Jonas, primeiro longa-metragem de Lô Politi, integra a Mostra Transições na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que ocorre esta semana na cidade mineira. Famoso por sua seleção que prima pelo cinema de autor, que experimenta e propõe novos olhares sobre o cinema, o festival sempre traz debates acalorados.

O caso de Jonas, cujo debate literalmente dividiu a plateia que lotou a sala do Cine-Teatro Sesi, não foi diferente. Houve quem defendesse veementemente a proposta da diretora. Houve quem vaiasse e bradasse.

Para entender (ou tentar entender) porque o filme, que já passou pelo Festival do Rio e pela Mostra de SP, sacudiu a plateia de Tiradentes, é necessário conhecer sua premissa. A história parte, entre outras coisas, da suspensão do ‘mundo cotidiano’, e da realidade, na vida de um garoto da Vila Madalena, em São Paulo.

Jonas (Jesuíta Barbosa) é filho da funcionária de uma família de classe alta paulistana. Como tantos, é ‘quase’ da família. Ele e a filha da patroa, a garota Branca (Laura Neiva) passaram a infância brincando juntos, dividindo os mesmos espaços domésticos da casa. Mas crescem e as diferenças que os separam, não só no momento de Jonas voltar para a casa com a mãe, começam a virar abismos entre eles.

Jonas é apaixonado por Branca. Já ela só quer saber de Dandão (Criolo), o chefe do tráfico local, num típico caso de sedução pelo poder e pelo perigo. Inseguro, tímido e deslocado (o garoto não se identifica nem com a turma do ‘movimento’ e nem com os ‘playboys’ do bairro) ele observa, segue Branca com o olhar, mas não sabe lidar com o fato de que, ironicamente, nunca terá acesso real a ela.

Um dia, num típico caso de ‘ilusão do apaixonado’, ele acha que Branca deixa o portão de casa aberto para ele e entra, acreditando que finalmente algo vai mudar. De fato muda, mas Jonas na verdade a surpreende com Dandão e escuta, escondido, o que não quer. Em um surto, comete um crime por acidente e, em seguida, acaba sequestrando a garota.

É a partir daí que a narrativa e o personagem entram em uma espiral surreal, em que Jonas cada vez mais se emaranha em sua própria teia e que o final trágico anunciado só se torna mais presente. Isso porque ele a mantém em cativeiro dias após o carnaval paulistano dentro de um carro alegórico, uma baleia gigante.

A barriga desta baleia profana é o microcosmo onde este Jonas que, assim como o da Bíblia, não aceita seu destino, determinado pela dinâmica social cruel que diz, assim como seu próprio pai, que Branca não é para ele.

Mas no Mundo que ele constrói em sua cabeça e dentro da baleia, eles podem até, quem sabe, brincar de casinha. Jonas, em surto, apaixonado, rejeitado, e armado, é obviamente perigoso, mas contraditoriamente, cuidadoso com Branca.“Eles são como irmãos. Ela confia nele, sabe que não vai machucá-la”, respondeu Lô quando questionada no debate se a relação que se estabelece entre os dois é abusiva.

Há uma intimidade entre eles que foi vista como abuso e violência por parte do público. Já outra parte dos espectadores vêem nuances e contradições entre eles e defende que quem tem mais poder sobre o outra é justamente Branca.

De fato, não fosse pela via do sequestro, que serve como gatilho para que finalmente Jonas esteja em um espaço íntimo com Branca, jamais ele teria algum poder sobre ela. Se ela sofre de uma espécie de ‘síndrome de Estocolmo’, se ela joga com as armas que tem para se livrar do cativeiro, se ela também entra no jogo e no mundo de Jonas – mesmo que por um breve período – é dúvida a ser respondida por cada espectador. O fato é que Jonas, que também toca, mas como pano de fundo (como diz a diretora), questões de classe e sociais, sacudiu Tiradentes.

A diretora Lô Politi conversou com o TelaTela sobre as questões polêmicas do longa.

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TelaTela – Como você vê a recepção de Jonas em Tiradentes?

Lô Politi – A recepção do público, em questão de temperatura da sessão, foi muito boa, melhor até que no Festival do Rio e na Mostra. Já o debate, que representa um microcosmo do universo do festival, achei rico. Havia claramente metade das pessoas que eram muito favoráveis ao filme e, ao serem confrontadas pelas que não são favoráveis ao filme, defenderam mais ainda seus pontos de vista.

E isso é muito bom porque defenderam pontos que nem estavam no meu próprio repertório de defesa das coisas que acho boas no filme. Ver o filme pelos olhos delas, na defesa inflamada do debate, me fez muito bem. O contrário também se aplica. Porque, de alguma maneira, a reação inflamada contrária, por mais que a meu ver muita coisa não faça sentido, é muito verdadeira. É o que revela o que a pessoa realmente pensa. E isso é muito rico. Tentei ouvir e não entrar na discussão, a não ser em um momento.

Quando a questão racial foi levantada?

