CinemaEntrevista

Louis Garrel retrata Paris realista, mas bela, em ‘Dois Amigos’

Se é fato que muitas vezes o autor se confunde com a obra e vice-versa, Dois Amigos, dirigido pelo ator francês Louis Garrel, é a confirmação disso.

Símbolo do galã francês que faz o tipo existencialista charmoso e bonito, o ator mostra em sua estreia na direção de longas que quer tanto se revelar muito menos idealizado do que os diretores com que trabalhou o filmaram quanto retratar uma Paris nada glamourosa, mas muito real, que é a expressão fiel da vida de muitos parisienses que vivem em áreas nada turísticas, mas muito vivazes da capital francesa.

Garrel também revela a seu público que, aos 32 anos, quer fugir da obrigação de fazer papeis repetitivos e ‘bonitinhos demais’. “Eu queria fazer algo com humor, que mostrasse gente comum, que fossem até meio losers”, comentou ele ao TelaTela em sua passagem por São Paulo, na semana passada, em viagem de divulgação do longa, a convite da distribuidora Imovision, que já lançou no Brasil vários dos filmes em que ele atuou, como Amantes Constantes, de 2005, Em Paris, de 2006, Um Verão Escaldante, de 2010, Saint Laurent, de 2014, entre outros.

 “Veja quem são os ‘meus heróis’ em Dois Amigos. Um, o Vincent (Vincent Macaigne) é inseguro, faz figuração em filmes e é super carente. O outro, Abel (Garrel), trabalha em um posto de gasolina e tenta ser escritor, mas também é inseguro. Já ela, Mona (a iraniana Golshifteh Farahani) está cumprindo pena e não se sabe o porquê. Não são um retrato lindo da França, mas são muito autênticos e verdadeiros”, completou ele, que escreveu Dois Amigos em parceria com o roteirista e diretor Christophe Honoré (com quem Garrel já trabalhou em longas como As Canções de Amor, de 2007 e Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar, de 2009). 

O longa conta a história dos amigos Abel e Vincent. Com humor e ironia, eles são inseparáveis, mas não deixam de ter muitas discussões. Quando o ultra-sensível Vincent pede ao vaidoso Abel para ajuda-lo a conquistar a bela e misteriosa Mona (Golshifteh), tudo se complica, pois a garota, que trabalha em uma lanchonete na Gare du Nord (uma das maiores estacões de trem de Paris), é linda. A beleza complica tudo”, diz o personagem de Garrel quando conhece Mona.Quando a gente ama alguém, a gente dá a esta pessoa toda a beleza do mundo, e todo o poder do mundo. Mas se a pessoal for realmente muito bonita, aí isso complica tudo. A beleza é um poder.” 

Disso o ator, que virou ícone de beleza depois de aturar no clássico contemporâneo Os Sonhadores, do italiano Bernardo Bertolucci, entende bem. Neste longa, ele é Theo,  jovem que vive intensamente o Maio de 68 ao lado de Isabelle (Eva Green) e Matthew (Michael Pitt). 

Mas Garrel, que também atuou em vários filmes do pai, o cineasta Philippe Garrel, e outros diretores franceses, sabe que precisa deixar o papel de galã para trás e decidiu passar para o outro lado da câmera em 2008, quando rodou Mes Copains (Meus amigos), Petit Tailleur (2010)  e La Règle de Trois, em 2011, que já trazia o mesmo trio de atores de Dois Amigos. O longa, aliás, chega ao Brasil com uma bagagem de peso, pois integrou a Semana da Crítica do Festival de Cannes 2015.

Ainda que imperfeito, Dois Amigos, que é inspirado na peça Les Caprices de Marianne,  de Alfred de Musset, tem o frescor do olhar do jovem diretor, que busca tanto em sua trama principal quanto na forma de enquadrar Paris, o ar da capital mundial e contemporânea em que ela se tornou.

Não por acaso, os recentes atentados sofridos pela cidade, foram pauta das conversas de Garrel com a imprensa. “Este é um problema sobre o qual há várias perguntas, mas nenhuma há resposta. São questões que todos os franceses estão se fazendo nestes últimos 15 dias. A gente tentava procurar uma pessoa que viesse e nos respondesse porquê tudo isso estava acontecendo. Mas esta pessoa não existe”, comentou o ator, que não largava de seu cigarro eletrônico. “Decidi parar de fumar quando cheguei ao Brasil. Estamos todos muito tensos na França e Laetitia (Casta, modelo e namorada de Garrel, que viajou com ele ao País) praticamente me obrigou a parar”, brincou ele.

