Nossa Opinião

7.5
É o retrato honesto e autêntico de uma geração chegando aos 30 e poucos anos sem a certeza de que o mundo, e nem particularmente o mercado de trabalho, foi feito para ela.
Nota 7.5

Você não precisa ser uma mulher hétero que ainda não se encontrou na carreira, um jovem gay renegado pela família ou uma lésbica com dificuldade de ver a parceira assumir o relacionamento, nem conhecer os pontos da moda da noite paulistana, para gostar de Amores Urbanos.

Imagino que a identificação com as personagens principais e com cenários como a festa Javali ou o bar Mandíbula torne a experiência mais divertida. Porém, caso o espectador não seja parte destas minorias (pelo menos em termos de representatividade no cinema nacional), então a palavra fundamental é empatia, item aparentemente em falta na sociedade.

Se quem acredita que a chave para o futuro é não pensar em crise e sim trabalhar e quiser ir ao cinema após bater o cartão na firma, é melhor passar longe do filme de Vera Egito. Júlia (Maria Lúcia Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (o cantor Thiago Pethit) gostam de se afogar em suas crises existenciais e parecem pouco entusiasmados com suas profissões.

É o retrato honesto e autêntico de uma geração chegando aos 30 e poucos anos sem a certeza de que o mundo, e nem particularmente o mercado de trabalho, foi feito para ela. Como acontece quando a gente se olha no espelho pela manhã, a imagem que se vê refletida na tela não é necessariamente lisonjeira, mas não se pode negar sua veracidade.

A diretora acerta a tratar estes temas tão íntimos e sensíveis sem pesar a mão na dramaticidade. Afinal, uma das marcas desta geração é saber rir de si mesma, e isso transparece no filme: quando estão juntos, os três amigos são uma frente unida de apoio mútuo, tudo fica mais leve e nenhum problema parece insolúvel.

Trabalhando em seu primeiro longa-metragem, Vera Egito recrutou um grupo de profissionais e amigos, todos com um profundo entendimento do caráter intimista do filme, e entregou uma obra que sabe de quem fala e para quem quer falar.

No elenco, destaque para a ótima Renata Gaspar, recentemente vista nos humorísticos televisivos Tá No Ar e Chapa Quente, ambos na TV Globo. Dominando sua personagem e exercitando também sua veia dramática, sem perder a dose de graça, são dela as melhores cenas.

Amores Urbanos não é um drama de grandes transformações, não há reviravoltas surpreendentes, mas sim o recorte de uma identidade e linguagem assumidas de forma segura, com os erros e acertos que vem com ela.

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