda e qualquer ação, mesmo que nem tudo que acontece se oriente na mesma direção.

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Nada sabemos de Jon Snow

Já houve um tempo em que assistir a uma série de televisão era algo relativamente seguro. Não havia o risco de seu personagem favorito virar um bandidão do nada ou, pior, morrer sem mais nem menos. Mas desde que Família Soprano inaugurou um novo estilo para as séries de TV, seguido depois por Breaking Bad, Mad Men e até Dexter, entre outras, algumas ousadias se tornaram coisa corriqueira. Personagens principais de caráter dúbio não são nem de longe impensáveis hoje, nem a necessidade de desapegar de toda e qualquer pessoa por quem você tenha simpatia do lado de lá da história.

Fora isso, há um problema matemático simples. Por mais que a HBO queira estender essa novela por tanto tempo quanto for possível, os criadores já disseram em mais de uma ocasião que estamos no arco final da história e que sete temporadas foram sempre sua meta final.

Isso quer dizer apenas uma coisa: faltam só mais duas temporadas, ou melhor, vinte episódios para resolver toda a questão do herdeiro verdadeiro do trono, das vinganças entre as famílias, do racismo que separa os personagens dos selvagens, de qual a relação entre a magia do Deus de Muitas Faces e a feiticeira, se é que existe alguma, de onde foram parar os lobos, do que vai ser de Sam e Gilly, de quando os outros dragões serão enfim livres e de que diabos são os whitewalkers e o que eles querem.

É só fazer uma conta rápida e ver que ela não fecha: até agora, foram mais ou menos três livros adaptados em quatro temporadas. Para terminar em dois anos, seria preciso fazer caber quatro obras em três temporadas. E duas delas ainda nem estão escritas. Uma nem sequer vai estar pronta até lá!

Benioff justifica a relação com os livros dizendo que eles nunca prometeram para ninguém que iam fazer uma série normal, com começo, meio e fim. E isso, bem, nem sempre é um bom sinal. Ele pode jurar o quanto quiser que sempre soube onde tudo vai acabar, mas qualquer um que tenha sobrevivido à metade final de Lost sabe o valor que isso tem (nenhum).

Quando o inverno chegar, é bom que ele leve consigo o medo quase irracional de que, ao fim e ao cabo, Game of Thrones seja só mais um Lost passado em outro mundo.

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