Era noite de sexta-feira no grande Cine Brasília, mais uma vez lotado para uma das sessões da mostra principal da 48ª edição do Festival de Brasília. Quem não encontrou lugar nas 600 poltronas se dispôs a acompanhar os filmes sentado na escada, ou mesmo de pé.

Diante desse cenário, o jovem cineasta mineiro Rodrigo Carneiro, subiu ao palco para apresentar seu média-metragem, Copyleft. Vestido uma camisa ilustrada por fotos e manchetes de jornal, que faziam alusão aos crimes de homofobia cometidos no País, sua fala foi inflamada. Lembrou que, no Brasil, a cada 28 horas ocorre uma morte ligada a ocorrências do tipo. Ouviu aplausos prolongados, além de ver pessoas levantarem das cadeiras para saudá-lo.

rodrigo carneiro_copyleft

Seu filme retrata a luta de um jovem que tenta achar seu lugar dentro de uma sociedade heteronormativa, muitas vezes usando situações absurdas, como a aplicação de um gel que lhe daria a masculinidade. Por mais surreais que sejam as cenas na tela, o absurdo maior talvez seja que, em pleno século 21, essas questões precisem ainda ser debatidas tão urgentemente, antes que mais vidas se percam.

No dia seguinte, sábado, foi a vez de Claudio Assis ter o microfone em mãos, antes da projeção de seu novo longa, Big Jato. Nem a camiseta, que propunha apoio à comunidade LGBT, foi suficiente para apagar a lembrança do episódio de algumas semanas antes, em que ele e Lírio Ferreira foram acusados de misoginia pelo comportamento apresentado em debate com a cineasta Anna Muylaert na Fundação Joaquim Nabuco, em Pernambuco.

Apesar de ter o microfone, Assis foi silenciado por parte do público, que, aos gritos de “machista” e “não passarão” não deixou que o diretor se pronunciasse. Os aplausos para todos os outros membros da equipe deixaram claro que o descontentamento era direcionado apenas ao autor, e não à obra.

Aos gritos de “machista” e “não passarão”, o público que lota o Cine Brasília impediu o cineasta Cláudio Assis de falar…

Posted by TelaTela on Saturday, September 19, 2015

 

Big Jato, adaptado de romance autobiográfico de Xico Sá, é uma tentativa de Assis juntar a aspereza de seu cinema com o universo lúdico. A mistura se dá com bastante ruído e estranheza, e não demora muito para as figuras típicas de sua filmografia aparecerem.

Então lá vai o pai levar o pequeno Xico num prostíbulo, e depois fazer um violento discurso homofóbico. A justificativa comum do diretor é que está denunciando estes problemas, e não endossando-os, mas por todo o contexto formado a seu redor, a tendência é que o debate se prolongue nas próximas exibições.

Alheio à polêmica, o Júri consagrou Big Jato com cinco prêmios, incluindo o de melhor filme em competição. Os outros foram para ator (Matheus Nachtergaele), atriz (Marcélia Cartaxo), roteiro (Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco), e trilha sonora (DJ Dolores).

Dando a impressão de ser um anfitrião constrangido pelo comportamento de sua plateia, o Festival preferiu provar que tem mesmo um caso de amor com Claudio Assis. Seu longa se torna o terceiro dos quatro do diretor a sair da capital federal com a láurea de melhor filme. Os outros foram Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006).

Quem merecia melhor sorte era Para Minha Amada Morta, do baiano radicado no Paraná Aly Muritiba. Foi a obra que mais levou Candangos para casa, seis: diretor, ator coadjuvante (Lourinelson Vladmir), atriz coadjuvante (Giuly Biancato), fotografia (Pablo Baião), direção de arte (Monica Palazzo) e montagem (João Menna Barreto).

Ainda assim, só não levou o título de melhor filme na opinião do Júri – e, por consequencia, o prêmio de R$ 100 mil – por motivos não explicados. Ficou com o Prêmio ABRACCINE, dado pela crítica.

'Para Minha Amada Morta'
‘Para Minha Amada Morta’

Para Minha Amada Morta é um suspense, estrelado por Fernando Alves Pinto, que vai surpreender muita gente. Conta a história de um homem que acaba de ficar viúvo e, enquanto cuida do filho pequeno, cuida das coisas da mulher, ainda perdido, sem saber muito o que fazer com elas.

Enquanto mexe nos objetos dela, encontra uma coleção de fitas em VHS. No meio destas, descobre gravações de uma aventura sexual com um sujeito que ele desconhece.

Transtornado, ele vai atrás do cidadão e chega a alugar um quarto nos fundos de sua casa, sem nunca revelar suas verdadeiras intenções. Aliás, nem o público tem certeza de quais são elas, talvez até porque nem o personagem tenha esta clareza, diante dos sucessivos traumas. O filme joga com isso, deixando abertas uma série de lacunas e sugestões.

