A personagem título de Eu, Olga Hepnarová é uma garota franzina, de ombros curvados pelo peso dos demônios que carregava nas costas. Tais demônios, acumulados e até cultivados internamente por não mais do que 23 anos resultaram em um ato trágico, que motivou sua pena de morte. Olga Hepnoravá foi a última mulher a receber esta sentença na então Tchecoslováquia, sendo executada em março de 1975, após atropelar com um caminhão dezenas de pessoas em uma praça pública localizada em Praga, no dia 10 de julho de 1973.

Antes do ataque, escreveu a seguinte carta aberta: “Eu sou uma solitária. Uma mulher destruída. Uma mulher destruída pelas pessoas… Eu tenho uma escolha – me matar ou matar outras pessoas. Eu escolho me vingar de quem me odeia. Seria muito fácil deixar este mundo como uma vítima anônima de suicídio. A sociedade é muito indiferente a isso, e com razão. Meu veredito é: Eu, Olga Hepnarová, a vítima de sua bestialidade, sentencio vocês à morte”.

O filme dirigido pela dupla Petr Kazda e Tomás Weinreb acompanha, de forma ficcionalizada, os últimos anos em liberdade da personagem. Desde a relação distante com os pais, até as experiências sexuais conflituosas, já que a personagem era lésbica em um ambiente extremamente machista como a companhia de motoristas para a qual trabalhava.

“Ela não é uma vilã, mas parecida com um animal aprisionado em uma jaula de seus próprios medos”, define a atriz polonesa Michalina Olszanska, que interpreta Olga.

Em Eu, Olga Hepnarová, suas feições lembram as de Natalie Portman, dosando uma aparente vulnerabilidade com olhares determinados, capazes de intimidar. Prestes a completar 25 anos, ela é uma das atrizes mais requisitadas do Leste Europeu.

Ano passado esteve em outro filme que, assim como Olga, também participou da Mostra de Cinema de São Paulo, A Atração. Este é um musical de terror premiado no Festival de Sundance-2016, sobre duas sereias que chegam à terra firme e passam a ser exploradas pelo dono de uma casa noturna, que as contrata como cantoras. Uma delas se apaixona por um humano, enquanto a outra, interpretada por Michalina, tem uma insaciável sede de sangue.

O tom extravagante e surrealista de A Atração, longa de estreia da cineasta Agnieszka Smoczynska, contrasta com o estoicismo quase documental de Olga, dois trabalhos que foram filmados com poucos meses de diferença. “Tenho obsessão por mudanças, simplesmente adoro quando as pessoas dizem não ter me reconhecido em um filme.”

Por email, a atriz conversou com o TelaTela sobre sua preparação para encarnar Olga Hepnarová, os paralelos entre seu personagem e os atos de violência em massa recentes, como tiroteios nos Estados Unidos, e sobre a importância do cinema em provocar reflexões, principalmente em tempos como o de hoje.

TelaTela – Desde sua execução nos anos 70, como a história de Olga Hepnarová é contada no Leste Europeu? Qual é a percepção das pessoas sobre ela?

Michalina Olszanska – Na verdade, a história era totalmente desconhecida. Para os tchecos foi uma experiência muito dolorosa, então eles trataram o assunto como um tabu por muito tempo. Este é basicamente o motivo do filme ser uma coprodução entre República Tcheca, Polônia e Eslováquia.

As pessoas na República Tcheca não estavam muito felizes com a ideia de fazer um filme sobre Olga. Porém, o que prova como eles tem a mente aberta enquanto sociedade, receberam o filme inesperadamente bem no final das contas. Por isso gosto tanto deles, eles não se prendem a seus preconceitos ou medos.

Quais aspectos da personalidade de Olga você descobriu fazendo o filme?

Ela era uma pessoa introvertida, com certeza. Sua timidez a levou até a sociopatia. O que foi crucial para mim foi não querer fazer dela apenas uma psicopata. Seria muito fácil. Tenho consciência de que gostamos de acreditar que pessoas que fazem coisas horríveis são simplesmente loucas. Hitler por exemplo. Mas este é um pensamento muito perigoso, porque nos faz perder o foco.

O ponto é que todos nós somos capazes tanto dos piores atos como os atos de bondade. Ninguém nasce mau, mas nós devíamos também trabalhar constantemente em nossa humanidade. Eu acho que o filme mostra esta luta interna em Olga. Ela tem medo da solidão, mas talvez tenha mais medo ainda das pessoas. Ela não é uma vilã, mas parecida com um animal aprisionado em uma jaula de seus próprios medos.