Laetitia Casta e o namorado Louis Garrel na première de 'Dois Amigos' em São Paulo
Laetitia Casta e o namorado Louis Garrel na première de ‘Dois Amigos’ em São Paulo

Ainda sobre o impacto da ações terroristas do Estado Islâmico em Paris, Garrel comentou: “O choque foi grande. Minha geração sentiu muito o golpe porque a maioria das pessoas que morreu tinha na faixa dos 30 anos. A gente é uma geração que nunca viu a guerra, que nem serviço militar prestou. Somos um povo  muito melancólico e nostálgico. É um choque com a realidade e ainda vamos ver como vamos reagir a isso a longo prazo”, continuou Garrel.

 Sobre se tornar diretor, suas influências, a integração da França com os imigrantes e os atentados, Garrel falou ao TelaTela:

Muitos atores que se tornam diretores costumam dizer que o fazem porque têm vontade de contar suas próprias histórias. Foi o seu caso?

Gosto muito de contar a história dos outros, mas quando eu era pequeno eu gostava muito de ir ao teatro e assistir aos ensaios. E adorava observar a função do diretor, que falava com os atores, que dava as indicações, os pequenos detalhes para que eles forem melhores como personagens. E o fato de fazer um filme tem a ver com fabricar um objeto. E isso tem a ver com uma ideia muito pré-histórica de se fabricar um objeto, do prazer de construí-lo.

Tarefa que não é fácil.

Não, não é fácil, mas o que eu acho mais difícil é o tempo que se perde para conseguir o financiamento, o patrocínio de um filme e, ao mesmo tempo, manter a vontade de ir atrás e produzir um filme. Mas o cinema é a, ao mesmo tempo, uma arte e uma indústria. É as duas coisas ao mesmo tempo. É muito excitante, mas a gente tem que correr atrás e trabalhar. Ser escultor ou arquiteto também não deve ser nada fácil.

O que mais te atrai na função do diretor, além de dirigir os atores em cena?

O que é mais interessante de se fazer um filme é a relação que o diretor tem com toda a equipe técnica, do começo até o fim. E isso me ajudou muito quando eu comecei a fazer os curtas. Antes disso, costumava guardar minhas ideias para mim mesmo. Mas aprendi que quanto mais tento dividir minhas ideias com a equipe, mais eles se identificam com elas e mais podem contribuir. E aí, evidentemente, eles doam mais energia para fabricar este enorme barco e empurrá-lo para o mar.

Seu pai, Philippe Garrel, que também é diretor, costuma dizer que se deve dar liberdade à equipe e, principalmente, ao montador.

Sim. Desde o momento em que a gente confia em nossos colaboradores, se a gente sente que a relação deles com o filme é simples e bela, mais eles vão contribuir e propor coisas que vão enriquecer o filme. É um estado de graça que se atinge porque cada pessoa que trabalha tem a impressão de que o filme também é delas. É um momento extraordinário quando a gente sente que a história tomou a forma que a gente imaginou.

As questões políticas do filme são sutis, mas muito importantes. E isso traduz muito seu olhar, atento às movimentações de Paris, onde não se pode viver sem reparar e analisar.

Eu queria fazer um filme que soasse um pouco como um refúgio imaginário, mas que fosse banhado por uma realidade. Queria, por exemplo, que a cadeia parecesse uma prisão de verdade. Eu sabia que não iria fazer um retrato poético, mas retratar a realidade dos espaços brutos da cidade, como a estação de trem (Gare du Nord), a ducha pública onde Mona toma banho, o hotel eu não queria que fosse um hotel chique. Queria que, se houvesse poesia, que fosse em seu estado bruto. Paris é uma cidade bruta, no sentido da palavra, mas que tem seu charme neste contexto bruto.

