O Festival de Cannes 2016 termina com uma cerimônia de premiação, no mínimo, polêmica é surpreendente. Não necessariamente pela escolha da Palma de Ouro para I, Daniel Blake, do inglês Ken Loach, que já havia levado o maior prêmio do evento em 2006 por Ventos da Liberdade, mas sim pelos demais prêmios.

Ainda que o alemão Toni Ederman, de Mare Aden, tenha sido apontado como o vencedor quase certo, páreo a páreo com Paterson, de Jim Jarmusch, o filme de Loach marca o retorno do cineasta à sua grande forma. Ao contar a história de um carpinteiro que, após sofrer um ataque cardíaco, vê-se emboscado em uma espiral kafkiana pelas burocracias de um sistema de seguridade social que mais atrapalha e humilha do que o auxilia. “O sistema é tão cruel que faz com que os excluídos se sintam praticamente culpados por sua exclusão”, havia declarado o diretor logo após a première do longa na Croisette.

Neste domingo, ao subir ao palco para receber a Palma, declarou: “Receber esta Palma é muito estranha para nós. Porque as pessoas que inspiraram este filme são as pessoas que têm de sobreviver todos os dias, que sofrem. O cinema faz levar a nossa imaginação a todo o mundo, o sonho. O mundo em que vivemos hoje é perigoso. Milhões de pessoas sofrem na Síria. As pessoas vivem a miséria na Grécia, em Portugal. A importância do cinema é representar os protestos do povo contra os poderosos. Espero que esta tradição continue”, declarou o diretor britânico. “A gente tem de sonhar com outro mundo que não é só possível, mas também necessário”, completou Loach.

Em conversa com a imprensa logo após a premiação, Loach se disse surpreso pelo bicampeonato. “É extraordinário estar aqui, recebendo novamente a Palma. Na verdade, a equipe que veio agora é o mesmo pequeno grupo formado por nós naquela época. É bom estar neste time. A gente não estava esperando por nada nesta volta. Estamos muito surpresos.”

Se não o mais ‘cinematográfico’ dos concorrentes, ao menos um representante do que o cinema pode produzir de engajamento e narrativa capaz de tocar até o mais cético dos espectadores.

Cena de 'I, Daniel Blake'
Cena de ‘I, Daniel Blake’

“O que a gente faz é o drama da vida cotidiana, mas isso se torna um espectro imenso da vida. É a sua vida em família, sua vida profissional, sua relação com seu namorado, sua namorada. Mas é como as coisas realmente são”, comentou ele sobre o fato de sua obra manter sempre a coerência em relação aos temas sociais, à atenção a pequenos-grandes detalhes da vida dos que muitas vezes as grandes narrativas, como o neoliberalismo, a existência da União Europeia, o sistema econômico, prefere fingir serem invisíveis.

“ As pessoas são formadas e constritas às questões sociais em que nascem. As escolhas que a gente pode fazer. Elas todas são dependentes das condições em que a gente nasce. Me preocupa quando as pessoas dizem que este é ‘filme social’. Faça um filme sobre gente rica, socialites. Isso é ‘filme social’. Tentar captar a realidade, as pessoas reais, isso é cinema. E está além do social”, afirmou Loach.

“Acho que a União Europeia está incorporando o neoliberalismo. Você vê isso na forma como ela humilhou os gregos. E causou pobreza e trouxe dificuldades a milhões de pessoas, além de um grande esforço em outras milhões de pessoas que não estão desesperadas, mas que estão passando tempos difíceis. Então, eu só contei uma história sobre estas consequências que sofrem milhões de pessoas. Eu só espero que as pessoas que virem o filme se conectem a ela”, completou o diretor.

De fato a conexão com o grande público e a capacidade de extrapolar o cinema de arte foi o norte da decisão do júri de dar a Palma a I, Daniel Blake. Rigoroso o suficiente para estar em competição em Cannes, mas com capacidade para se comunicar com o espectador comum, o longa sinaliza que a escolha não foi pela inovação cinematográfica mas sim pela força do tema tratado.

Mais um prêmio para o Brasil

Já nas demais categorias, o júri presidido por George Miller e formado também pela italiana Valeria Golino, o francês Arnauld Desplechin, a americana Kirsten Dunst, o dinamarquês Mads Mikkelsen, o húngaro Laszlo Nemés, a francesa Vanessa Paradis, a iraniana Katayoon Shahabi e o americano Donald Sutherland, decepcionou ao menos a crítica especializada que cobriu o festival.

A cerimônia começou com uma premiação para o Brasil. A Moça que Dançou com o Diabo, de João Paulo Miranda Maria, levou a Menção Honrosa entre os curtas-metragens que concorriam à Palma de Ouro. O prêmio principal foi para o genial Timecode, do espanhol Juanjo Gimenez.

