Logo MostraJoel Pizzini começou seu depoimento no Memórias do Cinema, na Mostra de Cinema de São Paulo, “de trás para frente.” Isso porque o diretor, antes de conversar com a plateia do Espaço Itaú de Cinema, exibiu seu curta Mar de Fogo, que havia sido apresentado na quarta anterior, antes da sessão especial da cópia restaurada de Limite (1931), de Mario Peixoto (1908-1992), na Cinemateca Brasileira.

“Mostrar este filme para falar das minhas memórias de cinema é importante porque ele fala não só do meu olhar sobre o cinema mas também de como o mundo tem olhado para nossa produção”, explicou o diretor de longas como o premiado 500 Almas, que venceu o Festival de Brasília, em 2004.

Mar de Fogo, que foi o único filme brasileiro selecionado para competição no Festival de Berlim 2015, segue a linha criativa e livre de Pizzini e constrói um filme-ensaio sobre o processo criativo de Mário Peixoto e também recria o ponto de vista do diretor ao realizar sua obra-prima.

Para construir uma atmosfera onírica e livre, o curta traz materiais de arquivos, como sons e cenas de Limite (1930), de O homem do morcego (1980), de Ruy Solberg, de O homem e o limite(1975), de Ruy Santos, além de registros em áudio captados por Pizzini.

“O fato de ser o único filme brasileiro a ser selecionado em Berlim me deixou pensando se não haveria um dado simbólico interessante, um recado a ser dado ao nosso cinema. Por que colocar em sua competição um filme de oito minutos que evoca um longa dos anos 30?”, questionou o diretor.

“Independentemente da qualidade do meu filme, é interessante pensar o tanto de filmes brasileiros que têm sido produzidos por ano, mas que não conseguem se inserir no circuito de festivais internacionais com a mesma quantidade de produções que já conseguiu em outras épocas. E aí surge esta centelha que traz questões para nós”, observou o cineasta.

“Precisamos continuar uma tradição de filmes como Limite, que não teve linhagem, descendentes no cinema nacional”, considerou Pizzini, que vê em longas como Pateo (1959) e A Idade da Terra (1980), ambos de de Glauber Rocha; Porto das Caixas (1962), de Paulo Cesar Sarraceni, os longas do Rogério Sganzerla, os do Júlio Bressane.

Para Pizzini, além destes cineastas citados, poucos filmes e diretores dialogaram com a obra de Peixoto, que ele considera visionária. “Imagina um cara fazer um filme nos anos 30 no Brasil que dialogava com todas as vanguardas internacionais. É uma coisa incrível”, continuou o diretor. “Fica uma pergunta no ar para a gente refletir sobre a referência de Limite”, pontuou Pizzini, que atualmente finaliza um novo filme, O Porto da Sombra.

Cinema de Reciclagem História – Pizzini explica que o novo longa é um filme de reciclagem história, que trabalha a partir de imagens já existentes. “Precisamos buscar imagens que já existem e ressignificá-las, que têm uma potência muito grande. Isso vem de minha verve de pesquisa. Como Glauber Rocha dizia, a arte é a dimensão anárquica da matéria onírica. Esta é a matéria-prima de muitos filmes e de Limite também. A gente perdeu muito isso com o surgimento do cinema sonoro e mais ainda com o cinema comercial, quase didático de hoje.”

Pizzini considera que Jean-Luc Godard também é uma grande referência em sua obra.  O diretor contou que viu recentemente uma mostra completa da obra do cineasta suíço, em cartaz no Brasil, e que percebeu como Godard fazia o exercício de trabalhar o roteiro e, depois, de ver o filme rodado a partir da história escrita.

“Ele fala que a gente tem que tomar muito cuidado. Diz que a gente tem que beber muito do cinema oriental, onde a lógica é a morte. A primeira coisa é a morte. Enquanto nossa tendência ocidental é articular algo linear, aristotélica, cronológica e sempre horizontal”, analisou o cineasta, que nasceu no Rio de Janeiro e cresceu no Mato Grosso.

Fronteira entre ficção e documentário – Para Pizzini, é preciso pensar na dimensão vertical das notas de um filme e não apenas em um fluxo linear, horizontal, de uma história. Quando questionado se o limite entre documentário e ficção, característica que está sempre presente em sua obra, surge também de sua forma de interpretar a realidade e um tema, Pizzini admitiu que sim.

“Surge na interpretação, carregada de subjetividade, de cada um dos objetos que eu escolho para incluir em meus filmes. A forma de observar o mundo  é subjetiva, é simbólica, como ocorre muitas vezes no cinema russo, por exemplo”, observou o diretor.

“A gente está sempre ligado demais ao tema, ao conteúdo, ao que vai dizer. Mas na verdade a gente tem que estar contaminado pela matéria, pela matéria onírica, como dizia o Glauber. É nela que há uma dramaticidade, uma ranhura, uma autenticidade, uma textura. Isso é muito importante. A matéria é sempre, utilizada e controlada para confirmar uma determinada visão. É sempre para apaziguar e não para causar espasmo. Eu acredito na sensualidade da matéria do cinema”, declarou Pizzini.

“Isso porque a materialidade não controlar o que se filma, mas sim perceber o que as coisas tem a dizer, a poética das coisas.”, concluiu o cineasta, que também é diretor de Olho Nu, sobre Ney Matogrosso.

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