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Marco Bellocchio: “Ter de passar uma mensagem nos condiciona”

40mostra_peq“O mundo é complexo e quero demonstrar com um filme algo em que acredito”, diz um circunspecto, mas simpático, Marco Bellocchio em entrevista ao TelaTela na tarde de segunda em São Paulo, cidade que ele visita pela primeira vez em seus 76 anos, depois de passar algumas vezes pelo Rio, para ser um dos grandes homenageados da 40a Mostra de Cinema de São Paulo, onde recebeu o troféu Leon Cakoff, além de ter assinado o cartaz desta edição.

Ao mesmo tempo, é o mesmo Bellocchio quem diz que as ideias, “a mensagem” pode nos limitar e que um “artista deve sempre proteger sua liberdade. Ter de passar uma mensagem, de certa forma, nos dirige, nos condiciona.”

E acrescenta: “Por isso, eu, quando começo a pensar em um filme, parto sempre de um rosto, uma imagem, um sentimento, um som, uma música.”

Chega a parecer paradoxal ouvir um diretor que é notoriamente famoso por transmitir em seus filmes ideias fortes e contundentes sobre a religião (e a opressão que o exagero cometido em nome dela pode trazer), a família burguesa, a condição feminina, a eutanásia, a política, as ideologias e a ganância pelo poder em frente ao amor, a loucura, o suicídio. “Depois, claro, as mensagens podem ser inseridas. Mas não posso me permitir que, se uma ideia me vem, censurá-la e dizer se é boa ou má, é certa ou errada. Se a gente começa a rotular as ideias de ‘certas ou erradas’ começa a limitar muito fortemente a nossa fantasia.”

Bellocchio é assim. Eloquente e ao mesmo tempo enigmático. Sua passagem curta, mas importante por São Paulo, fez com que tanto os fãs antigos quanto os novatos pudessem descobrir e rever suas obras-primas na tela grande, como é o caso de De Punhos Cerrados (1965), A China Está Próxima (1967), Diabo no Corpo (1986) Vincere (2009), A Bela que Dorme (2012) e Bom Dia, Noite (2003).

E foi não por acaso De Punhos Cerrados que provou que Bellocchio, ainda jovem, nos anos 60, não se deixava limitar por uma ideia pré-concebida do que era o fazer cinema que se lançou à liberdade de produzir ele mesmo seu primeiro longa-metragem. Isso logo após estudar cinema em Londres, depois de ter se formado do Centro Sperimentale di Cinematografia de Roma. “Ninguém investiria naquele filme. Então, conheci um produtor italiano (Enzo Doria), que fez uma escolha prática. Aos 24 anos, eu podia despor de um pouco de dinheiro que tinha herdado do meu pai”, contou o diretor, nascido na pequena Bobbio, na província de Piacenza, Emília-Romanha.

“Decidi arriscar e, por meio de um crédito bancário, produzi esse longa. Este filme, além de me dar uma identidade de diretor, foi também um bom negócio. Viajou o mundo por vários anos. Acho que foi meu único filme com o que ganhei dinheiro”, brincou o cineasta, com seu humor peculiar em conversa com o público no quadro Memórias de Cinema, na noite de segunda.

A conversa vai virar um livro com vários depoimentos de diversas personalidades e certamente o de Bellocchio será de grande valia para os que querem se aventurar pelo universo do fazer cinematográfico.

Para o cineasta, um artista deve sempre proteger sua liberdade. “Por isso, eu, quando começo a pensar em um filme, parto sempre de um rosto, uma imagem, um sentimento, um som, uma música.” (Foto de Fernando Cavalcanti)
“Um artista deve sempre proteger sua liberdade. (…) Por isso, eu, quando começo a pensar em um filme, parto sempre de um rosto, uma imagem, um sentimento, um som, uma música.” (Foto: Fernando Cavalcanti)


Alegoria familiar e política –
Talvez o fato de De Punhos Cerrados se distanciar de um cinema politicamente engajado, no sentido explícito, e filmar os dramas e a tragédia de uma família burguesa altamente desfuncional, era o que Bellocchio quis dizer com “ninguém investiria no filme”. Ainda que trate do drama da profunda incapacidade de amar entre irmãos e sua mãe, o longa traz sim seu caráter político na medida em que Bellocchio aponta sua câmera, e sua arma, para as convenções sociais e as amarras da tradicional família italiana. Em seus filmes, público e privado, político e intimista estão sempre se relacionando. “Ser diretor não é ter só a ideia, é ir atrás do dinheiro, fazer com que apostem em suas ideias”, disse ele.