Exatamente. Porque acho que discutir a questão racial como principal assunto do filme é levar o longa para o caminho errado. Ao contrário da social, que eu acho boa de se discutir e que leva para uma compreensão mais elaborada do filme. Mas a questão racial acho que distorce completamente e empobrece o debate.

A questão social, no entanto, é determinante para Jonas ser quem é e enxergar a realidade como vê. Não se concebe um personagem como ele, apaixonado pela filha da patroa, sem que isso tenha um significado para sua autoestima e seu lugar no mundo.

Exatamente. Dramaturgicamente também é muito importante porque determina o desfecho do filme. É o cara que não pode ter aquilo, querendo, loucamente apaixonado. E achando que poderia ter aquilo num momento, não no presente, mas ele cresceu com acesso absoluto à Branca. Não ao mundo dela, mas a ela. E por isso falo que a questão social do filme está muito ligada à questão do desejo. É aquela menina, muito mais do que ‘aquele mundo’. Jonas é um filme que fala muito mais sobre o desejo do que sobre outras questões. É sobre o desejo e o amor. O amor ilusório.

E como surgiu a ideia de criar esta história?

Cresci na Vila Madalena, que é um bairro diferente de outros da cidade, tanto centrais quanto da periferia. A Vila tem uma composição social muito específica, única. Não há a mesma configuração em outros lugares de São Paulo. E na minha infância, essa intersecção entre crianças e jovens, entre as classes, acontecia muito e de forma muito mais simples do que hoje.

De alguma forma, todos que cresceram ali, sejam mais ou menos pobres ou ricos, viram os papeis sociais ficando mais claros ao longo dos anos. Eu ainda circulo pelos lugares do bairro, desde as ladeiras, a favelinha incrustrada no bairro, ao lado da Vila Beatriz, todos os dias da minha vida. Seja de bicicleta, a pé, de carro. Fui passando por eles e criando o filme assim. Já o personagem veio pelo nome. O nome sempre me fascinou.

Um profeta bíblico que não aceita seu destino.

Sim. Eu quis criar o Jonas também por isso. Ele não aceita o que está supostamente destinado a ele. Ele quer mais, sob o viés do amor e do desejo e, nesse caso, sob o viés necessariamente social. A gente não chega à punição de fato, mas sim a interna. O mundo dele interior acaba. A fantasia que ele cria se desfaz. Todo o universo, que é representado pelo interior da baleia, acaba se desfazendo.

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A realidade se impõe. E ele é um personagem trágico.

Sim. O filme é uma tragédia de erros. A gente sabe que ele vai se dar mal, mas, tanto pelo personagem quanto pelo ator que Jesuíta é, ele faz com que a gente embarque no desejo dele. A gente quer que sua fantasia dê certo, mas sabe que não vai dar. O final do filme não é aberto. O que me interessava é que, ao final, a fantasia dele terminaria. O que acontece depois, não era a história que eu queria contar. No Jonas, a questão social é muito importante, mas a gente está falando de um drama de um amor impossível.

E sobre a questão da dinâmica entre Jonas e Branca ser abusiva, uma vez que ele a sequestra?

Claro que qualquer sequestro é violento e abusivo. Mas a história da síndrome de Estocolmo existiria de qualquer maneira no roteiro. Acho que, na verdade, é ela quem manipula Jonas, por meio do fascínio que ela exerce sobre ele. O que desencadeia o gatilho do desejo dele, e do surto, é quando ele acha que ela está abrindo o portão para ele. É isso que dispara o drama, e a fantasia, do filme.

A gente está falando de ficção. É uma ficção de amor, de ilusão. E a ilusão dele dispara ainda mais quando ele a tem sob seu domínio, pois isso dá poder a ele de certa forma. Branca confia em Jonas porque eles cresceram como irmãos, têm uma relação muito desenvolvida na infância. É uma situação em que seu irmão pode fazer algo absurdo, como ele faz, mas que não vai fazer mal de fato a você. Sabendo da força que ela tem sobre ele, e do fato de saber o que ele fez, ela o manipula. Jonas é um iludido no amor, mas não é um idiota. Ele tenta, de alguma maneira que, a meu ver, é errada, fazer o papel que também não é o dele na vida, mas que o empodera.

E o papel do irmão mais jovem de Jonas na trama?

O irmão, ainda que mais novo, é um ponto crítico, uma consciência. Até o último segundo, ele confronta o que é certo e o que é errado. Esse irmão serve como o contraponto que questiona “como é que alguém sequestra sem querer?”. Mas, construindo uma ficção, se a gente só se guiar pelo que é certo ou não, não conseguimos criar. A vida não é assim.

A personagem da Miriam (a rapper Carol Conka), por exemplo, ao contrário do que alguns acham, não é passiva. Ela tem uma autoestima fortíssima, muito mais que Jonas. Ela é quem ela é naquele contexto. E ela também o manipula. Escolhi a Carol porque ela é ótima. Eu queria três rappers no filme, porque eles têm luz, presença. Queria esta presença em volta do Jonas, especialmente na turma do Dandão. O personagem mais frágil de todos é ele.

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