Em 1970, Theodomiro Romeiro dos Santos, andava pela rua com dois amigos quando o grupo foi abordado por uma ronda militar. Ligado ao partido comunista e perseguido pela ditadura no Brasil, ele reagiu à ação e matou um sargento do exército. Foi preso e chegou a ser condenado à morte, antes de ter a pena reduzida para a prisão perpétua.

Nove anos depois, encarcerado na galeria F, ala do presídio Lemos Brito, em Salvador, onde já havia sofrido tortura física e psicológica, Theodomiro começou a ouvir que seu assassinato era planejado. Decidiu fugir.

Em Galeria F, documentário de Emília Silveira em cartaz nos cinemas, Theodomiro, ou simplesmente Theo, refaz o trajeto pelo qual escapou pelo interior da Bahia, 40 anos depois, passando por lugares inusitados, como um cemitério e um convento.

Num registro que lembra uma reportagem estendida, a cineasta ouve figuras importantes na trajetória de seu protagonista, e coloca ele e seu filho numa espécie de road movie pelas memórias de um tempo sombrio.

Emília Silveira, jornalista de formação com passagens por Jornal do Brasil, O Globo e TV Globo, conversou com TelaTela sobre o filme, seu segundo longa-metragem documental:

TelaTela – Como surgiu a ideia de fazer Theodomiro revisitar os locais por onde passou durante a fuga e essa ser a espinha dorsal do documentário?

Emília Silveira – A jornalista e roteirista Margarida Autran é a dona da história. Foi ela quem me falou sobre o Theo, suas lutas e aventuras no período da ditadura militar no Brasil. Quando eu soube que existia esse personagem, que tinha sido condenado à morte, tinha ficado nove anos preso, e tinha conseguido fugir, imediatamente eu acreditei que ali tinha um filme.

Por todo o filme, o protagonista aparente muita tranquilidade. Qual é sua percepção sobre a maneira com a qual ele encara o que aconteceu naquela época?

Para mim, o Theo é uma pessoa que a ditadura conseguiu secar emocionalmente. Foi muita violência, muita tortura, e muita tensão em tantos anos na prisão. No filme eu tentei desvendar uma ternura por trás da aparente frieza.

Qual é a importância deste resgate histórico num momento como este?

A importância é reviver na memória do espectador sinais de tempos difíceis e com isso acender um sinal de alerta para que aqueles fatos não se repitam.

Você acha que o clima de perseguição política, pela qual passou Theodomiro, tem paralelos com o que vemos hoje na sociedade?

O tempo passa e os métodos mudam. Hoje as restrições civis são mais sofisticadas, mais difíceis de identificar. Se temos, por exemplo, um abuso da Justiça, como eu acredito, com vários direitos civis violados, temos também grande parte da mídia formando a opinião pública, no sentido de legitimar atos autoritários. E fica difícil de combater isso porque não é explicito.

Assim como Theodomiro, você também foi presa durante a Ditadura. O que sente quando vê parte do povo e, até figuras políticas, exaltarem o período?

Acho que o direito de opinião é garantido pela Constituição. A minha preocupação não é com as opiniões pessoais mas sim com abusos de autoridade que estamos constatando todos os dias no país. A ameaça de retrocesso está na nossa porta.

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