De Punhos Cerrados até hoje é um dos longas mais comentados e marcantes do diretor, que vê em todos os seus filmes algo de seus trabalhos anteriores.Este é justamente o caso de seu mais recente filme, Belos Sonhos, em cartaz na Mostra e com estreia prevista para final de dezembro pela Mares Filmes.

O longa, que fez sua première mundial na Quinzena dos Realizadores de Cannes, é baseado no livro autobiográfico de Massimo Gramelini, que conta a história do jornalista que luta desde a infância para superar a morte prematura da mãe.

O trauma, e as causas da morte que ele teima em não querer descobrir, mesmo quando tudo o induz a entender a verdade, fazem com que o personagem (vivido por Valerio Mastrandrea) se isole cada vez mais de suas emoções e do convívio com os outros, ainda que seja um jornalista brilhante.
“Claro que em Belos Sonhos é a história de amor muito intenso entre a mãe e o filho com uma ruptura muito grande entre eles que, ao contrário da minha relação com a minha mãe foi muito diferente. Eu nunca tive este tipo de relação com minha mãe, mas isso foi minha inspiração para fazer o filme”, revelou Bellocchio, que decidiu rodar Belos Sonhos a convite do produtor Beppe Caschetto.

Figura da mãe e condição feminina – “Há sempre as temáticas recorrentes. É a história que remete a De Punhos Cerrados, do homem que quer santificar a mãe. Só que em Belos Sonhos a questão é diametralmente oposta.”

Quando questionado pelo TelaTela se Belos Sonhos, além da questão do luto e de como se pode levar décadas para processá-lo, há a questão da condição ainda atual da mulher, que se torna, mais que ser humano, prioritariamente mãe após ter o filho e se dedicar à família, o diretor concordou que estes temas estão, como em seus outros filmes, presentes no novo longa, ainda que mais nas entrelinhas.

“Há um trabalho de descoberta, de sentimentos que fazem parte da experiência humana de todos nós. Esta mãe, assim como outras mulheres que retratei, sofre uma frustração ao se ver distante dos seus sonhos e se dedicar somente ao universo da casa. E isso tem consequências em sua mente e corpo. Um artista, um cineasta, não é que tenha o privilégio, mas tem a possibilidade de representar isso de forma paradoxalmente sempre igual, mas diferente”, comentou o cineasta.


Sangue do Meu Sangue e o Cinema Político– De fato. Ainda que não faça um cinema hoje explicitamente político, no sentido militante do termo, Bellocchio sempre abordou os tabus e as contradições políticas e sociais de sua Itália natal em sua obra. Outro filme recente do diretor, em cartaz na Mostra, Sangue do Meu Sangue, traça um curioso, mas contundente paralelo entre a opressão da Igreja Católica ao desejo e à mulher e a hipocrisia e a corrupção da Itália atual.

Não é um filme óbvio, no melhor dos sentidos, e tem um humor raro e o olhar de quem sabe muito bem do que fala. Afinal, a trama se passa em Bobbio, cidade da qual ele conhece cada esquina. É esta capacidade de contar, como diz o clichê, a história de sua aldeia para narrar o drama de toda uma sociedade que faz de Bellocchio um dos grandes diretores da atualidade.

Pode parecer óbvio que extrair suas ideias muitas vezes de sua Bobbio (como o fez em Irmãs Jamais, de 2010) seja um caminho certeiro. Mas, a pensar no que Bellocchio diz sobre sua relação com o chamado cinema político, nem sempre foi assim.