Movido pela obsessão, Fernando estuda o ambiente e todas as alternativas: vai cobrar explicações? Vai se vingar? Se for, de que forma: matando aquele “inimigo”, seduzindo sua esposa e/ou a filha adolescente ou contando a verdade e destruindo a família? O roteiro de Muritiba (consagrado curta-metragista, que agora faz seu primeiro longa de ficção) coloca todas as possibilidades na mesa e na cabeça do espectador.

Com todas essas ameaças pairando no ar, cada plano é um teste psicológico de alta tensão – não pelo caminho fácil de uma cena de perseguição ao som de uma trilha bate-estaca, mas como uma partida de xadrez. São vários os momentos em que Fernando parece prestes a tomar uma atitude mais drástica. Quando pega uma pá e encara seu protagonista, ou quando parece cogitar jogá-lo do telhado, por exemplo.

A beleza de Para Minha Amada Morta está neste estudo do personagem, e no jeito que está sempre disposto a quebrar a expectativa do olhar viciado de quem acompanha filmes do gênero. Quando chegar no circuito comercial, em meados do ano que vem, corra para ver.

'O Outro Lado do Paraíso'
‘O Outro Lado do Paraíso’

Acima de tudo, a atmosfera do Festival manteve o clima de grande festa ampliado pela agradável praça de alimentação montada na parte de trás do Cine Brasília. Barracas de comida e música embalavam, durante as tardes e noites, as conversas sobre o cinema do público que se espalhava pelas almofadas no gramado.

Participativos, os cinéfilos por vezes aplaudiram cenas durante a projeção, e gritaram palavras de ordem. Um dos recebido com mais entusiasmo foi O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum, postulante ao Troféu Câmera Legislativa.

O longa, que se passa durante a construção de Brasília nos anos 60 e traz um pai de família cujos sonhos são desfeitos pelo Golpe Civil-Militar, foi o melhor em sua categoria na opinião do público. A despeito da atuação pouco expressiva de Eduardo Moscovis e dos escorregões para a pieguice que quase comprometem a história.

O cunho político também esteve presente no discurso de outros realizadores, principalmente dos curtas e médias. Foi o caso de destaques como Ninguém Nasce no Paraíso, melhor curta do Troféu Câmera Legislativa na opinião do público, sobre as mulheres que são proibidas de dar a luz em Fernando de Noronha, e A Culpa é da Foto, que retrata um momento de união dos fotógrafos para um protesto contra o então presidente Figueiredo, campeão na opinião do Júri.

Para Rodrigo Carneiro, de CopyLeft, sobrou apenas o Prêmio Saruê, que faz alusão ao momento mais marcante do Festival, na opinião dos jornalistas do Correio Braziliense.

Veja a lista completa dos ganhadores do 48º Festival de Brasília:

FILME DE LONGA METRAGEM – Júri Oficial

Melhor Filme de longa metragem – R$ 100.000,00
Big Jato, de Cláudio Assis

Melhor Direção – R$ 20.000,00
Aly Muritiba, por Para Minha Amada Morta

Melhor Ator – R$ 10.000,00
Matheus Nachtergaele, por Big Jato

Melhor Atriz – R$ 10.000,00
Marcelia Cartaxo, por Big Jato

Melhor Ator Coadjuvante – R$ 5.000,00
Lourinelson Vladmir, por Para Minha Amada Morta

Melhor Atriz Coadjuvante – R$ 5.000,00
Giuly Biancato, por Para Minha Amada Morta

Melhor Roteiro – R$ 10.000,00
Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco, por Big Jato

Melhor Fotografia – R$ 10.000,00
Pablo Baião, por Para Minha Amada Morta

Melhor Direção de Arte – R$ 10.000,00
Monica Palazzo, por Para Minha Amada Morta

Melhor Trilha Sonora – R$ 10.000,00
DJ Dolores, por Big Jato

Melhor Som – R$ 10.000,00
Claudio Gonçalves e Flávio Bessa, por Fome

Melhor Montagem – R$ 10.000,00
João Menna Barreto, por Para Minha Amada Morta

Prêmio Especial do Juri
Jean-Claude Bernardet, por Fome

FILME DE CURTA OU MÉDIA METRAGEM – Júri Oficial

Melhor Filme de curta ou média metragem – R$ 30.000,00
Quintal, de André Novais

Melhor Direção – R$ 10.000,00
Nathália Tereza, por A Outra Margem

Melhor Ator – R$ 5.000,00
João Campos, por Cidade Nova

Melhor Atriz – R$ 5.000,00
Maria José Novais, por Quintal

Melhor Roteiro – R$ 5.000,00
André Novais, por Quintal

Melhor Fotografia – R$ 5.000,00
Leonardo Feliciano, por À Parte do Inferno

Melhor Direção de Arte – R$ 5.000,00
Fabiola Bonofiglio, por Tarântula

Melhor Trilha Sonora – R$ 5.000,00
Sérgio Pererê, Carlos Francisco, Gabriel Martins e Pedro Santiago, por Rapsódia para o Homem Negro

