selomostra39Se uma das funções do artista é servir de antena para captar as grandes questões urgentes no mundo e trazê-las à baila em momento oportuno, é possível dizer que o cineasta francês Jacques Audiard cumpriu com louvor este papel.

Escrito originalmente em 2010, Dheepan – O Refúgio foi o grande vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio deste ano – meses antes da foto do garoto sírio Aylan chocar o mundo e fazer o problema da imigração clandestina na Europa impossível de ignorar. Pode ser discutido se tecnicamente era mesmo o melhor na competição, mas sua comprovada importância social faz com que o prêmio seja justo.

Isto ainda que o destino da família postiça retratada no filme é um pouco menos cruel do que tantas outras da vida real. Bem ou mal, eles chegam à Paris e conseguem um lugar para morar, matriculam a menina que os acompanha numa escola e arrumam empregos que pagam melhor do que imaginavam – precisam até disfarçar para não dar na cara que acham estar recebendo muito.

Dheepan (Jesuthasan Antonythasan), Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e Illayaal (Claudine Vinasithamby) entram numa dinâmica onde precisam fingir que são respectivamente pai, mãe e filha. Eles próprios se perdem em suas emoções, e o que era à princípio uma farsa, um meio de fugir da guerra no Sri Lanka, vai se tornando cada vez mais real.

É como se os três fossem também países individuais e particulares, aprendendo a dividir suas fronteiras e rebatendo de forma violenta quando sentem que são invadidos.

A violência, que tanto queriam deixar para trás, continua presente. O bairro onde vivem é povoado por gangues e criminosos, e não demora para que os protagonistas tenham que lutar pela sobrevivência mais uma vez.

O roteiro de Audiard, Thomas Bidegain e Noé Debré acelera paulatinamente seu ritmo, com a brutalidade que rodeia a família tomando conta do personagem título até o clímax sangrento, digno de um thriller. Seja analisado pelo cunho político ou no puramente cinematográfico, Dheepan – O Refúgio é um grande filme.

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Nossa Opinião

8.5
O roteiro acelera paulatinamente seu ritmo, com a brutalidade que rodeia a família tomando conta do personagem título até o clímax sangrento, digno de um thriller
Nota 8.5