selomostra39

A produtora Vania Catani inaugurou o ‘Memórias do Cinema’ da 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com um relato afetivo sobre os filmes que marcaram sua vida tanto como espectadora quanto professional.

“Eu não tenho uma relação intelectual com o cinema. Minha relação com o cinema é afetiva. Mesmo já trabalhando com isso há mais de 20 anos, não tenho um pensamento formal sobre isso. Eu gosto de filmes que todos acham ruins, eu não gosto de filmes que todos acham incríveis. Minha relação permanece com a de quando eu era espectadora. Eu sou público”, contou a produtora de longas como A Festa da Menina Morta (2008), de Matheus Nachtergaele, e O Palhaço (2011), de Selton Mello.

Vania, que nesta edição da Mostra vem a São Paulo para exibir sua mais nova produção, o longa Mate-me Por favor, de Anita Rocha da Silveira, acrescentou que o que mais gosta é ir ao cinema e esquecer que é produtora e que trabalha com cinema. “Porque se eu ficar pensando demais é sinal de que o filme não me levou. Então, o bom filme é o que me faz esquecer que eu trabalho com isso. Eu posso até rever depois, para poder prestar atenção em algum aspecto” completou ela, que também produziu longas como Quase Samba (2013), de Ricardo Targino.

“Há quem ache que o conhecimento da linguagem cinematográfica pauta o sentimento que a pessoa tem por um filme que ela vai ver. Acho tudo bem, normal isso. Mas comigo, apesar de estudar a linguagem, fazer cursos, me informar, não é assim. Eu vejo os filmes livre, para gostar ou não gostar”, contou Vania.

Cena de 'Mate-me Por Favor', produzido por Vania Catani e dirigido por Anita Rocha da Silveira
Cena de ‘Mate-me Por Favor’, produzido por Vania Catani e dirigido por Anita Rocha da Silveira

 

A primeira vez no cinema e o ‘Programa de Domingo’

Muito por sua relação afetiva com o cinema, a produtora preferiu, em vez de ranquear seus filmes preferidos, ponderar que a memória que temos em relação ao cinema está intimamente ligada aos sentimentos e aos momentos que passamos na vida. “É impossível ranquear sentimentos. Confesso que não lembro a primeira vez que fui ao cinema. Mas jamais esquecerei a primeira memória que tenho que envolve o cinema”, relatou a produtora. “Eu tinha uns sete anos e uma tia minha ganhou num concurso na rádio ingressos para ver um filme sobre a Copa de 1970. O filme se chamava ‘Brasil Bom de Bola’ e foi incrível ver. Naquela época os filmes ou não passavam na TV ou não passavam na casa da minha família porque a gente não tinha televisão”, continuou ela.

Vania, que é natural de Montes Claros (norte de Minas), havia acompanhado toda a Copa com o pai, que ouvia os jogos no rádio. “Eu tinha sentido toda a emoção pelo som, mas não tinha imagem daquilo. O som do rádio, dos foguetes do meu pai feliz, da cidade. Mas não tinha imagem desta emoção. Então, vi este filme na tela grande do Cine Montes Claros. Talvez não tenha sido a primeira vez que fui ao cinema, mas é a primeira vez que me lembro, porque foi muito emocionante ver o jogo na tela grande”, relata.

Como era tradição em cidades do interior brasileiro, Vania lembra que ir ao cinema não era um programa atrelado ao filme em questão, mas sim um programa que as famílias faziam sempre. “Nossa relação não era também intelectual com os filmes. A gente ia ao cinema. Evidentemente que meu gosto foi apurando com o tempo. Mas por muito tempo havia um programa clássico que era ir ao cinema, depois à missa e depois tomar lanches no Esquina Lanches, tomar uma banana split”, relembra ela. “Com isso, eu vi milhões de filmes, que fizeram parte da minha formação e da minha adolescência, do primeiro beijo, lembro até hoje a música que tocava quando apagavam as luzes antes dos longas começarem. Era muito lindo.”

