Nossa Opinião

5.0
Se o objetivo é ser descolado, é preciso entender que isso é mais do que mostrar nudez feminina: é contar uma história inovadora
Nota 5.0

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que é com entusiasmo que vemos o desenrolar das séries nacionais a um patamar que já se distancia dos programetes globais de depois da novela. Infelizmente, simplesmente tentar se mexer não é o bastante se o rumo não for adiante, e há muito chão ainda pela frente. Talvez por imaturidade mesmo dessa indústria ainda em desenvolvimento, certamente por ser o lugar de origem ou sustento de muitos de seus profissionais, não é raro sentir o gosto amargo de certo tom publicitário nas novas produções lançadas.

É o caso de Magnífica 70, caprichosa produção da HBO financiada sem leis de fomento. Seja pelo excesso de didatismo, seja pelo uso de efeitos visuais por mero capricho, ela parece padecer do mal das coisas enxertadas nas séries de TV a despeito do fato de pouco contribuírem para o desenrolar da história.

Tudo começa com uma deslumbrante abertura ao som de Sangue Latino, que abre o primeiro disco dos Secos e Molhados, em 1973, quando a história acontece. Em resumo, temos as idas e vindas de um censor da ditadura, um reprimido alçado ao papel de repressor, que envolve-se com uma produtora da Boca do Lixo e passa a atuar na concepção dos filmes que deveria barrar.

Isso acontece quando ele começa a ver na atriz de um dos filmes que barrou a cunhada morta e, preocupado com sua carreira, resolve ajudá-la a ver na telona a produção. Aproxima-se dos responsáveis pelo filme e exige a inclusão de uma nova cena, a ser filmada agora, em que a devassa protagonista declara para a câmera seu arrependimento por tudo o que fez em vida.

Uma premissa interessantíssima e que, segundo relatos, chegou a acontecer de fato durante a ditadura. A escolha do tema por si só basta para deixar as expectativas lá em cima: a Boca do Lixo representa um dos capítulos mais interessantes e ricos da história do cinema nacional.

Já no primeiro episódio aparecem os primeiros sintomas da sana por didatismo e dos efeitos aleatórios que só distraem do que importa (não darei spoilers para além dos acontecimentos do piloto; apesar de serem características espalhadas nos demais capítulos): estamos no interior do escritório da censura e vemos um produtor e uma atriz serem levados para dentro da sala da chefe do setor.

A câmera não entra no escritório, apesar de ser bem claro o que está acontecendo – eles estão lá para pedir a liberação de um filme, e ela vai dizer não. Em vez disso, acompanhamos a angústia do personagem de Marcos Winter do lado de fora, aguardando o inevitável.

Quando os dois saem da sala, a atriz aparece andando em câmera lenta (?), dando a entender o resultado da breve reunião. O censor então os segue até a calçada, onde escuta a conversa dos dois para entender o que aconteceu. Aconteceu que a moça, sofrendo de algum tipo de amnésia não esclarecida, precisa perguntar a seu companheiro tudo o que acabou de testemunhar. Ele responde com naturalidade, como se ela não estivesse de fato estado do lado dele o tempo todo.

Qual é a necessidade de uma cena como essas, se não a vontade de sublinhar e ressaltar para o telespectador o que acabou de se mostrar para ele nas cenas anteriores? Por que não confiar nele e na história que acabou de se construir?

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Apesar de ser supostamente uma vigarista profissional, acostumada há anos de espertos golpes, Dora é patologicamente, profundamente e simplesmente estúpida. É difícil aparecer sem precisar de (a) alguma explicação detalhadíssima de um personagem masculino; ou (b) um flash-back beirando a cafonice. Os roteiristas construíram uma personagem feminina tão rasteira que parece até que, em caso de queda de um meteoro que tornasse a atmosfera terrestre inóspita para os homens, ela, dependente que é, desapareceria junto.

O que nos leva a outro recurso que ameaça todo um visível cuidado com a estética da produção como um todo: todas as vezes em que o protagonistas for se lembrar de algo que aconteceu no passado – e não são poucas -, ou, pior, escrever um diálogo ficcional – idem-, a cena toda fica em preto e branco. Se for realmente importante, sua voz em off pode até ganhar outro efeito, o eco.

Se por um lado deixa óbvio para quem está vendo que se trata mesmo de um flashback, é algo que se torna cansativo já no segundo episódio, que acontece quase todo num passado em preto e branco, tão sem cor quanto as memórias contadas.

Em um cenário meticuloso e com arte e fotografia impecáveis, um roteiro incerto tenta desenvolver um triângulo amoroso que se compararia a Nelson Rodrigues, não fosse esta uma série sobre censura que parece se autocensurar. E é pena que a história contada, por se assemelhar a tantas outras, já se desenhe com certa previsibilidade, sem contar a pretensa graça desnecessárias de colocar um produtor de pornochanchada impotente numa ponta, e um censor que brocha na outra.

Se o objetivo é ser descolado, vamos ter que parar de achar que isso quer dizer apenas cenas de nudez feminina a qualquer momento em que der para encaixá-las – isso a gente vê em qualquer canal e às vezes de um jeito mais interessante. Ser descolado é contar uma história pungente e interessante.

Se perder a caretice e confiar mais na interpretação de Marcos Winter como fio condutor, Magnífica 70 tem tudo para ser uma espécie de Mad Men nacional . Mas não em nenhum momento antes disso. A comparação, por enquanto, fica mesmo só na quantidade de fumaça tragada em cena.

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