Nossa Opinião

7.5
Pode parecer um exercício de contenção exagerado, mas, à medida que vai se conhecendo as personagens, a sensação de intimidade faz a coisa funcionar.
Nota 7.5

Assim como já havia feito em Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, seu bem-sucedido longa de estreia, com Las Insoladas Gustavo Taretto volta a retomar um curta, desta vez o primeiro de sua carreira, feito em 2002. A recepção, no entanto foi bem diferente.

Se Medianeras foi uma quase unanimidade, o novo trabalho dividiu tanto público como crítica em sua terra natal. Muitos acharam tediosa a história das seis amigas que passam um dia quente de verão no terraço de um prédio, de biquíni, se bronzeando e preparando uma performance para a competição de dança que virá à noite. Como o próprio diretor disse em entrevista ao TelaTela, o filme surgiu do encontro de três elementos que lhe encantam: as mulheres, os terraços e a Buenos Aires central.

Se a comparação é inevitável, vale dizer que o filme tem alguns pontos em comum com o anterior. A sequência de início, por exemplo, retoma as tomadas de laterais de prédios, desta vez ao som de uma versão instrumental de “Here Comes The Sun”.

Também há novamente uma série de frases que fazem referência a personagens da cultura pop, do futebol ou da política local – a piada com o ex-presidente Menen é um dos momentos mais engraçados.

A grande sacada é que a ação se passa no meio dos anos 90. Assim, abre-se espaço para brincadeiras com a aparição dos telefones celulares, músicas tocadas em fitas cassete ou dúvidas sobre o quão lucrativo o mercado de VHS pode ser.

Além disso, há o subtexto da crise na qual a Argentina estava prestes a entrar de cabeça, quando o plano da austeridade econômica, fundamentado na paridade entre peso e dólar, levou o país a uma situação caótica, tão logo a festa acabou. Neste contexto, há um certo grau de inocência naquele grupo de garotas, fazendo planos de juntar dinheiro sem saber que qualquer ilusão tinha seus dias contados.

Com uma estrutura que lembra uma peça de teatro, Las Insoladas é concentrado em um único cenário (exceto pelo breve epílogo). Pode parecer um exercício de contenção exagerado, mas, à medida que vai se conhecendo as personagens, a sensação de intimidade faz a coisa funcionar.

Estamos ali em um 30 de dezembro, época de renovar sonhos e fazer planos. Surge a ideia de passarem o réveillon do ano seguinte em Cuba, então ainda tida como o último refúgio livre da pressão por dinheiro e ascensão social. A esperança, ainda que ingênua, se renova.

Talvez alguns sintam falta de uma curva dramática mais acentuada. Os diálogos afiados, como é de costume com os portenhos, compensam. Debaixo da camada de banalidade, suas conversas revelam muito sobre desejo, expectativa e frustrações, traços que movem qualquer ser humano, em qualquer época e economia.

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