Para o diretor, a escolha de uma atriz iraniana, Golshifteh Farahani, diz muito sobre a França miscigenada contemporânea
Para o diretor, a escolha de uma atriz iraniana, Golshifteh Farahani, diz muito sobre a França miscigenada contemporânea

Você comentou que, diferentemente do que muitos dizem, a França aceita e se mistura aos imigrantes. A escolha de uma atriz principal iraniana tem seu fundo político, não?

Sim. Há um fundo de verdade em dizer que há um problema de integração, mas também não é verdade dizer que não nos integramos. Este não é o tema principal do filme, mas, ainda que seja verdade que nem todos o saibam, existem muitos bairros mistos em toda Paris. E é verdade também que escolher uma atriz iraniana para fazer o principal personagem feminino, sendo que a gente não fala das origens dela no filme, também é uma coisa francesa. Isso diz muito sobre a França.

Sobre o momento atual de Paris, que sofre grande tensão, o que você pode dizer?

Não posso dizer outra coisa, pois é verdade que estamos todos muito chocados. E por ora todo o trabalho é para achar palavras para o que aconteceu,  de poder refletir sobre o que ocorreu. Na verdade, isso é sobre a gente. Porque as pessoas que nos atacaram são um pouco nós, porque nasceram na Europa e/ou na França. E as pessoas que foram atacadas são francesas. As pessoas estão falando muito, botando muito as coisas para fora, para tentar entender o que ocorreu.

Paris é uma cidade simbólica para o mundo. De certa forma, o ocidente se sentiu atacado.

Talvez seja porque, no imaginário coletivo, Paris é uma cidade em que a gente se ama. E os atentados não foram um gesto de amor. A gente não se amou. No entanto, não acho que o cinema deveria se envolver ou responder a esta questão. Este é um assunto para filósofos, escritores políticos. E não acho que seja um filme que os franceses gostariam de ver. Dizer que a gente tem problemas de integração com os muçulmanos é mentira, ainda que haja um pouco de verdade nisso. Mas não é em absoluto. Fizemos a guerra o Oriente Médio e é por isso que houve os atentados? Por um lado, sim. Mas havia atentados antes disso. 

E a sua geração tem de lidar pela primeira vez com um assunto deste porte.

Sim. A gente nem mesmo o serviço militar prestou. Não sabemos o que é uma arma. O  Jean-Claude Carrière (escritor e roteirista, um dos mais prestigiados do cinema francês), que tem 85 anos e  já viu todas as atrocidades do mundo, estava muito menos chocado do que a gente. Meus amigos israelenses também. Isso porque a gente, jovens franceses,  nunca havia visto a guerra em casa. O choque foi imenso.

Você vê alguma forma de diálogo que se possa estabelecer não como Estado Islâmico, mas com o Oriente, para que se evite a guerra.

É o que espero, o que todos esperamos. Esperamos aprender algo. Talvez estes eventos vão formar uma coalisão nacional, com a qual as pessoas vão se unir mais. É o que espero.

Em relação ao seu cinema, você tem uma linguagem, um olhar sobre a Paris real, não turística, que na verdade é mais palpável e bela. Ao mesmo tempo, é uma linguagem clássica, que dialoga com o cinema de seu pai, os diretores com quem você trabalhou, com a Nouvelle Vague.

Antes de Dois Amigos, fiz um média-metragem em preto-e-branco e amigos me disseram que iria parecer que eu era nostálgico. Se você filma uma história de amor em Paris, em preto-e-branco é como se dissesse que Paris era melhor no passado. E eu não queria dizer isso. Como eu não tinha um tema social para este filme, quis filmar uma Paris o mais real possível. Muito real, sem nostalgia, em que a gente olhasse a cidade nos olhos. É verdade que depois eu conto as histórias de uma forma muito humana.

Essa é uma comédia francesa, que tem ares de ‘dramédia’, ainda que com muito humor, Vincent diz ao amigo coisas profundas, que não se diria em uma comédia muito leve e descartável.

Christophe (Honoré, co-roteirista do filme) e eu nunca vimos um homem dizer para outro “eu não te amo mais.” Então, a gente decidiu fazer um filme sobre o rompimento da amizade. E fazer um filme que se passa em três noites e três dias, com a ruptura de dois amigos, que é algo ‘não visto’. E é um filme muito híbrido, com várias formas em um só. Gosto muito do fato de ter esta mistura, de ser comédia,  ser  drama, voltar a ser comédia…

Comentários

comentários