Nossa Opinião

9.0
Num tempo em que o dinheiro para se fazer cinema parece restrito às grandes produções, é sempre inspirador ver algo que funciona maravilhosamente em sua simplicidade, sem que isso signifique abrir mão de ambições artísticas
Nota 9.0

Se diversidade é a palavra de ordem no cinema norte-americano após o anúncio dos indicados ao Oscar, Tangerine é, entre as produções recentes, um dos exemplos mais bem acabados de como um filme que se presta a contar histórias sobre personagens fora do padrão típico de Hollywood pode ser interessante.

Não há nada de convencional no longa de Sean Baker, rodado apenas com três iPhones 5s (usando o aplicativo Filmic Pro), uma Steadicam e um jogo de lentes adaptáveis. Além de ser um modo bastante econômico, a escolha permitiu que a equipe reduzida se movesse de forma mais dinâmica nos cenários e não chamasse a atenção de quem estivesse passando pela locação, já que Baker e companhia não tinham permissão para fechar ruas ou estabelecimentos comerciais.

Se, como diz um dos mandamentos do cinema independente norte-americano dos anos 90, o orçamento é sua estética, o dinamismo de Tangerine é tão intenso que o filme vibra durante seus 88 minutos. O sol que brilha sob o céu azul, por exemplo, parece emanar além da tela, e as batidas da trilha sonora entram no cérebro sem pedir permissão.

Munido de seu celular, Sean Baker dirige o clímax do filme
Munido de seu celular, Sean Baker dirige o clímax do filme

É neste clima que acompanhamos um dia (a véspera de Natal) na vida das amigas transexuais e prostitutas Alexandra (Mya Taylor) e Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez), recém libertada após 28 dias na prisão. Quando Sin-Dee Rella descobre que está sendo traída pelo namorado e agenciador Chester (James Ransone), parte desenfreada em busca dele e de sua amante.

Ambas as atrizes são ativistas da causa trans em Los Angeles, nunca haviam atuado profissionalmente, e deram sugestões importantes que acrescentaram realismo à trama, movida pela química entre as duas. O tom vai do cômico ao dramalhão rasgado, permanecendo sempre crível, enquanto o público se envolve com as protagonistas e não para de se surpreender, a cada atitude inesperada.

Num tempo em que o dinheiro para se fazer cinema parece restrito às grandes produções, é sempre inspirador ver algo que funciona maravilhosamente em sua simplicidade, sem que isso signifique abrir mão de ambições artísticas.

Desde sua estreia em Sundance no ano passado, Tangerine tem causado sensação por onde passa, inclusive no Festival do Rio, de onde saiu com o Prêmio Félix, dedicado à melhor produção de temática LGBT. Houve, inclusive, uma campanha por parte da produtora para uma indicação ao Oscar para Mya e/ou Kitana, o que entraria para a história como as primeiras transexuais a concorrerem à estatueta. Não foi dessa vez, mas se mais filmes como este continuarem a ser feitos, ficará difícil ignorar.

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