“Eu tenho uma teoria pessoal de que, se Shakespeare é atual até hoje, é porque a gente não evoluiu em nada”, diz um dos atores/personagens da adaptação livre de Cristiano Burlan para Hamlet, logo no começo do filme. A tragédia do Rei da Dinamarca ecoa há mais de quatro séculos não apenas no teatro, mas vê seus elementos repetidos também na vida cotidiana: vingança, loucura, amor, identidade.

A própria trajetória pessoal de Burlan é marcada por muitos desses temas. Filho de pai pedreiro e mãe empregada doméstica, ele cresceu nas periferias de três estados, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Na adolescência, leu livros sobre cinema em bibliotecas públicas, entrou escondido no Teatro Municipal para assistir óperas, até se alistar na Legião Estrangeira, aos 21 anos.

Já abordou dramas pessoais no premiado documentário Mataram Meu Irmão, de cunho autobiográfico, e prepara um filme sobre o assassinato da mãe. É coerente que a tragédia de Hamlet, que precisa se redefinir após a morte do pai, agora faça parte de sua filmografia, o 16.º título entre longas, curtas e documentários, quase todos feitos de forma independente, sem incentivos fiscais.

A adaptação, toda em preto e branco, começa nos ensaios, com os atores debatendo o texto, e sua potência ganha a paisagem paulistana de prédios abandonados, trens, trânsito, até chegar a uma montagem nas ruas do centro, interagindo com o público formado por curiosos.

É um projeto ousado em sua linguagem, que chega aos cinemas com o apoio da SP Cine, empresa criada pela Prefeitura de São Paulo, em parceria com o Governo do Estado e a Ancine, para estimular o desenvolvimento audiovisual na cidade.

“O futuro do cinema paulista promete”, acredita Burlan, que além de ver seu filme estrear no Circuito São Paulo de Cultura, com exibições gratuitas ou a 1 real, participou da Oficina “Cinema de Guerrilha”, na sexta 12, no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes.

O cineasta falou ao TelaTela por e-mail sobre Hamlet e a importância da SP Cine apoiar obras como a sua:

TelaTela – Hamlet é um dos textos mais estudados e montados da história do teatro. Apesar disso, ainda tem grande potência. O que o atraiu nele?

Cristiano Burlan – Venho do teatro, posso te dizer que o teatro é minha morada. Estudei muito Shakespeare e sua obra, e acredito que, mesmo depois de 450 anos, seus textos ainda são necessários por muitos motivos. Principalmente por abordar questões que são inerentes ao ser humano, em qualquer lugar da face da terra. Questões essas como o amor, o ódio e a separação.

Ao mesmo tempo, isso trouxe uma reflexão um pouco sombria: se depois de 450 anos uma obra ou um pensamento ainda são necessários, talvez tenhamos evoluído muito pouco.

Para além do paralelo linear entre a sua trajetória pessoal, mostrada em outros filmes, e a história de Hamlet, a escolha da tragédia implica quais significados para você?

Não me relaciono com o processo criativo por um prisma psicológico. A relação que tenho com os filmes que realizo é sempre instintiva. Acredito que faço filmes com o estômago, mas a sua pergunta não é tão deslocada assim. Um dos protagonistas do filme, Jean-Claude Bernardet, fez uma análise muito capciosa. Ele acredita que eu diminuí a importância do papel da rainha (mãe do Hamlet) no filme por não querer o embate com a figura materna.

Atualmente estou em pré-produção do meu próximo filme, Elegia de um Crime, que é um trabalho investigativo, onde vou atrás do assassino da minha mãe, que está foragido.

O filme se apoia bastante no elenco, usando closes de seus rostos em boa parte do tempo. Como foi a escolha destes atores e a preparação com eles?

Eu discordo de você nessa percepção em relação aos closes. Sobre os atores, costumo trabalhar com os mesmos parceiros. O Hamlet é o Henrique Zanoni, meu sócio na produtora (Bela Filmes) e protagonista dos meus últimos quatro filmes. Tem também a atriz potiguar Ana Carolina Marinho que faz a Ofélia e Jean-Claude Bernardet como o fantasma. Não faço teste para os meus filmes, convido pessoas que conheço e com quem tenho afinidade. Esse conceito de preparação é um pouco ultrapassado, não acredito que seja possível dirigir algo antes que aconteça.

O filme evolui de um ensaio para uma cena para uma apresentação na rua, e aí transpõe para a realidade de uma câmera de segurança mostrando como aquele drama se transfere para a vida real. Como esse conceito multimidiático e de hiper-realidades dialoga com o enredo de Hamlet?

Muito complexa essa pergunta. Vou precisar de um tempo pra pensar e te responder (risos).

Nem tudo em um filme é pensado a priori, você prepara um filme, conceitualiza, mas o que você espera quando vai fazer um filme é que as coisas tomem outro caminho, outra direção. Essa relação entre falso e verdadeiro, real e fictício, não acompanha o processo de criação, essa é uma percepção de quem assiste. O que me interessa é filmar as coisas, se elas são multimidiáticas ou hiper-realistas, sinceramente, não parei para pensar nesse diálogo com a obra.

Como a SP Cine, que promove a estreia do filme no circuito paulistano, participou do projeto?

O lançamento do filme só foi possível graças à SPCine. Ela veio atender uma necessidade que existia no cinema paulista, de fomentar a produção audiovisual e a sua distribuição. Um papel muito relevante, em conjunto com a postura da SPCine de fomentar todo tipo de filme, porque é importante se respeitar a adversidade da produção e as suas diferenças.

Posso dar como exemplo o Hamlet, filme realizado sem nenhum recurso público – fiz com meu próprio dinheiro e com o apoio de muitos parceiros, um projeto muito pequeno e muito independente – e mesmo assim, ter a possibilidade de ser distribuído, isso denota uma sensibilidade da SPCine de perceber que a produção audiovisual paulista é diversificada, e que não importa se o filme teve 5 milhões ou 5 mil reais investidos, todos são filmes. O futuro do cinema paulista promete.

Como você acha que o filme vai dialogar com o público ao ser exibido fora do eixo da Avenida Paulista, que normalmente é o palco para esse tipo de produção mais autoral?

O filme vai entrar em cartaz nos equipamentos da Prefeitura (Cine Olido, CCSP e C.C. Cidade Tiradentes), mas também entra em cartaz no Caixa Belas Artes. Acredito que todo tipo de filme encontra seu espaço, seja para muitas ou poucas pessoas. Não tem como prever isso. Claro que quando você realiza um filme, você quer que ele seja visto pelo maior número de pessoas possível. Aliás, Shakespeare era um autor popular em sua época.

Pensar no público talvez seja um erro, penso que é melhor gastar energia fazendo o filme do que ficar pensando em se alguém vai ver o filme. Mas uma coisa não exclui a outra, posso estar completamente equivocado. Não sou bom com palavras e entrevistas.

Você tem se destacado como um autor que imprime personalidade em seus filmes. O que acha do momento atual do cinema brasileiro? Que outros autores nacionais você admira?

O cinema brasileiro é muito amplo, não? O que posso te dizer é que é um momento muito prolífico para a produção audiovisual brasileira e que os filmes que realmente importam quase não chegam às salas de cinema.

Me interessa muito mais a visão de um realizador do interior do Amazonas, de um moleque que tem uma cultura cinematográfica graças à Internet, e que com a uma handycam tosca realiza seus filmes de forma apaixonada, do que a de algum playboy paulistano que fez um curso de cinema em Nova York, depois trabalha dez anos numa produtora de publicidade e usa dinheiro público para fazer filmes.

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