selomostra39Centenas de filmes sobre holocausto já foram produzidos, em diversos países do mundo, mas nenhum é tão intenso como o húngaro Son of Saul, do estreante em longa-metragens László Nemes, vencedor do Grande Prêmio do Júri no último festival de Cannes.

Ao contrário da grande maioria das produções do gênero, que costuma oferecer uma variedade de informações didáticas e não raro cruza diferentes pontos de vista sobre o horror do campo de concentração, o filme acompanha apenas um personagem.

Ele é Saul (Géza Röhrig), um dos encarregados de conduzir as execuções de judeus como ele, que por um dia e meio luta obsessivamente para evitar que um menino já morto – que pode ou não ser seu filho – tenha um enterro digno, e não seja simplesmente incinerado.

Este acompanhamento da jornada deste prisioneiro é no sentido mais literal que o cinema pode proporcionar: a câmera está o tempo todo com o personagem, seja por sobre seus ombros, seja com um close em primeiro plano ou em sua visão subjetiva. O que se passa ao seu redor é secundário, muitas vezes desfocado.

Saul percorre diferentes divisões de Auschwitz à procura de um rabino que possa conduzir o enterro da criança, e por isso pouco se envolve nos planos de fuga que os companheiros tramam, e quando o faz geralmente atrapalha. “Você abandonou os vivos para cuidar de um morto”, acusa um deles.

Nas entrevistas que tem dado desde a consagração no mais badalado dos festivais de cinema, Nemes faz questão de frisar que a intenção de seu filme é mergulhar o espectador na atmosfera de caos e horror representada por um campo de concentração. Ver toda esta via-crúcis é por vezes duro, e exige certa entrega do espectador, mas certamente é daquelas experiências cinematográficas que permanecem na cabeça por muito tempo.

Outra vontade do diretor era tentar curar uma ferida aberta em seu país natal. Estima-se que cerca de 100 mil crianças húngaras tenham morrido durante o holocausto, incineradas e sem enterro.

O longa já está sendo apontado como o grande favorito ao Oscar de filme estrangeiro. Se levar a estatueta, certamente não faltará quem diga que a Academia tem uma preferência por quem aborda a 2ª Guerra. Por mais que exista uma dose de verdade na afirmação, premiar uma abordagem tão ousada e radical como Son of Saul não deixaria de ser um passo à frente dos votantes.

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Nossa Opinião

9.0
Ver toda esta via-crúcis é por vezes duro, e exige certa entrega do espectador, mas certamente é daquelas experiências cinematográficas que permanecem na cabeça por muito tempo
Nota 9.0