Cena de 'Era Uma Vez no Oeste', de Sergio Leone
Cena de ‘Era Uma Vez no Oeste’, de Sergio Leone

A produtora lembra que as grandes produções da época foram decisivas para começar a formar seu olhar cinematográfico, dos filmes-catástrofe como Inferno na Torre (1974) , Tubarão (1975), Terremoto, Aeroporto 77 (1977). Mas um gênero em particular a marcou profundamente: o Western. “Lembro que muitos anos atrás eu fui ver, durante o Festival de Cannes, uma sessão de O Deserto dos Tártaros, (1970, de Valerio Zurlini) que eu amo, na seção Sony Classics. Todos os atores estavam na sessão e o Giuliano Gemma (ator e lendário Ringo dos western spaghetti) sentou do meu lado. Quase tive um ataque. Ele estrelava os filmes clássicos que eu via nos anos 70. Foi emocionante ver o filme a seu lado”, narra ela, que também é fã das trilhas sonoras do músico e cantor italiano Gianni Morandi.

A produtora é tão fã de westerns que revê os filmes de Sergio Leone todos os meses. “Tudo que eu faço na minha vida é para que um dia eu faça um western, lá em Montes Claros, na minha terra. Estou treinando para chegar nisso. Vai ser minha obra-prima e depois eu paro.”

Vania também revê muito os filmes de Marlon Brando. “A primeira coisa que eu fiz quando comprei um videocassete foi ir à locadora e alugar todos os filmes do Brando e ver tudo de uma vez. Até hoje eu gosto de ver uma sequência de filmes de um grande ator.”

Ela conta que quando já era adolescente, passou a frequentar, ainda em Montes Claros, o Cine São Luís, que exibia os filmes mais sofisticado. Foi também quando viu suas primeiras pornochanchadas. Em seguida, depois de ter visto pela primeira vez um filme ser rodado, em sua própria cidade, Cabaret Mineiro (1980), de Carlos Alberto Prates, e entender como funcionava a engrenagem do cinema, Vania se mudou para Belo Horizonte.

Vania relevou que ficou muito impressionada em descobrir como se fazia cinema, que até então “eram coisa de americanos”, mas que não sentiu a vontade de trabalhar com cinema nesse momento. Essa vontade surgiu paulatinamente, quando já morava em Belo Horizonte e passou a frequentar o cinema Humberto Mauro e a conhecer a obra de cineastas como Pier Paolo Pasolini e Jean Luc Godard. “Fui sendo maravilhosamente transformada, desvirtuada e virei outra pessoa”, relata. “Havia muitos cinemas de rua nos anos 80 em Belo Horizonte, uma cidade que gostava tanto de cinema que houve até uma passeata para baixar o preço do cinema.”

De espectadora para profissional dos sets, Vania passou quando deixou um emprego estável como produtora musical da TV Minas para ser assistente de arte do Clovis Bueno, em O Menino Maluquinho (1995), de Helvécio Ratton. Antes, participou de um grupo que pesquisava, produzia e organizava festivais de videoarte. “Éramos os loucos da videoarte. Víamos o tempo todo. Mas formou muito meu olhar para o que faço hoje. Foi aí que eu comecei a ver o audiovisual com um olhar mais intelectual. Foi muito bom e muito importante.”

Em 1999, Pedro Bial convidou Vania para ser produtora do longa Outras Histórias, inspirado no universo de Guimarães Rosa. “O filme foi rodado em Montes Claros, vejam só! Tentei dissuadi-lo o tempo todo a filmar lá, mas ele não desistiu. E filmamos. Aí o filme foi rodado, a equipe foi embora e eu fui junto”, relata Vania, que, então, foi morar no Rio de Janeiro.

Pouco tempo depois, ela fundou a produtora Bananeira Filmes, que produziu, além dos longas já citados, como O Palhaço e A Festa da Menina Morta, longas premiados como Narradores de Javé (de 2003, a primeira produção da Bananeira, dirigida por Eliane Caffé); Feliz Natal (2008), de Selton Mello; País do Desejo (2011), de Paulo Caldas; La Playa (2012), de Juan Andrés Arango Garcia (em coprodução com a Colômbia); Billi Pig (2011), de José Eduardo Belmonte.

Atualmente, entre outros projetos, Vania trabalha na finalização de O Filme da Minha Vida, de Selton Mello, e na coprodução com a Argentina, Zama, de Lucrecia Martel, que atualmente está no Rio de Janeiro, editando o longa.

“A Lucrécia mesmo diz. E tem razão. Eu como produtora, vejo o projeto nascendo. Eu sou como uma parteira, fico vendo a dor, a delícia de acompanhar o processo de criação de um filme”, filosofa Vania. “É um grande privilégio. Só mesmo um produtor tem isso, pois estamos desde o momento em que o filme é só uma ideia até o momento em que nasce. É muito intenso o processo. E penso em como é lindo isso.”

 

 

Comentários

comentários