Nossa Opinião

8.0
O diretor tem dado entrevistas recomendando que o público deixe de lado a necessidade de uma explicação racional ou linearidade do roteiro. Quem fizer isso, certamente encontrará qualidades no longa
Nota 8.0

‘Jauja’, de Lisandro Alonso, é daqueles filmes que exigem do espectador um determinado estado de espírito, a fim de que a obra seja melhor absorvida. Seus planos longos e diálogos espaçados – muitos deles com alto teor filosófico – podem parecer para alguns um convite à dispersão da mente, ou até para aquela inconveniente olhadela no celular.

O próprio Alonso tem dado entrevistas recomendando que o público deixe de lado a necessidade de uma explicação racional ou linearidade do roteiro. Em Cannes, onde apresentou o filme em 2014, seguiu o “espero que vocês gostem” protocolar do astro Viggo Mortensen ao público com um sonoro “na verdade, isso não importa”. Saiu de lá entre os premiados da Mostra Um Certo Olhar.

O espectador que for mais paciente certamente encontrará qualidades no longa do diretor argentino, co-produção entre oito países, incluindo o Brasil. Rodado nas cercanias da Patagônia, o filme exibe o mesmo cenário na maior parte dos seus 109 minutos: um deserto tomado por uma vegetação rala e pedras até onde a vista alcança, formando com o céu azul sem nuvens uma paisagem árida. É neste ambiente que o Capitão Gunnar Dinesen (Mortensen) corre em busca da filha, adolescente de quinze anos que foge da barraca na qual dormiam.

Cena do filme no formato de tela 4x3, como está sendo exibido nos cinemas
Cena do filme no formato de tela 4×3, como está sendo exibido nos cinemas

A jornada de Dinensen ganha contornos cada vez mais angustiantes. Já não bastassem os perigos e mistérios enunciados no começo da história, ele vai gradativamente perdendo o vigor físico e a sanidade. A sensação é reforçada pelo uso do formato 4×3 na exibição em tela grande, que parece comprimir ainda mais este deserto em torno de seu protagonista. É um conceito interessante e que foge ao lugar-comum de retratar a vastidão do ambiente em planos grandiosos, sempre na janela convencional.

O ápice do filme acontece numa sequência poética e ambígua dentro de uma caverna, que instiga o espectador a refletir o que de fato está em jogo naquela busca. Seria um desfecho em alta, se não houvesse ainda um epílogo com a ação espelhada em tempos atuais, que confunde ainda mais quem está assistindo. Numa das últimas falas, um personagem diz que os cachorros reagem se coçando furiosamente quando não entendem alguma coisa. Quem assistir ‘Jauja‘ em busca apenas de lógica terá reação parecida.

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