Nossa Opinião

7.5
Classificar o filme como mero déjà vu, no entanto, seria subestimá-lo. É uma obra bem conduzida, longe de ser descartável apenas como diversão rasteira e trata com sensibilidade algumas situações difíceis.
Nota 7.5

A responsabilidade era grande. Marina Person não é apenas uma figura que profissionalmente orbita o do mundo do cinema desde a década de 90, quando surgiu para o público apresentando o Cine MTV, mas é também filha de um dos autores mais conceituados da sétima arte no Brasil, Luís Sérgio Person (que deixou pelo menos duas obras fundamentais, São Paulo, Sociedade Anônima e O Caso dos Irmãos Naves, antes de falecer prematuramente, aos 39 anos), que já havia sido tema de seu primeiro documentário, lançado em 2006.

Cineasta de formação, graduada pela ECA, em São Paulo, sua estreia em longa-metragem de ficção pode ter demorado, mas veio em boa hora. Num ano em que, com toda justiça, as mulheres pedem maior número de representantes destacadas no audiovisual, Marina prova que é mais uma diretora em condições de construir uma carreira de trabalhos sólidos nas telas.

Em Califórnia, ela segue à risca um dos mandamentos aos roteiristas: escreva sobre o que você conhece bem. Temos então a história de uma adolescente dos anos 80, às voltas com as questões típicas da idade: aceitação do corpo, as primeiras descobertas sexuais, os confrontos com os pais.

São temas clássicos e já bastante explorados – Luiz Carlos Merten, do Estado de S. Paulo, acertou em cheio quando comparou o filme à série Anos Incríveis, que fazia sucesso por aqui, exibida pela TV Cultura, mais ou menos na mesma época em que Marina era funcionária da MTV.

Classificar Califórnia como mero déjà vu, no entanto, seria subestimá-lo. É uma obra bem conduzida, longe de ser descartável apenas como diversão rasteira e trata com sensibilidade algumas situações difíceis. Exemplo disso é a abordagem do surgimento da Aids, doença que paira como um fantasma numa das subtramas sem nunca ser nomeada, representando todo o temor e desconhecimento com os quais o assunto era tratado.

Outras referências da época ajudam a construir o pano de fundo, desde a euforia pela campanha das Diretas Já até a propaganda do “meu primeiro sutiã”. Passam pelas fitas cassete, as conversas intermináveis no telefone fixo e um pôster do primeiro filme dos irmãos Coen – entregue pelo personagem que já antevia que estes ainda dariam o que falar num futuro que hoje é o presente.

Como a própria diretora disse durante as entrevistas de divulgação, é um filme sobre adolescentes, mas não exatamente para eles. Quem estiver na faixa dos 30 aos 40 anos certamente sentirá um gostinho a mais, por reconhecer o clima e se deixar levar pela nostalgia.

Se gostar de rock, vira covardia. Marina gastou boa parte do orçamento para conseguir as músicas que queria e a aposta deu certo. Ouvir David Bowie, Joy Division e The Cure dentro de uma sala de cinema é sempre uma experiência emocionante. Apelando para esta memória coletiva, o final ao som de The Caterpillar pode até arrancar lágrimas, mesmo que encerrar a trajetória de sua personagem adolescente, muito bem defendida por Clara Gallo, com uma música que fala de uma lagarta prestes a virar borboleta não seja metáfora das mais originais.

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