40mostra_peqExistem duas tramas paralelas que se cruzam ao longo de Morte em Sarajevo, novo filme de Danis Tanovic. Numa delas, no alto de um luxuoso hotel da capital bósnia, uma repórter conduz uma série de entrevistas sobre a complexa história geopolítica e social dos Bálcãs, desde o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando (ocorrido em Sarajevo e decisivo para o início da 1ª Guerra Mundial) até os dias de hoje. Na outra, os corredores deste mesmo hotel, prestes a receber oficiais de diferentes nações por conta do centenário do fato histórico, se transformam em um barril de pólvora pela ameaça de greve dos funcionários, cujos salários estão dois meses atrasados.

Tanovic constrói habilmente uma atmosfera de tensão crescente nas duas linhas, que entram em combustão no clímax, e não se furta de escavar os traumas da nação onde faz seus filmes até hoje – Terra de Ninguém, seu primeiro longa, ganhou o Oscar de filme estrangeiro em 2001, derrotando o favoritismo do francês O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

“O problema em meu país é que nenhum dos lados ganhou”, disse o cineasta ao site britânico The Upcoming, durante o último Festival de Berlim, do qual Morte em Sarajevo saiu com o Urso de Prata do Júri e foi escolhido como melhor filme pela FIPRESCI, a Associação de Críticos Internacionais.

’Morte em Sarajevo’ na 40ª Mostra

Segunda-feira (31/10) às 13h30 no Espaço Itaú Frei Caneca 2 | Terça-feira (1º/11) às 22h no Espaço Itaú Frei Caneca 3

“Todo mundo na Bósnia está tentando provar que eles eram os mocinhos, o que é um grande problema pois significa que a nossa história nunca está definida. Toda sociedade parece ter estes traumas e culpas, o que causa revisionismo e nos impede de trabalhar em melhorias. Nós estamos no século 21 e ainda há gente em Sarajevo vivendo sem água. Enquanto isso, as pessoas estão preocupadas se Gavrilo Princip (o homem que atirou no arquiduque em 1914) era um terrorista ou um libertário”.

A crença de Tanovic de que esta querela histórica impede seu país de olhar para questões mais urgentes é dramatizada quase ao pé da letra no filme, como metáfora. Enquanto no terraço do Hotel, a repórter se envolve em uma discussão ferrenha com um defensor dos atos de Princip 100 anos atrás, a verdadeira notícia acontece debaixo de seus pés, sem que ela se dê conta, com o dono do estabelecimento e seus funcionários envolvidos num conflito cada vez mais violento.

No centro da trama está Lamija (Snezana Vidovic), recepcionista que é ao mesmo tempo filha da líder dos grevistas e braço direito do gerente Omer (Izudin Bajrovic). Ela é a representação humana do dilema proposto, dividida entre os deveres profissionais e suas crenças, conforme é submetida aos mais diferentes tipos de abusos psicológicos e físicos.

Além do discurso político contundente, Morte em Sarajevo tem grandes momentos também enquanto linguagem cinematográfica, com seus planos sequência que colocam os espectadores sobre os ombros dos personagens, o roteiro que vai amarrando cada ação (o segurança em meio a uma discussão conjugal e tiros de cocaína que se revela fundamental para o desfecho) e uma edição que sabe quando acelerar e quando esticar suas cenas, dando um tom de suspense ao longa. Essencial em todos os sentidos.

Nossa Opinião

10.0
Tanovic constrói habilmente uma atmosfera de tensão crescente nas duas linhas, que entram em combustão no clímax, e não se furta de escavar os traumas da nação onde faz seus filmes até hoje
Nota 10.0

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