Como você se preparou para uma personagem tão intensa e que, ao mesmo tempo, parecia, perante aos outros, levar uma vida relativamente tranquila até a tragédia?

Primeiramente tivemos conversas muito longas com os diretores. Nós basicamente construímos o personagem antes de filmar. Senti que eles me deram todas as chaves e depois deram espaço para eu usá-las. Nossa intenção não era mostrar a “Olga real” porque não sabíamos o suficiente sobre ela. O objetivo era criar uma personagem baseada numa pessoa real. Alguém que faria o que ela fez. Uma pessoa muito perdida e solitária.

Como a história de Olga Hepnoravá dialoga com os assassinatos em massa que temos visto recentemente em lugares como as escolas dos Estados Unidos, por exemplo?

Bem, toda história é diferente, porém já foi dito que apenas duas emoções básicas nos conduzem enquanto seres humanos: amor e medo. É claro que existem dúzias de variações entre estas emoções, mas no final são todas derivadas destas duas. Eu não acredito em mal, mas o medo faz as pessoas fazerem as piores coisas. Pode ser o medo de ser rejeitado. Ou medo da ideologia oposta àquela na qual acreditamos. É assim que se cria o fanatismo.

Nós estamos em um momento em que, por todo o mundo, as questões políticas e sociais estão no centro de várias discussões, nas mais diversas áreas. Qual papel o cinema pode fazer diante disto?

Eu realmente espero que filmes como este ajudem a destruir aquela forma confortável de pensar de que terroristas são apenas fanáticos. Sim, claro que são, mas não nascem assim. Algo tinha que acontecer e talvez não esteja ligado a religião ou qualquer outra ideologia. Talvez a gente tenha que pensar sobre a forma que tratamos as pessoas. Nós falamos muito de tolerância, mas será que pensamos mesmo a respeito?

Olga não era uma fanática religiosa, não apoiava nenhum partido político. Era uma pessoa solitária e magoada que não foi ajudada por ninguém. Apenas não matar ou não machucar outras pessoas ainda não nos faz boas pessoas. Fechar os olhos não vai fazer com que estas pessoas desapareçam. O que deveríamos tentar é ajudar o máximo que conseguirmos. Nós não podemos mudar a política mundial, mas podemos tentar cuidar melhor dos nossos vizinhos.

Ano passado nós também vimos, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, outra atuação sua, totalmente diferente, em A Atração. Como foi sair de um terror musical para um drama histórico?

É muito bom não ficar preso a apenas um gênero. Chamo isto de rotação de culturas [prática comum em plantações, que consiste em alternar espécies vegetais numa mesma área para diminuir a exaustão do solo]. Não há nada pior para um ator do que fazer o mesmo personagem em filmes diferentes. Tenho obsessão por mudanças, simplesmente adoro quando as pessoas dizem não ter me reconhecido em um filme.

Michalina Olszanska como uma sereia sedenta por sangue em ‘A Atração’

Por falar em musicais, você chegou a ver La La Land, ou algum dos outros concorrentes ao Oscar? Que tipo de filmes te inspiram?

Não vi La La Land ainda, principalmente porque estou filmando. E enquanto filmo fico meio por fora de tudo. Mas sobre inspiração… Eu não posso dizer que tenha um gênero favorito. Assisto muitos filmes e séries, quando estou em casa basicamente começo e termino meu dia com a Netflix. Gosto de tudo que é considerado estranho e acredito que o tom metafórico e conceitos singulares são o futuro do cinema. Olga, por exemplo, parece um drama psicológico típico, mas a ausência de trilha sonora e a fotografia em preto e branco o faz diferente. Eu gosto do diferente.

O que você pode dizer sobre a indústria do cinema no leste europeu a respeito da situação de atrizes e cineastas mulheres? Você sente que agora mais mulheres têm ganhado visibilidade, com o crescimento mundial do feminismo?

Sim, definitivamente. Para falar a verdade, ouso dizer que na Polônia quem faz mais sucesso hoje são as cineastas mulheres. Sobre atrizes, depende muito do roteiro. Ainda há mais papéis masculinos em filmes, mas estou feliz de ver que agora há mais papéis para atrizes mais velhas. Assim nós mulheres podemos fazer algo mais do que apenas a namorada de um gângster.

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