“Quando eu era jovem, havia a ideia de que devia se aprender com o povo, se tornar revolucionário e depois partir para a conquista do mundo”, comentou quando questionado em conversa com o público sobre o que é fazer cinema político hoje.

“A um certo ponto, houve um desengano meu, no sentido do entendimento que eu caminhava para um suicídio artístico e também humano”, afirmou o cineasta, que compreendeu que não podia, pessoal e artisticamente negar suas raízes de uma família tipicamente burguesa e católica, na qual suas irmãs, retratadas em Irmãs Jamais, sofreram muito mais com as imposições sociais, religiosas e políticas, do que os irmãos, que foram para o mundo, enquanto elas ficaram em Bobbio e viveram para a família.

Ao retratar e criticar as grandes instituições religiosas, burguesas e sociais, com conhecimento de causa profundo, Bellocchio nunca deixou de fazer seu cinema altamente político.


Influência do Cinema Novo – Quando fala em política, faz questão de deixar claro que fala de seu ponto de vista, de sua idade e posição. “Não tenho problema de trabalho, de sobrevivência. Hoje discurso político da Itália é totalmente desiludido. Mas isso vale em toda a Europa. Mais de 50 % da Itália não vota mais. E houve anos em que 90% votavam. Ou seja, os italianos não se reconhecem em nenhum representante e apagaram a possibilidade”, comenta ele, sem saber que tal afirmação dialoga com países como Brasil.

Vale lembrar que o cineasta foi amigo de três grandes diretores do Cinema Novo e que o movimento brasileiro foi importante para sua formação. “Por acaso na minha sala no Centro Sperimentale de Roma havia diretores brasileiros, o Paulo César Saraceni, Gustavo Dahl…Com eles descobri o Brasil e o cinema brasileiro, que passava por um renascimento muito importante, que era o Cinema Novo. Para mim foi uma dupla descoberta, tanto os grandes mestres do Cinema Novo quanto meus amigos.”

Bellocchio se lembra de poucos títulos brasileiros que viu, mas cita Glauber Rocha como um dos que o marcaram. “Minha relação intensa com o cinema brasileiro chegou ao Rio, em 1965, quando vim apresentar De Punhos Cerrados em 1967 (no Festival do Rio, quando ganhou o Prêmio Novo Cinema). Depois esta grande relação diminuiu porque eu sempre vivi na Europa e eles voltaram para o Brasil.”

De volta à política, Bellocchio a vê hoje com olhos atentos, mas nada românticos: “Movimentos nascem da oposição à corrupção, ao clientelismo, mas eles não podem minimamente mudar o destino da Itália. Falo pela Itália, que é a minha nação. Ao mesmo tempo, em tantos lugares, onde se morre de fome, onde há guerras, o discurso político é totalmente diferente do da Itália, onde há um medo de ser invadido. Há um movimento de se fechar. Mas a ideia de política que eu vivi quando tinha 20 anos hoje é absolutamente impossível, hoje vejo que há indignação, rebeliões, mas não no sentido de ir ao encontro da política.”


Próximas exibições de filmes de Marco Bellocchio na Mostra 2016:

Belos Sonhos
Dia 27/10
19:15 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3

Dia 30/10
21:15 – Cine Caixa Belas Artes – Sala 1 Vila Lobos

Bom Dia, Noite
Dia 27/10
21:10 – Cinemateca – Sala Bndes

Dia 30/10
14:00 – Cinearte 1

Intrusa
Dia 27/10
20:15 – Cinesesc

Pagliacci
Dia 27/10
13:30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2


Sangue do Meu Sangue

Dia 27/10
13:30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2

Vencer
Dia 27/10
21:30 – Cinemark Cidade São Paulo

Diabo no Corpo
Dia 28/10
19:00 – Cinemateca – Sala Bndes

Dia 31/10
21:30 – Cinemark Cidade São Paulo

De Punhos Cerrados
Dia 01/11
16:10 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3

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