Nossa Opinião

8.0
O jogo de espelhos mistura linguagens cinematográficas e identidades dos personagens para brincar com gêneros nas diversas camadas do engenhoso roteiro
Nota 8.0

A Casa dos Espelhos era um brinquedo popular nos antigos parques de diversão. Neles, as pessoas entravam e viam suas imagens distorcidas: achatadas, mais compridas, mais largas, refletidas repetidamente, por todos os lados. O jogo de mistura de linguagens cinematográficas e identidades proposto em ‘O Gorila’ vai por esse caminho, brincando com gêneros nas diversas camadas do engenhoso roteiro de Cláudia Jouvin, baseado no conto de Sérgio Sant’Anna.

O filme tem como fio condutor a mente de Afrânio (Otávio Muller, em ótima atuação minimalista). Vemos seus traumas de infância, a frustração por ter que abandonar a carreira de dublador e, principalmente, seu hobby: aproveitando-se de seu vozeirão, ele passa trotes eróticos a pessoas que conhece casualmente nas ruas. Todas elas são figuras aparentemente arquetípicas, como o gay enrustido (Eucir de Souza), a crente despudorada (Luiza Mariani), a femme fatale (Mariana Ximenes), e a vizinha boa praça (Alessandra Negrini).

Famoso por dar vozes a um detetive de seriado enlatado norte-americano e a um stalker tarado telefônico, Afrânio é um homem que não conhece a própria identidade, e por isso mesmo tem dificuldade em reconhecer a verdadeira identidade dos outros.

O diretor brasiliense José Eduardo Belmonte encontra boas maneiras de demonstrar essa relação, como na sequência em que Afrânio imagina todas as suas vítimas enquanto ouve um pedido de socorro, sem saber qual delas pode estar lhe dando o troco. Ou no apoteótico “natal do anticristo”, mistura de fantasia, pesadelo e realidade, onde personagens de sua imaginação aparecem sutilmente, podendo até passar despercebidos pelo espectador menos atento.

Em outro nível de sua casa de espelhos, o próprio filme dialoga com a ideia de colocar seu protagonista num caso policial, semelhante aos que tantas vezes dublou na TV. Afrânio precisa ser o detetive ou o gorila para escapar de seus demônios internos. Na impossibilidade de sê-los, o que resta?

Talvez considerado pelas distribuidoras bizarro demais para o que o grande público conhece como comédia, ‘O Gorila’ passou três anos esperando a vez de chegar aos cinemas, mesmo tendo ganhado os prêmios de atriz coadjuvante e ator no Festival do Rio, em 2012. Quando entrou, foi em poucas salas e horários.

Com a presença de nomes conhecidos no elenco e uma veia humorística afiada, merecia uma divulgação mais bem trabalhada. Surpreenderia muita gente e talvez alcançasse até um status de cult, como aconteceu com ‘O Cheiro do Ralo’, com quem tem em comum a deliciosa estranheza.

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