Melhor Som – R$ 5.000,00
Léo Bortolin, por Command Action

Melhor Montagem – R$ 5.000,00
Pablo Ferreira, por Afonso é uma Brazza

Prêmio Especial do Júri (Pela feliz conjugação entre o trabalho de direção e atuação coletiva):
História de uma Pena, de Leonardo Mouramateus

PRÊMIOS DO JÚRI POPULAR – para os filmes escolhidos pelo público, por meio de votação em cédula própria:

Melhor Filme de longa metragem – R$ 40.000,00
A Família Dionti, de Alan Minas

Melhor Filme de curta ou média metragem – R$ 10.000,00
Afonso e uma Brazza, de Naji Sidki e James Gama

PRÊMIOS – TROFÉU CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL – JÚRI OFICIAL

Melhor Longa-Metragem – R$ 80.000,00
Santoro – o Homem e sua Música, de John Howard Szerman

Melhor Curta-Metragem – R$ 30.000,00
A Culpa é da Foto, de Eraldo Peres, André Dusek e Joedson Alves

Melhor Direção – R$ 6.000,00
John Howard Szerman, por Santoro – o Homem e sua Música

Melhor Ator – R$ 6.000,00
Davi Galdeano, por O Outro Lado do Paraíso

Melhor Atriz – R$ 6.000,00
Simone Iliescu, por O Outro Lado do Paraíso

Melhor Roteiro– R$ 6.000,00
Marcelo Müller, Ricardo Tiezzi, José Rezende Jr. e André Ristum, por O Outro Lado do Paraíso

Melhor Fotografia – R$ 6.000,00
Lelo Santos, por O Escuro do Medo

Melhor Montagem – R$ 6.000,00
Armando Bulcão, por Alma Palavra Alma

Melhor Direção de Arte – R$ 6.000,00
Beto Grimaldi, por O Outro Lado do Paraíso

Melhor Edição de Som– R$ 6.000,00
Alessandro Laroca, Armando Torres Jr. e Eduardo Virmond, por O Outro Lado do Paraíso

Melhor Captação de Som– R$ 6.000,00
Toninho Muricy, por O Outro Lado do Paraíso

Melhor Trilha Sonora– R$ 6.000,00
Alessandro Santoro, porde Santoro – O Homem e sua Música

Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal – Júri Popular

Melhor filme de longa metragem: R$ 20.000,00
O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum

Melhor filme de curta metragem: R$ 10.000,00
Ninguém Nasce no Paraíso (Matriz Proibida), de Alan Schvarberg

PRÊMIO CANAL BRASIL
Cessão de um Prêmio de Aquisição no valor de R$ 15 mil e o troféu Canal Brasil, ao Melhor filme de curta metragem selecionado pelo júri Canal Brasil.
Filme: Rapsódia para o Homem Negro, de Gabriel Martins

PRÊMIO EXIBIÇÃO TV BRASIL

O título premiado integrará a programação da emissora.
Melhor filme de longa metragem – R$ 50 mil
Filme: Santoro – o Homem e sua Música, de John Howard Szerman

MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES

Conferido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro para o filme que destaca o uso de material de arquivo e de pesquisa cinematográfica.

Filme: Santoro – o Homem e sua Música, de John Howard Szerman

PRÊMIO ABRACCINE – O Prêmio da Crítica

“Por fazer o retrato sensível de uma solidão usando a música como condutor narrativo dos sentimentos, humanizando um personagem a princípio duro e impenetrável, o Júri Abraccine concede o Prêmio da Crítica de melhor curta-metragem a A Outra Margem, de Nathália Tereza”

“Por construir através de imagens potentes o ressentimento e a obsessao de seu protagonista e pela construcao de uma crescente tensao dentro de cada plano do filme, o Júri Abraccine concede o Prêmio da Crítica de melhor longa-metragem a Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba”

PRÊMIO SARUÊ – (20º Prêmio Saruê) – Confeccionado pelo artista Francisco Galeno e definido, em votação, pelos integrantes do jornal Correio Braziliense, o troféu é dedicado ao melhor momento do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

“Entre fissuras de uma seleção de filmes, inicialmente impecável, e vaias questionáveis, mas bem-vindas – enquanto manifestação; o Festival, aos 50 anos, perpetua o viés político. E é no templo, ou melhor, na Igreja – como identificou Walter Carvalho, ao falar do Cine Brasília — que nós, da equipe do Correio, celebramos a existência da diversidade. Independente de méritos artísticos, um discurso potente e qualificado conquistou os ouvidos dos espectadores de Copyleft. Pelo conteúdo embasado e tocante, RODRIGO CARNEIRO, seu discurso merece o Saruê.”

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