“É meu segundo curta que compete em Cannes. Rodei este filme no interior do Brasil, com uma produção sem dinheiro nenhum, não houve nenhum apoio oficial à produção, mas com algumas centenas de dólares a gente conseguiu fazer. Agradeço muito esta oportunidade. Vivemos um momento muito perigoso no Brasil agora, por causa de uma sociedade muito conservadora que está voltando. É perigoso ter apenas um tipo de liberdade de expressão. Estou muito feliz que não só meu curta, mas também outros filmes do Brasil, como Aquarius, foram exibidos aqui. E é incrível estar aqui e representar meu país”, declarou João, que competiu na Semana da Crítica em 2015 com o curta Command Action.

'A Moça que Dançou com o Diabo'
‘A Moça que Dançou com o Diabo’

Em seguida, a Camera D’or, concedida ao primeiro trabalho em direção de longa, foi para Divines, de Uda Benyamina, diretora francesa de origem marroquina. Seu agradecimento foi tão inflamado que o apresentador praticamente teve de pedir para que ela deixasse o palco.

O próximo a subir ao palco foi o ator francês Jean Pierre Léaud, de 62 anos, o homenageado da noite. O ator preferido de François Truffaut, eternizado em Os Incompreendidos, agradeceu aos seus cineastas preferidos, como o próprio Truffaut e Pier Paolo Pasolini.

Ator e Atriz – Surpresas e a falta de Sônia Braga

Já o melhor ator no Festival de Cannes foi uma surpresa até mesmo para o próprio. O iraniano Shahab Hosseini, protagonista de The Salesman/Le Client, do iraniano Asghar Farhadi (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por A Separação) desbancou favoritos como Peter Simonischek, por Toni Ederman, e Adam Driver, de Paterson.

A melhor atriz foi a filipina Jaclyn Jose, por Ma’Rosa, de Brillante Mendoza. Infelizmente, a brasileira Sônia Braga não levou o prêmio para o qual vinha sendo cotada como uma das favoritas. Visivelmente surpresa, Jaclyn afirmou que não esperava e que achou que iria só aproveitar a festa.

O Prêmio do Júri foi para o road movie American Honey, de Andrea Arnold ‘“Quando eu estou feliz eu tenho vontade de dançar… Queria agradecer a todos que participaram neste filme. Queria agradecer a toda equipe do meu filme. Este filme pertence a todos da equipe”, declarou a diretora britânica.

Empate, surpresa e decepção na Direção

Já na categoria de melhor direção houve talvez a maior injustiça e um pequeno acerto. O francês Olivier Assayas, dividiu o prêmio, por Personal Shopper, com o romeno Christian Mungiu, por Bacalaureat (algo como Formatura/ Graduação). A escolha do júri causou vais da imprensa, que só aumentaram quando o prêmio seguinte foi anunciado. Grande Prêmio do Júri para Xavier Dolan, por Just la Fin Du Monde (Somente o Fim do Mundo). De fato foi o fim da esperança de ver premiado Aquarius, um dos preferidos da crítica que acompanhou o festival, ou Paterson, de Jim Jarmusch, um dos favoritos de todo o evento.

“Eu prefiro a loucura à sabedoria da indiferença”, declarou o diretor. Uma certeza o canadense de apenas 27 anos pode ter: não vai haver indiferença dos jornalistas especializados quanto a esta esta premiação e muitas críticas vêm por aí.

De volta aos diretores, Mungiu fez uma das melhores análises da real função de um festival como Cannes, que muitas vezes é mais divulgado pelo desfile de famosos que há no tapete vermelho que pela qualidade dos filmes que exibe de todo o mundo.

“É muito bom estar aqui. Menos e menos filmes têm uma vida longa nos cinemas. E a gente sente que o cinema está se tornando um nicho. O cinema de autor vai desaparecer em questão de anos. É muito importante preservar a diversidade no cinema”, declarou o diretor romeno, que levou a Palma de Ouro em 2007 por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias.

'Graduation'
‘Bacalaureat’, de Christian Mungiu

“É bom ter vozes e pontos de vista individuais. O cinema não foi feito só para se fazer filmes comerciais. É importante ter um festival como Cannes porque ele tem o poder de mudar algumas coisas. Ter certeza de quem com as estrelas que há aqui, a gente também tem atenção. Eles continuam fazendo este esforço, de descobrir novos cineastas. Cinema é muito mais que cinema social, comercial, todo tipo de cinema. Cinema é sobre diversidade”, completou Mungiu.

