Nossa Opinião

8.5
Um ponto positivo é a resistência em encher os capítulos de muitas reviravoltas, confiando que a história por si só tem poder o suficiente para cativar - o que é um alívio
Média 8.5

Pense na simpática funcionária doméstica Rose rodando com suas rodinhas para lá e para cá distribuindo sanduíches e preparando as crianças para a escola em Jetsons. Num mundo futurista que é praticamente o dia depois de amanhã começa a ótima Humans, coprodução britânica e americana baseada numa premiada produção sueca, chamada Real Humans. É uma das coisas mais interessantes que apareceu ultimamente no mundo das séries de TV.

A ideia por trás dela é nos transportar para um cenário distópico em que a tecnologia já chegou no ponto de criar inteligência artificial e a (nossa) danação é quase certa. Também pelo modo deturpado, porém provável, como as pessoas começam a lidar com isso, sem se dar conta de suas reais questões, o que era para ser uma distopia vira um prognóstico verossímil nas cenas de nossos próximos capítulos reais.

O ponto de partida é o fato de termos androides capazes de realizar qualquer tarefa simples melhor que as pessoas. Maravilha, ninguém nunca mais terá que dobrar um lençol com elástico na vida!

Os problemas que daí decorrem são três. Primeiro porque, surpresa, a “nova raça”, em minoria, logo começa a ser tratada como escrava. Segundo porque os jovens têm pouco ou nenhum incentivo para estudar: para que se dedicar por anos a aprender uma função se, até lá, já terão feitos robôs que a desempenharão mil vezes melhor? Por último, porque os robôs não são o que parecem ser.

Essa desconfiança é a primeira reação de Laura (Katherine Parkinson) quando o marido resolve trazer para dentro de casa a “humana sintética”, ou synth, Anita (Gemma Chan). Ela é ótima com as crianças e a louça nunca brilhou tanto, mas será correto tratá-la apenas como uma mercadoria? Só por parecer humana, teria ela direitos como nós?

É verdade que o marido dela, Joe (Tom Goodman-Hill) foi meio impulsivo na hora da compra. Diante da promessa de ter menos trabalho com os três filhos e a casa, ele nem pensa muito antes de trazer a robô para dentro de casa. É como se fosse o novo iPhone, só um gadget da moda . Esse é o problema: Joe, como muitos, não pensa antes de comprar nada.

Anita logo apresentará defeitos de funcionamento, expondo um problema sem precedentes: ela é parte de um grupo especial de humanoides dotado da capacidade de pensar por conta própria, sentir, amar, odiar e até matar. O que pode significar para a humanidade o surgimento de uma nova raça como essa?

Além da família de Laura, o Dr. George Millican (William Hurt), que se envolveu na criação dos synths, se vê num dilema quando seu antigo robô, a quem trata como filho, apresenta defeitos. Ele é praticamente feito prisioneiro pelo novo synth enviado pelo governo para cuida de sua saúde (ou seja, o Estado controla um cidadão via a última tecnologia. Soa familiar?)

O curioso é que os vilões da história são justamente aqueles que, cientes do perigo da reprodução desregrada dessas “pessoas sintéticas”, tentam pará-las. Especialmente o Professor Edwin Hobb (Danny Webb), cocriador da tecnologia dos synth que começa a caçá-los com um intuito pouco claro (e que será exposto ao longo da temporada). A já tradicional história de colocar a audiência para torcer para quem não é mocinho ganha contornos interessantes assim.

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Uma pessoa sensata terá várias ponderações diante dessa sinopse, mas acredite: Humans não é mais uma dessas distopias cafonas feitas para adolescentes. Por mais que às vezes pareça isso. As reflexões éticas que desperta vão além do óbvio desejo de sobrevivência e servem como metáfora para como as sociedades tratam minorias, os diferentes (de quê?).

Se simbolizam uma ameaça, suas vidas devem ser terminadas? Mas será que são mesmo ameaças? Não existe nenhuma chance de coexistência harmônica? E se não corre sangue em suas veias, podemos chamar a luz de seus olhos de vida? Androides ou não, o que nos torna humanos?

Ou seja, mesmo com toda essa tecnofilia, a série é na verdade um questionamento bem realista do que é, de onde veio e para onde vai nossa sociedade como a conhecemos hoje. Parece até que, inventando seres que não existem, fica mais fácil de mostrar para algumas pessoas as discrepâncias que regem nossas vidas atualmente.

Sem contar que Humans evoca justamente aquele que deveria ser o maior temor de qualquer pessoa que respire hoje em dia: a singularidade. Quem não se preocupa com isso, simplesmente não está prestando atenção.

Em termos muito generalistas, o termo foi cunhado pelo matemático húngaro John von Neumann no final dos anos 1950 para definir o momento em que a tecnologia avançou a ponto de criar máquinas com capacidade de processamento maior que a das pessoas. Ou seja: elas poderão se redesenhar para corrigir problemas de desenvolvimento, por exemplo, e mesmo criar novas máquinas ainda melhores que si próprias. Não haveria humano capaz de controlá-las, quiçá compreendê-las.

Como alienígenas ou zumbis, é bem capaz que a singularidade se torne o novo tema da cultura pop. Só no cinema tivemos recentemente o ótimo Ex Machina e o vergonhoso Transcendência: A Revolução, longa sobre o tema estrelado por Johnny Depp. As referências de Humans, porém, parece beber numa fonte mais nobre, e a relação entre os seres humanos e as máquinas toca em pontos que de certa forma se aproximam das de HAL 9000 e o astronauta de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Um ponto positivo é a resistência da história em encher os capítulos de muitos mistérios ou reviravoltas. Tudo é esclarecido bastante cedo para o telespectador, confiante de que a história por si só tem poder o suficiente para cativar – o que é um alívio.

Apesar de ter apresentado um final de temporada fraco, o arco de episódios vale uma atenção maior. Cabe esperar para que a segunda temporada saiba sair da armadilha que criou para si mesma e não entre por um caminho de filme do Will Smith.

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