“Portugal está muito dividido hoje em dia”, define o cineasta Miguel Gomes. O principal motivo é a política de austeridade adotada ao longo dos últimos quatro anos pelo governo de centro-direita, que fez o desemprego e a emigração dispararem, num dos países mais pobres da Europa Ocidental. Mesmo assim, a coalizão do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho conseguiu a reeleição no último pleito, realizado em outubro.

No mesmo mês, As Mil e Uma Noites desembarcava na Mostra Internacional de São Paulo. Dividida em três volumes (O Inquieto, O Desolado e O Encantado), que também funcionam de forma independente, a obra mistura documentário, ficção e realismo fantástico para compor um painel da crise econômica e social que tomou conta de Portugal, especialmente no biênio 2013/2014.

[Leia a crítica do filme]

Sobre o papel do cineasta em tempos de crise, o processo de seleção das histórias que compõem a trilogia e a recepção do filme em sua terra natal, Gomes falou ao TelaTela:

As Mil e Uma Noites foi feito num contexto de crise em Portugal, e no mundo todo. Qual é a função do cinema, ou do cineasta/artista, em tempos como estes?

Não acho que ele seja obrigado a fazer um filme sobre a crise. Me lembro que Manoel de Oliveira, em 1975, ou seja, um ano depois da Revolução dos Cravos em Portugal, foi filmar Benilde, adaptação de um texto do início do século XX. E muitos colegas dele o viam como um reacionário, que estava a filmar os dramas existenciais de senhoras burguesas, em vez de se dedicar à revolução. Hoje, com o tempo, vê-se que era besteira, porque os outros fizeram filmes de merda e o Oliveira fez uma obra-prima.

Mas eu vejo que o cinema, pelo menos o que me interessa, não pode estar fechado em si próprio. Para mim, para ser válido, ele pode estar cheio de fantasia, imaginário, e coisas que fazem parte do mundo do cinema e não do mundo da vida, mas tem que haver uma conexão com o real. Eu, pessoalmente, não pude deixar de me sentir interpelado pelo que estava acontecendo em Portugal. Senti que, com a oportunidade de fazer um filme, deveria fazer sobre a experiência de viver no país naquela época.

E é possível para o artista, teoricamente uma pessoa sensível por natureza, não acabar se contaminando por esse contexto de crise? Nesta edição da Mostra tivemos uma leva considerável de filmes pesados, pessimistas…

Meu amigo, primeiro, desconfie da sensibilidade dos artistas. Acho que é um bom lugar para começar (risos). É fato que nós não estamos num momento muito otimista na Europa, pelo que estamos vivendo hoje, com a crise dos imigrantes, com as crises econômicas, sobretudo nos países mais frágeis, como Portugal. Isso tudo tem nos mostrado que este negócio da solidariedade e dos valores que não tem a ver com dinheiro são muito relativos.

Agora, no cinema, tem que entrar toda a gama de visões e emoções. Há dias em que estamos pessimistas e há dias em que estamos otimistas. É normal que tudo isso apareça e que faça parte dos filmes. E, para mim, também faz parte dos filmes essa coisa de não ser tão monolítica, de não ser só uma coisa ou outra. Acho que isso tem a ver com o fato de que eu, quando vou fazer filmes, não tenho uma ideia pré-concebida. Eu vou fazendo.

Em As Mil e Uma Noites de alguma forma isso aconteceu de forma ainda mais intensa. Eu ia filmando as histórias sem saber o que ia aparecer em seguida. O filme vai mudando também, sendo mais cômico, mais triste ou mais melancólico, mais zangado… Passa por todos estes estágios, como nós passamos na vida. Se nós, ao fazermos o filme, já soubermos qual é o sentimento global que queremos para ele…Talvez se façam até filmes mais fortes que As Mil e Uma Noites, mas não é minha maneira de fazer.

Quando assisti ao filme, interpretei que ele próprio, ou seu criador, fosse uma espécie de Sherezade, inventando a cada noite histórias novas para sobreviver a seu carrasco, que poderia ser essa crise social. Seria por aí?

Nunca tinha pensado nessa relação, mas sim, há qualquer coisa do diálogo com o real e com as dificuldades reais da população em Portugal e vi qualquer coisa nessa ideia da Sherazade de estar ali a trabalhar para criar coisas extraordinárias, esses personagens, alguns deles ridículos, outros comoventes.

Então todo esse trabalho de criação confronta a visão de real da mídia, onde há uma série de colunistas que dizem que esta é a política certa porque não há outra. E contra a política única, acho que Sherazade, se não tem poder para fazer uma política alternativa, pelo menos pode mostrar que o mundo não é só uma coisa. Tem também lugar para galos que falam, baleias que explodem e muitas coisas diferentes.

E quando surgiu o estalo de que, para retratar este momento de Portgual poderia se fazer a brincadeira com a estrutura original de As Mil e Uma Noites?

Não sei se houve um momento preciso. Isso foi surgindo. Há muito tempo tinha vontade de fazer um filme de contos, há muito tempo que gostava do livro As Mil e Uma Noites. Inclusive acho que esta adaptação, que não adapta nada a não ser o espírito, é parecido com o que fiz Tabu. Aquele filme não é uma adaptação da obra do Murnau, mas que tivesse qualquer coisa da minha sensação como espectador de estar vendo um filme do Murnau.

Então quis também ter aquele sentimento de ler As Mil e Uma Noites e de entrar naquele universo de histórias dentro de histórias, narradores que vão mudando, todo este universo e também aquele tipo de ficção, que é muito extrema, muito selvagem, muito pouco domesticada. Achava que era uma boa para aqueles tempos que estávamos a viver em Portugal, que eram tempos selvagens também.

Como você chegou nas histórias que aparecem no filme?

Montamos um estrutura com uma equipe de jornalistas para investigar as coisas que estavam acontecendo naquela altura em Portugal. Eles voltavam e nos contavam qual tinha sido o resultado deste trabalho. Nós escolhíamos as histórias, e às vezes cruzávamos várias, e dizíamos ‘ok, isso pode dar uma história para Sherazade’.

Nunca conseguíamos ver a estrutura toda, não sabíamos o que deveria ser o filme no final, mas para nós era muito excitante estar fazendo assim. Íamos descobrindo o filme à medida que íamos fazendo. Nenhuma história ficou de fora. Uma das decisões da montagem foi saber que tudo isso tinha sido uma viagem, um percurso que passava por registros diferentes, uma grande diversidade de personagens, de tons, linguagens e formas de cinema diferentes e que nosso filme tinha que representar este percurso, com aquela diversidade toda.

E como você sentiu a recepção do filme em Portugal?

As opiniões dividem-se muito. É realmente um filme muito pessoal e que não é parecido com a maior parte das coisas, é bastante singular e isso tem um custo. Politicamente, Portugal está muito dividido hoje em dia. Quem, por exemplo, não gosta da frase que aparece logo no começo citando a injustiça social do governo, fica de cara zangado com o filme.

Mas te incomoda essa reação?

Não, parece-me até lógico. Não me incomoda nada. Espero que elas também não se incomodem do fato de eu não gostar do governo. Apesar dos problemas todos em que estamos metidos, acho que a democracia é o único sistema que conheço que é o menos injusto. Há aqueles que acreditem que todo o sacrifício que estamos passando vai dar em algo, eu não acredito, não vejo nada disso. Mas sou democrata.

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