De fato. Não fosse esta força de Cannes em jogar luz sobre novas cinematografias, o longa do brasileiro Kleber Mendonça Filho não teria sido a boa surpresa para a grande maioria da crítica internacional e dos profissionais de cinema que não conheciam seus curtas e seu primeiro longa, O Som Ao Redor, que levou vários prêmios no mundo, mas que não teve a mesma projeção do filme que deu a Sônia Braga o papel que a lançou novamente no centro das atenções do cinema mundial.

Ainda que nem a atriz e nem Kleber tenham levado prêmios, o filme sai vitorioso da Croisette, com críticas positivas, distribuição certa em ao menos 18 países (estreia daqui a duas semanas na Austrália).

Sobre a experiência, o diretor declarou em seu Facebook: “Tivemos nove dias indescritíveis no Festival de Cannes, apresentando Aquarius em première mundial e em competição. Prêmios não são matemáticos, por mais que a imprensa, a crítica e cinéfilos defendam seus filmes amados.” E completou: “Fica uma experiência intensa de repercussão, imprensa espetacular, discussão emotiva e política em torno do filme e do Brasil, do amor e da história. E esse filme pernambucano em parceria com a França e rodado na praia do Pina começa uma longa carreira. E começa também o percurso até o Brasil, em especial ao Recife. Obrigado a todos!”

Confira a lista completa dos vencedores do Festival de Cannes 2016:

MOSTRA COMPETITIVA

Palma de Ouro: I, Daniel Blake, de Ken Loach
Grand Prix: Juste la fin du monde (It’s Only the End of the World), de Xavier Dolan
Melhor Diretor: Olivier Assayas, por Personal Shopper e Cristian Mungiu, por Graduation (Bacalaureat).
Prêmio do Júri: American Honey, de Andrea Arnold
Melhor Ator: Shahab Hosseini, de The Salesman
Melhor Atriz: Jaclyn Jose, de Ma’ Rosa
Melhor Roteiro: The Salesman, escrito por Asghar Farhadi
Palma de Ouro – Curta-metragem: Timecode, de Juanjo Giménez Peña (Espanha)
Menção Especial do Júri – Curta-metragem: A Moça que Dançou com o Diabo, de João Paulo Miranda Maria (Brasil)

PALMA DE OURO HONORÁRIA: Jean-Pierre Léaud.

Camera D’Or: Divines, de Uda Benyamina (França)

MOSTRA UN CERTAIN REGARD

Prêmio Un Certain Regard: Hymyilevä mies (The Happiest Day in the Life of Olli Mäki), de Juho Kuosmanen (Finlândia/Suécia/Alemanha)
Prêmio do Júri: Fuchi ni tatsu (Harmonium), de Kôji Fukada (Japão/França)
Melhor Diretor: Matt Ross, de Captain Fantastic (EUA)
Melhor Roteiro: Voir du pays (The Stopover), de Delphine Coulin e Muriel Coulin(França/Grécia)
Prêmio Especial: La tortue rouge (The Red Turtle), de Michael Dudok de Wit(França/Japão)

QUINZENA DOS REALIZADORES

Prêmio Art Cinema: Wolf and Sheep, de Shahrbanoo Sadat (Dinamarca)
Prêmio SACD (Society of Dramatic Authors and Composers): L’effet aquatique (The Aquatic Effect), escrito por Sólveig Anspach e Jean-Luc Gaget (França/Islândia)
Prêmio SACD (Menção Honrosa): Divines, de Uda Benyamina (França)
Prêmio Europa Cinemas: Mercenaire, de Sacha Wolff (França)
Melhor curta-metragem: Chasse royale, de Lise Akoka e Romane Gueret (França)
Melhor curta-metragem (Menção Honrosa): Zvir, de Miroslav Sikavica (Croácia)

SEMANA DA CRÍTICA

Grande Prêmio: Mimosas (Las Mimosas), de Oliver Laxe (Marrocos/Espanha/França)
Prêmio Visionário: Albüm, de Mehmet Can Mertoglu (Turquia/França/Romênia)
Prêmio SACD (Society of Dramatic Authors and Composers): Diamond Island, escrito por Davy Chou e Claire Maugendre (França/Alemanha/Camboja)
Melhor curta-metragem: Prenjak, de Wregas Bhanuteja (Indonésia)

FIPRESCI – Federação Internacional de Críticos de Cinema

Competição: Toni Erdmann, de Maren Ade (Alemanha/Áustria)
Un Certain Regard: Câini (Dogs), de Bogdan Mirica (Romênia/França/Bulgária/Qatar)
Semana da Crítica: Grave (Raw), de Julia Ducournau (França/Bélgica)

JÚRI ECUMÊNICO

Melhor Filme: Juste la fin du monde (It’s Only the End of the World), de Xavier Dolan(Canadá/França)
Menção Honrosa: American Honey, de Andrea Arnold (Reino Unido/EUA) e I, Daniel Blake, de Ken Loach (Reino Unido/França)

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