selomostra39“Os filmes que marcam a gente são os que fazem parte de nossa formação. Até hoje vejo filmes que me impressionam, mas os que de fato me marcaram foram os que participaram da minha formação”, disse a cineasta Lucia Murat em sua participação no Memórias do Cinema da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A formação de Lucia foi no Geração Paissandu, cinema que existia no Rio de Janeiro no final dos anos 60 e que exibia, com o atraso da época, que chegava a ser de um a dois anos, os filmes de vanguarda. “A gente vivia uma Ditadura, os filmes eram censurados, mas tínhamos o Paissandu e o cineclube na faculdade, que nos permitiu ver toda a cinematografia russa, que era proibida, em projetores 16mm, relatou a diretora de longas como Quase Dois Irmãos (2003) e Maré, nossa história de amor(2007).

Lucia conta que no Paissandu passavam os filmes mais recentes. “Em 1967, 1968, alguns daqueles filmes fizeram parte da minha vida e ficaram para a eternidade. Interessante é que naquele momento os filmes não eram algo isolado da vida da gente. Eles faziam parte do nosso dia a dia, das nossas discussões. A gente brincava que o maior barato era não só ver o filme, mas sim discutir o filme na mesa do bar ao lado do cinema”, revelou a cineasta.

Realizadora tanto de projetos de ficção como documentais, Lucia recordou que as discussões da época, sobre as mudanças, sobre revolução, sobre o novo homem, estavam no cinema. “A gente gostava dos filmes não só porque refletiam uma discussão que tínhamos naquele momento, mas porque tratavam das nossas opções de vida.”

Neste contexto, há dois filmes fundamentais para a formação da cineasta. Um deles é A Guerra Acabou, que Alain Resnais dirigiu em 1966. “É um filme que trata da questão de um personagem que integra o partido comunista espanhol e é exilado na França. O que me marcava, além da relação dele com a mulher, eram as discussões com o partido”, relembrou a diretora, que na 39a Mostra exibe seu mais novo filme, Em Três Atos, com Nathalia Timberg, Andréa Beltrão, Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Já a segunda obra do diretor francês que Lucia considera seminal é Hiroshima Mon Amour, de 1959. “Foi um filme muito comentado na época, de grande destaque. E que depois que eu vivi minha experiência de vida, de tortura, clandestinidade, cadeia, fui rever mais tarde. E o redescobri depois de tudo que passei”, relatou a cineasta, que retratou este período e essas questões em filmes como A Memória que Me Contam (2012) e Que Bom Te Ver Viva(1988)

“Eu me perguntava em como eu podia ter gostado de Hiroshima Mon Amour sem ter vivido tudo que vivi. É um filme que tem uma complexidade que quebra todos os clichês que a gente tinha naquele momento, em relação à traição, à Segunda Guerra. Nós, que depois que vivemos a luta contra a Ditadura também discutimos depois aquelas questões. É uma história que tem uma beleza única”, relembrou a cineasta.

O terceiro longa destacado por Lucia foi Acossado, que o mestre da Nouvelle Vague Jean-Luc Godard realizou, em 1960, com roteiro de Fraçois Truffaut. “Era impossível ser da minha geração e não se deslumbrar por Acossado. Tanto pela quebra que significou quanto de tema quanto da revolução na linguagem cinematográfica. E o tanto que representava da gente como juventude”, contou a diretor.

Cinema Brasileiro – A força de Glauber Rocha e Rogério Sganzerla

Já em relação aos filmes brasileiros, Lucia destacou que eram muito mais discutidos e vistos. E destacou dois longas: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha, e O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla.

“O primeiro é o filme que apresentou o grande cinema brasileiro para minha geração. O barroco do Glauber era impressionante. Nunca mais vamos esquecer”, observou a diretora.

“Já o segundo é engraçado até citar. Isso porque era também de oposição, fazia parte da luta política. Nós, jovens naquele momento, participávamos muito de uma discussão sobre o quanto cinema novo era encarado como um cinema muito mais integrado ao Partido Comunista”, contou Lucia.

“O Cinema Marginal, que era representado pelo Rogério Sganzerla, com O Bandido da Luz Vermelha, também foi a expressão da nossa vida. Foi um filme com uma conotação anarquista. E a gente, que se contrapunha à esquerda tradicional, via naquele filme muito um reflexo da vanguarda que nós nos considerávamos.”

Lucia contou que já estava na clandestinidade quando O Bandido chegou aos cinemas e que este foi o único filme por qual ela se arriscou a própria vida para ver. “Contei isso um dia para o Rogério. Hoje isso é um pouco piada, mas eu tinha um amigo, que também adorava cinema. E quando o Bandido saiu nós dois estávamos clandestinos. Só que eu disse para ele: ‘Não é possível. A gente tem que ver o filme que nos representa. E nós estávamos proibidos, pela própria organização, por nós mesmo, de ir à Zona Sul (do Rio) porque éramos procurados”, relatou Lucia.

Mesmo assim, ela e o amigo se arriscaram e foram assistir ao longa em um cinema de Botafogo. “Nós dois com um 38 dentro da bolsa. É o único filme da minha vida que arrisquei a vida para ver. Num certo sentido, isso é mesmo verdade. E tenho um carinho muito grande por este filme até hoje. Foi um filme que fiquei com muito medo de rever. Ele me lembrava tanto esse meu amigo, que foi assassinado logo depois disso. Eu tinha medo e demorei muito para rever o filme. Mas revi e gostei muito novamente. E isso significava que isso era uma história que tinha valido a pena, apesar do medo”, revelou.

Para concluir, a diretora lembrou de “um filme mais antigo, que para mim representava muito a questão familiar, a classe média do Rio, que representava muito as mudanças que o próprio Rio passou nos anos 60.” O filme era A Regra do Jogo, que Jean Renoir dirigiu em 1939. “Este filme corre por fora porque não tem nada a ver politicamente com aquele momento, mas que parecia revelar toda a vivência que a gente tinha socialmente no Brasil, na minha adolescência.”

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