Em Muito Romântico, filme da dupla Melissa Dullius e Gustavo Jahn, nada é comum. Mais do que uma linha narrativa, os diretores (também atores e produtores do longa) estão interessados em explorar sensações e sobrepor expressões artísticas. De tendência disruptiva, o longa remonta uma viagem do casal de Porto Alegre para Berlim a bordo de um navio cargueiro, trafegando entre o registro documental e o encenado.

Depois de estreia mundial elogiada no Festival de Berlim em 2016, o filme chega ao circuito comercial, como parte da Sessão Vitrine Petrobrás. “Poder chegar ao circuito comercial em salas de cinema de todo o Brasil e encontrar um público amplo e diverso é um sonho que se torna realidade”, definem.

Por e-mail, Melissa e Gustavo responderam conjuntamente às perguntas do TelaTela sobre o processo de criação de Muito Romântico. Veja abaixo:

TelaTela – Qual foi o ímpeto criativo que originou Muito Romântico, um filme que se distancia de narrativas mais convencionais?

Melissa Dullius e Gustavo Jahn – O impulso inicial foi a viagem que fizemos quando nos mudamos de Porto Alegre para Berlim no final de 2006, feita a bordo de um navio cargueiro. Chegando em Berlim, decidimos que o filme não se encerraria com o fim da travessia do Atlântico, mas seguiria “navegando” ao sabor dos ventos e ao longo dos anos.

Começamos filmando espaços que íamos descobrindo em Berlim que nos remetiam às memórias da viagem de navio. A medida que íamos conhecendo pessoas e a nossa relação com o novo lugar ia se desenvolvendo, passamos a encenar situações que representavam nossas primeiras experiências, misturando fantasias, registros do cotidiano e incorporando objetos e imagens que íamos encontrando no caminho. A partir disso imaginamos uma narrativa que fizesse embaralhar as dimensões tempo (presente, passado, futuro)- e espaço (navio, oceano, cidade, quarto do casal).

Partindo de questões formais instigantes para nós, desembocamos em uma narrativa dramática: uma história de transformação pessoal da dupla protagonista enquanto indivíduos, casal e duo de artistas. Uma história que vai sendo contada num eterno presente, ressignificando o passado e projetando o futuro.

O filme demorou quase dez anos para ficar pronto. No meio deste processo, quais foram os desafios para concluí-lo?

Fazer um filme autofinanciado, em qualquer contexto, é uma luta. É necessário contar com uma rede de amigos, parceiros e apoiadores/colaboradores que abracem o projeto e conspirem para a sua realização. Talvez o tempo de feitura do Muito Romântico tenha a ver com o tempo que levamos para estabelecer essa rede num lugar ao qual chegamos sem conhecer quase ninguém, e onde aportamos sem convite, compromisso ou garantias, sem nenhum plano concreto a não ser o de viver fazendo filmes e fazer filmes vivendo.

Em Berlim passamos a usar quase que exclusivamente a película 16mm para fazer filmes (já filmávamos em película no Brasil, em Super 8, e também 16mm), e Muito Romântico também documenta esse processo de aprendizagem, de fazer filmes “com as próprias mãos”, revelando, cortando e projetando o material. Isso foi dando uma forma, tanto no nível estético como na maneira de produzir: trabalhando em associações fora do sistema comercial, que priorizam a colaboração e as trocas.

Por ser um processo em aberto, que se molda enquanto acontece, e que precisa de tempo para ser vivido, assimilado e realizado, é, em si, uma aposta arriscada, por vezes dolorosa, mas que também possibilita descobertas, e isso é muito gratificante.

Filmes sobre brasileiros em solo estrangeiro têm sido uma constante no cinema recente, até por conta das co-produções com outros países. Quais aspectos desta experiência vocês estavam mais interessados em abordar?

Viajantes, estudantes, intelectuais, artistas e outros profissionais do Brasil estão circulando mais pelo mundo nos últimos anos, e isso se reflete na forma que a produção atual vem tomando. Isso se deve a uma série de políticas públicas de inclusão que deram muitos frutos e que, como muitos sabem, estão agora ameaçadas. Se deve também a maneira como as sociedades ao redor do mundo têm se desenvolvido, e por motivos seja de ordem tecnológica, política, social, econômica e especialmente por questões de conflitos territoriais, tem colocado a noção de fronteiras em constante perspectiva e questionamento.

Somos viajantes e por isso mesmo esperamos que cada vez mais seja possível mover-se por esse mundão, acreditando que isso enriquece as pessoas no sentido de riqueza que importa, e por conseqüência enriquece o lugar de origem dessas pessoas, que retornam abrindo novas portas e caminhos, semeando novas idéias.

Muito Romântico mistura artes plásticas, literatura, música, dança… Como estas outras expressões foram sendo incorporadas ao filme?

Muito Romântico é entre outras coisas uma reflexão sobre e um resultado do acúmulo. Acúmulo, ao longo dos anos, de experiências, encontros, descobertas, medos e fantasias, mas também de coisas concretas, objetos, instrumentos, roupas, tecidos, materiais, texturas, sons e ritmos. É um acervo que forma a nossa memória, e que reorganizamos para produzir esse filme. Há um excesso de coisas, imagens e mesmo obras de arte no mundo, e propusemos a nós mesmos fazer um filme com as coisas que já estavam ali.

Combinamos esses elementos através de uma operação conhecida como colagem nas artes. Descontextualiza-se elementos para, combinando-os, formar algo novo. E isso reflete o processo pelo qual nós passamos enquanto criadores/autores/atores, e que é ao mesmo tempo a história do filme: uma desterritorialização que possibilita a reinvenção.

A natureza híbrida do filme deve-se também ao fato de ser uma ação entre amigos, ou um mutirão. Um trabalho capitaneado por nós, mas feito sob a influência de artistas que admiramos e com quem colaboramos. O fruto do esforço físico, intelectual e emocional de mais de cem pessoas, que formam conosco comunidades, em Berlim e diversas partes do mundo.

Como fazer um filme tão radical em seu experimentalismo achar seu público no circuito comercial de cinema?

Na perspectiva que temos também como produtores desse filme, poder chegar ao circuito comercial em salas de cinema de todo o Brasil e encontrar um público amplo e diverso é um sonho que se torna realidade. Após 15 meses de exibições em festivais internacionais, sessões de cineclubes e mostras especiais desde a estréia na Berlinale em 2016, nos sentimos muitos gratos, tanto pelas escolhas quanto pelos acasos que vão nos permitindo continuar a navegar.

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