CinemaFestival de Cannes 2017

Fatih Akin agita Cannes com ‘In The Fade’, drama sobre atentado neonazista

O alemão de ascendência turca Fatih Akin tem uma filmografia irregular. Alguns de seus filmes, como Contra a Parede (Urso de Ouro em Berlin) são excelentes. Outros, como Soul Kitchen, são apenas competentes. Mas uma coisa é fato. Ele nunca deixa seu público indiferente e traz sempre um comentário político nas entrelinhas tão, ou mais, forte que o próprio filme. No caso de In The Fade, exibido na manhã de sexta no Festival de Cannes, o caso está mais para o excelente.

Com o longa, além de dar um tapa na cara do senso comum, dos xenófobos, de uma Europa cada vez mais conturbada, Akin também dá a seu público um ótimo entretenimento. Para completar, dá à alemã Diane Kruger (de Bastardos Inglórios) a chance de ser um dos destaques de atuação feminina desta edição, candidata séria à Palma de Ouro.

Em seu primeiro filme falado em alemão, a atriz vive Katjia, uma mulher comum, casada com Nori, um descendente de curdos, ex-traficante, que, depois de cumprir a pena, abre um escritório de consultoria em um bairro de imigrantes em Hamburgo. Tudo vai bem com o casal e o filho de seis anos. Até que, num dia qualquer, um atentado à bomba explode o escritório de Nori e mata a ele e ao garoto. Katjia se vê de uma hora para outra às voltas com o luto profundo e em guerra com a polícia, que insiste que o crime foi cometido por inimigos do tráfico, e com todos que põem o caráter do marido em cheque.

Não demora muito para que, como suspeitava Katjia desde o início, um casal neo-nazista, ligado ao grupo National Socialist Underground (NSU), seja preso. É então que a guerra por justiça começa e In The Fade entra no capítulo ‘filme de tribunal’. Não demora muito também para que a trama entre também no capítulo ‘thriller’. Mas sem nunca perder de vista o fato de que se trata também de um filme de família, em que o luto é também protagonista.

Há muitos filmes em In The Fade, bem ao gosto de Akin, que em outros longas já transitou entre vários gêneros (como a comédia de Soul Kitchen). Mas o gosto de por vingança e justiça que a trama desperta acaba por prevalecer à primeira vista. Um pouco de reflexão após o filme e a sensação de desespero da mãe que perde tudo ganha força. “Era exatamente isso que eu queria. Que as pessoas sempre soubessem que é um filme com muitas camadas”, comentou o diretor em conversa com a imprensa.

Akin contou que a ideia do longa surgiu no início dos anos 2000, quando uma série de atentados foram cometidos por neo-nazistas do NSU contra imigrantes na Alemanha. “Quando o escândalo veio, o que senti foi que este não era o escândalo real. Mas sim o fato de que os alemães e a sociedade em geral acharam que os assassinos eram os turcos, a máfia turca”, comentou o cineasta. “Estas pessoas foram assassinadas duas vezes. Foi isso que me deixou tão nervoso e me fez escrever esta história.”

Nervos Expostos
Em uma edição de Cannes marcada pela suspeita de bomba em uma das sessões para a imprensa (que, depois de averiguação provou-se apenas uma bolsa esquecida), pelo reforço da segurança em todos os pontos da cidade francesa, terminar a mostra competitiva com um filme como In The Fade é uma tomada de posição interessante da organização do festival. Isso sem contar a seleção do húngaro Jupiter’s Moon, em que um refugiado sírio é morto pela polícia do país e passa a levitar depois disso.

Lembremos que os nervos, principalmente os franceses, estão expostos desde os atentados de Paris em 2016 e Nice, cidade vizinha a Cannes, em julho do mesmo ano. O recente atentado em Manchester, ocorrido há quatro dias na Inglaterra, só acentua a sensação de medo.

“A gente vive em um mundo globalizado. A gente esta em guerra. É a guerra globalizada. Está em todo mundo. Esta é a realidade. E este mundo globalizado assusta muita gente. A globalização tem o lado bom, que é a interação cultural, mas tem o lado ruim também, o econômico, por exemplo”, declarou Akin. “Eu sou filho da globalização. Eu posso compartilhar meus sentimentos com o mundo todo. É isso é otimismo. Otimismo é uma luz a se seguir”, acrescentou ele, que é filho de um pescador turco que imigrou para Hamburgo (onde o cineasta nasceu e cresceu) “para ver os barcos grandes.”

No entanto, o otimismo de Akin é ponderado. “Acho que para que a gente não sinta mais medo da globalização vai levar tempo. As coisas não mudam tão rápido. Mas eu sou otimista. Quem sabe o mundo que a gente quer vai ser vivido pelo meu filho ou meus netos”, completou o diretor, que recentemente teve seu nome incluído na lista das personas non gratas de um grupo de xenófobos alemães.

Para ele, o melhor a fazer é se vingar. Como? Fazendo filmes, claro. “Ter meu nome nesta lista é um elogio, ainda que me dê muita raiva. Mas, para um artista, raiva é um presente. E por isso digo de novo que parti da raiva neste projeto, mas outras camadas surgiram quando escrevia. A mãe ganhou força. Por isso insisto que é um filme de família. Eu sou um cara de família.”

Sobre justiça e vingança
Ainda sendo um filme de família, o destino dado por Akin para Katja sugere um comentário a mais. “Sim, todos sentimos raiva. A gente é assim. Eu não sou a melhor pessoa do mundo. A gente tem sombras e temos que nos livrar delas. É a jornada. É as vezes a jornada é difícil. Eu expresso minha jornada e a divido com meu público”, respondeu o diretor quando questionado sobre a decisão final da protagonista.

Diane, que dá vida a esta decisão, saiu em apoio ao diretor quando Akin foi questionado sobre a mensagem que o filme pode dar às famílias das vítimas do atentado ocorrido em Manchester. “Eu nunca passei nada perto do que Katja e estas pessoas passam. E não estou dizendo que o personagem faz é certo ou errado. Cabe a você decidir. Mas como humana e como cidadã do mundo, eu penso que esta é uma das razões pelas quais eu quis fazer este filme.”

Akin, sempre tão interessante como um bom conversador quanto como diretor, foi certeiro: “Enquanto eu escrevia este filme com o Hark Bohm (que também assina o roteiro) outros atentados ocorreram. E veio o Bataclã, Nice, Istambul e agora há Manchester. Não há diferença entre meus pensamentos e meus sentimentos no tapete vermelho aqui de Cannes, na lavanderia, na rua… Eu penso nas pessoas que perderam seus amados e nas que morreram. Não tento tirar nenhum benefício disso.”

Akin comenta que por meio do cinema, dialoga com seus pesadelos. Procede. Faz também com que o público ‘sonhe’ junto com ele. “Katja não é uma assassina. Ela é uma mulher comum, que é colocada nesta situação. O filme é sobre o que você faria se estivesse na pele dela. Há muitas camadas. Escolha uma.”

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