O homenageado desta edição do Festival In-Edit é um senhor de fala mansa, pouco afeito a redes sociais, realities show ou qualquer banda em particular do atual cenário mainstream. “Hoje todos os grupos desaparecem muito rápido. Eles têm nomes engraçados e desaparecem”, diz o documentarista Murray Lerner ao TelaTela, por telefone, de sua casa em Nova York.

O homem que registrou de perto performances históricas de The Who, Jimi Hendrix e Johnny Cash, entre outros, realmente parece deslocado em um tempo onde a ordem é o realizador-protagonista de sua obra. Seus filmes, por outro lado, seguem a escola clássica, da estética conhecida como “fly on the wall”, consagrada pelo Cinema Direto norte-americano.

O diretor é um observador puro, que tem como função apenas registrar com a câmera aquilo que seu olhar capta. Quanto mais apurado o olhar, mais importante o registro.

Ele será homenageado agora na programação do  In-Edit Brasil (São Paulo, de 1º a 12/7; Salvador, de 14 a 19/7).

E não foram poucos os momentos significativos da história da música que este senhor viu de perto. Seu filme ‘The Other Side of the Mirror: Bob Dylan at the Newport Folk Festival’ acompanhou o auge do músico em três anos seguidos, 1963, 1964, 1965, justamente quando Dylan passou de messias folk a figura massacrada pelo uso da guitarra elétrica, um insulto aos puristas do gênero.

Lerner admite que este foi o momento mais marcante e empolgante de sua carreira, mas revela que nunca teve uma relação próxima ao trovador. “Eu estava lá para gravar os shows, não precisava conhecê-lo na intimidade, até porque ele é um sujeito muito reservado. Sua música é o suficiente.”

 

O filme 'The Other Side of the Mirror: Bob Dylan at the Newport Folk Festival' é uma das cinco obras de Murray Lerner em cartaz no In-Edit 2015
O filme ‘The Other Side of the Mirror: Bob Dylan at the Newport Folk Festival’ é uma das cinco obras de Murray Lerner em cartaz no In-Edit 2015

“Ver uma performance crescer na tela de cinema até o ponto de chegar a ser hipnótica”, esta é a maior surpresa que diz ter experimentado ao trabalhar com documentários musicais há quase meio século. “As gravações que fiz nos anos 60 e 70 ficaram ainda mais relevantes à medida que estes artistas foram ganhando importância na história.”

“Tenho material gravado lá também de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Espero um dia conseguir montar um filme dessa participação deles.”
Por isso mesmo, nos últimos anos Lerner tem se dedicado a tirar de seu baú registros inéditos, filmados durante o festival de Isle of Wight 1970, no Reino Unido, com apresentações de artistas como Leonard Cohen e Miles Davis. “Tenho material gravado lá também de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Espero um dia conseguir montar um filme dessa participação deles.” Um jovem Gil é inclusive visto rapidamente em cena, como membro da plateia, em seu filme ‘Miles Electric: A Different Kind of Blue‘, que capta a performance do gênio jazzista em solo britânico, 45 anos atrás.

Perguntado se existe algum artista atual que o inspiraria a filmar um documentário, ele hesita. Ao final responde “Eric Clapton”, para logo depois reconhecer, entre risos, que não se trata exatamente de um músico dos mais novos.

Cena de 'Blue Wild Angel: Jimi Hendrix Live at the Isle of Wight 1970', que integra a programação do In-Edit 2015
Cena de ‘Blue Wild Angel: Jimi Hendrix Live at the Isle of Wight 1970’, que integra a programação do In-Edit 2015

O projeto em que está trabalhando agora vai num sentido mais amplo. Lerner diz que tem entrevistado muita gente com uma pergunta aparentemente simples: o que é a música para você? “A música tem o poder de unir pessoas de diferentes formações e locais, por isso acho um tema tão importante. Gostaria de investigar isso.”

Já no final da conversa, quando fala sobre a homenagem que recebe nesta edição do In-Edit, bastante agradecido e lamentando não poder estar presente, o veterano reflete sobre a diferença de seus filmes e do que tem visto nos últimos anos.

“Minha abordagem é clássica. Gostaria de ver mais gente fazendo isso hoje em dia. Não gosto do estilo cheio de cortes rápidos sem propósito que domina os vídeos de música hoje. Não acho, por exemplo, que é preciso cortar para um instrumentista na hora exata em que ele vai tocar seu instrumento. Se você permanecer mais tempo em um músico, pode gerar uma cena muito mais interessante.”

Sempre com um tom mais pensativo do que professoral, Lerner conclui: “Certamente os artistas brasileiros têm muito a dizer. Não sei se sou exemplo a ser seguido, mas se alguém que assistir aos filmes se inspirar em mim, ficarei muito honrado”.

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