CinemaFestival de Cannes 2017

‘Les Fantômes d’Ismail’ confirma tradição de abertura morna em Cannes

Já é quase sempre esperado. Há tempos que o Festival de Cannes não escolhe um filme de abertura que empolga tanto a crítica quanto o público (formado, neste caso, majoritariamente de profissionais do cinema). Em 2016, abriu os trabalhos com Café Society, filme bom, mas não ótimo, de Woody Allen. Já em sua edição de 70 anos não vai ser diferente e o filme que inaugura o festival este ano é o francês Les Fantômes d’Ismail, do francês Arnaud Desplechin.

Se a seleção oficial foi esvaziada de grandes figurões de Hollywood (o que não é de todo ruim, uma vez que filmes de autor ganham mais espaço), a sessão de gala de abertura na noite desta quarta vai contar com grandes nomes do cinema francês, mas dificilmente vai levantar a plateia ou render os sonhados muitos minutos de palmas. No entanto, o elenco do longa, formado por nomes como Marion Cottilard, Charlotte Gainsbourg, Louis Garrel e Matieu Amaric, vai garantir, ao menos, um Red Carpet badalado.

Durante a coletiva de imprensa, houve quem questionasse o porquê do festival não abrir com Le Redoutable, de Michel Hazanavicius (de O Artista), uma espécie de cinebiografia do mestre Jean-Luc Godard, que está em competição, e faria jus a história do cinema francês. A pergunta não foi respondida, “pois não tinha a ver com o longa em questão.” Mas pôde-se presumir que certamente é porque o filme de Hazanavicius representa bem o cinema francês na corrida por uma Palma, o que, infelizmente, Les Fantômes não o faz.

Portanto, a julgar pela sessão para a imprensa na manhã de quarta, a gala que abre os trabalhos desta edição histórica vai ser também correta, mas não emocionante. Não em se tratando do que vai se ver na tela. Les Fantômes d’Ismael é um filme interessante, mas se confunde tanto quanto o personagem do título, vivido por Amaric.

Parceiro de longa data de Desplechin, o ator vive um diretor de cinema cuja mulher Carlotta (a magnética Marion) desapareceu há 21 anos e decide voltar. Dada como morta, ela acaba com a paz que Ismael achava ter conquistado depois de tanto tempo e de viver atualmente um amor com a astrofísica Sylvia (Charlotte).

Obviamente a turbulência toma conta da vida de Ismael e ele, que em paralelo escreve o roteiro e filma uma espécie de biografia de seu irmão diplomata e/ou espião (Garrel), perde o rumo e não consegue nem terminar o filme e nem encarar a realidade. Perde-se entre a ficção e a realidade das histórias que construiu para si.

Na coletiva de imprensa que se seguiu à sessão, Garrel brincou que para viver seu personagem, misterioso e tímido, inspirou-se no próprio diretor. “Vi este filme como uma própria biografia de Arnaud”, comentou o ator. De fato. Les Fantômes tem um quê de biográfico na vida de todo roteirista ou diretor, mas não necessariamente apenas na de Arnaud. Sem apelar para spoilers, pode se dizer que a forma como o diretor resolveu a trama já passou pela cabeça de todo autor às voltas com a grande questão: “como acabar com este novelo emaranhado que inventei?”

Pois Arnaud inventa uma solução rápida, mas duvidosa. Pôde-se ao menos dizer que o talento de Charlotte vale a ideia. Questionado sobre o porquê do seu filme, ele comentou que da que é assim como a vida. “A vida nos traz coisas que não se espera. Ela acontece e a gente tem de reagir a isso. A vida acontece. E este é um resumo do filme. Ao final dele há mais sexo, mais amor, caos, mais vida.”

Tendo isso em vida, realmente a vida acontece aos personagens de Les Fantômes, por mais surreal e novelísticamente (de novelo, não de novela) que o seja.

Interessante vai ser se a vida acontecer e trouxer a Marion o que ela disse desejar durante a entrevista. Ela, que nunca havia contracenado com Charlotte, diz que quer filmar mais com mulheres. “A relação entre Sylvia e Carlotta é muito especial e transcende o normal. Quero trabalhar mais com ela”, comentou a atriz. “Aliás, quero trabalhar mais com mulheres. Sou apaixonada por atrizes. Em minha carreira, sempre contracenei no cinema mais com homens, com quem aprendi muito, mas com poucas atrizes. Quero fazer mais isso. Foi muito especial e me enriqueceu muito”, completou a atriz, que este ano não integra nenhum filme em competição.

A mostra competitiva de fato começa para a imprensa na noite de quarta, com a exibição de Nelyubov, de Andrey Zvyagintsev. É esperar para ver se a seleção, aí sim, arranca longas palmas tanto da crítica quanto do público.

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