Nossa Opinião

6.5
O filme mergulha na intimidade do músico apenas para não tirá-lo do pedestal que alcançou no imaginário da cultura pop.
Nota 6.5

Nos últimos 21 anos, muita coisa já foi dita sobre o suicídio de Kurt Cobain. Fãs, jornalistas e colegas apontaram motivos, procuraram culpados e lamentaram enquanto o culto ao vocalista do Nirvana só crescia. A proposta de documentário ‘Montage of Heck’ é trazer de volta a voz do próprio Cobain. Para isso, conta com um volume impressionante de material: são diários, filmes caseiros, desenhos e fitas cassete que formam um mosaico dos seus 27 anos.

Em contrapartida, o número de entrevistados é reduzido: falam pais, irmã, madrasta, uma antiga namorada, o baixista Krist Novoselic e a viúva, Courtney Love. Dave Grohl, baterista do Nirvana, ficou de fora por uma questão de agenda, segundo o diretor, Brett Morgen. Mesmo com a ausência, o filme entrega justamente o que os fãs querem: uma figura ao mesmo tempo atormentada e brilhante, um anti-herói relutante que meio sem querer querendo foi alçado ao posto de porta-voz da juventude dos anos 90.

Todos os depoimentos reforçam sua energia e criatividade. Não há dissonância no discurso, e já aparecem polêmicas na imprensa questionando as versões contadas na tela. Buzz Osborne é o fundador do líder da banda Melvins, conheceu Cobain desde a juventude em Aberdeen e chegou a abrir shows do Nirvana. Nas últimas semanas, foi à imprensa para dizer que “90% do filme é mentira”, incluindo aí a história sobre as primeiras experiências sexuais de Kurt e sua suposta tentativa de suicídio nos trilhos do trem.

No recorte de Morgan, filmes em Super 8 mostram os primeiros aniversários de Kurt enquanto a mãe conta que, já aos quatro anos, o filho tomava ritalina, receitada por uma professora, para se acalmar. Rejeitado pelos pais, ele cresceu revezando entre as casa da família, deslocado no colégio, desenhando e escrevendo compulsivamente, de forma angustiada. Quando finalmente descobriu o punk rock, encontrou sua vocação.

O salto para a fama, com o disco Nevermind (1991), é feito de forma repentina. Vemos Kurt Cobain vivendo de subempregos enquanto toca para duas ou três pessoas. Corta para o contrato com uma grande gravadora, topo das paradas de vendas, luzes, atenção, fãs, entrevistas, capas de revistas. Parece de fato avassalador, e é comum a tese de que o líder do Nirvana não estava preparado para lidar com isso e acabou entrando numa espiral de drogas e autodestruição. O documentário pouco faz além de endossar esta versão.

Morgen ainda usa demoradamente os vídeos caseiros do casal Kurt e Courtney, um exercício de voyeurismo que nos faz vislumbrar o quão doentio seria um reality show estrelado pelos dois.

A grande contradição de Cobain era querer se isolar do mundo, ao mesmo tempo em que queria sua obra reconhecida. ‘Montage of Heck‘ herda essa característica ao mergulhar na intimidade do músico apenas para não tirá-lo do pedestal que alcançou no imaginário da cultura pop.

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