Nossa Opinião

7.5
Escritor por excelência, Allen não resiste ao impulso de, além dos muitos diálogos, encher o filme de offs que acabam matando qualquer forma de contar sua história sem precisar apelar para a palavra.
Nota 7.5

Homem Irracional, novo filme de Woody Allen, começa quase do mesmo jeito que todos os anteriores: os típicos letreiros com fundo preto e o nome do elenco em ordem alfabética. A diferença está na ausência de trilha sonora. No lugar do jazz, apenas ruídos de um ambiente indefinido.

Para alguém tão apegado a suas próprias tradições, é uma mudança que chama a atenção. Mas não é necessário alarde. O cineasta, que completa 80 anos em dezembro, continua fiel ao estilo que o consagrou e às temáticas que marcam seus trabalhos, como a distância entre os mundos filosófico e real, adultério, crimes e pecados.

O grande barato aqui é ver Joaquin Phoenix em estado de graça, não se atendo a imitar o diretor, mas trazendo seu próprio tempero à mistura de verborragia e angústia que caracteriza os protagonistas masculinos criados por Woody Allen. Ele é Abe Lucas, professor especialista em Kant que chega a uma nova faculdade, precedido pela fama de iconoclasta e antissocial, que não demora a se confirmar.

Cético ao extremo, ele ganha a admiração de uma aluna, Jill (Emma Stone), mas tem dificuldade para encontrar uma motivação palpável para a vida – o que gera uma cena marcante, numa brincadeira de roleta russa. O ponto de virada vem quando idealiza o que julga ser o crime perfeito e, a partir daí, tem um interesse renovado pelo mundo.

Se é legal ver Phoenix, ator acostumado a papéis mais introspectivos, falar tanto em cena, sua construção de personagem (e o proprio personagem em si) clama por um trabalho maior de interiorização. E é aí que mora o problema de Homem Irracional.

Escritor por excelência, Allen não resiste ao impulso de, além dos muitos diálogos, encher o filme de offs explicativos dos pensamentos de Abe e Jill, que acabam matando qualquer forma de contar sua história sem precisar apelar para a palavra. A trama ganha contornos rocambolescos, se enche de conversas didáticas, e o final parece apressado.

Quem acompanha a carreira do diretor há algum tempo, ou leu seu livro de entrevistas, de Erick Lax, sabe que ele não tem grandes preocupações estéticas. Seus fortes são as premissas para uma trama, e o humor refinado com que seus diálogos são redigidos, muitas vezes com citações à filosofia, música clássica, psicologia e outras áreas do conhecimento.

É impossível, porém, deixar de imaginar o que outro diretor, talvez mais ambicioso, seria capaz de fazer caso pegasse um roteiro como este. Ou se então o próprio Allen não conseguiria aparar algumas arestas caso não tivesse a compulsão de escrever um filme por ano.

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