39 Mostra de Cinema de São PauloCinema Brasileiro

“Este filme não termina nunca dentro da gente”, diz Walter Salles sobre ‘Limite’

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“Tem filmes que começam e acabam. Este filme não termina nunca dentro da gente.” Assim Walter Salles, citando o professor de filosofia Plínio Sussekind Rocha, que se apaixonou pelo filme quando o assistiu pela primeira vez há décadas, abriu a sessão especial de Limite, de Mário Peixoto, na quarta, como uma das atrações especiais da 39.a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Concorrida, a sessão contou ainda com a exibição do curta Mar de Fogo (2014), de Joel Pizzini, que recria e reinterpreta livremente o olhar que Peixoto tinha de seu filme e das referências que o levaram a realizar o que hoje é considerada uma obra-prima.

A exibição foi apresentada por Renata de Almeida, diretora da Mostra, e por Margaret Bodde, diretora da The Film Foundation — fundação criada por Martin Scorsese e responsável pela restauração do clássico brasileiro—, com a presença de Patricia de Filippi, coordenadora do laboratório de restauro da Cinemateca Brasileira na época em que a obra de Peixoto foi restaurada.

A grande procura pela única sessão de Limite na Mostra fazia sentido. Realizado por um cineasta de 21 anos, o longa foi exibido pela primeira vez há 85 anos, em um lugar chamado Chaplin Clube, na Cinelândia, no Rio. E desde então vem, por diversos motivos, tornando-se um dos grandes clássicos do cinema nacional e mundial.

“É muito bom ver o resultado do nosso trabalho ser exibido pela primeira vez no Brasil depois de restaurado. É uma ocasião muito especial”, declarou Margaret. “Quando a Film Foundation começou, há 25 anos, seu projeto era restaurar arquivos de filmes que estavam em Hollywood. Mas como ele é muito conectado, tira muita inspiração não só dos filmes americanos, que ele já conhece muito, mas dos filmes que são feitos ao redor do mundo”, declarou Margaret. “O que o tem inspirado muito ultimamente são filmes do Marrocos, Filipinas, Brasil e outros.”

Walter Salles e Margaret Bodde, diretora da The Film Foundation
Walter Salles e Margaret Bodde, diretora da The Film Foundation

Em Limite, três personagens — um homem e duas mulheres — flutuam em uma canoa. Cansados, eles param de remar e entregam-se a seus destinos. Uma das mulheres conta sua história: ela escapou da prisão com a ajuda de um guarda, sem encontrar o conforto que esperava.

A frase de Salles e de Sussekind permanece tão atual quanto o filme. A grande maioria do público que lotava a sala da Cinemateca nunca tinha visto Limite, cuja cópia em DCP era exibida no Brasil pela primeira vez (depois de passar pelo Festival de Cannes em 2007). “A última grande projeção do Limite como ele foi criado foi em 1959, na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro”, contou Salles.

“Ali havia um estudante de 17 anos, chamado Saulo Pereira de Mello, que se apaixonou pelo filme. Nos anos 60, quando a cópia começou a se deteriorar, o professor Plínio, que era o mestre do Saulo, perguntou se ele não iria salvar o filme”, continuou o diretor. “E aí, durante dois anos, sozinho em casa, o Saulo deu uma segunda vida a Limite

Cena de 'Limite', dirigido por Mário Peixoto, em 1931
Cena de ‘Limite’, dirigido por Mário Peixoto, em 1931

Cerca de 30 anos depois, como continuou Salles, em 2007, Martin Scorsese e sua Film Foundation, por meio do World Cinema Project, se uniram ao Laboratório L’Immagine Ritrovata da Cineteca di Bologna, para, junto à Cinemateca Brasileira e ao Arquivo Mário Peixoto e a Salles, realizarem a restauração definitiva de Limite.

Salles ainda agradeceu Martin Scorsese, à Margaret Boddo, ao Carlos Magalhães e à Patrícia de Filippi, “que supervisionaram este longo e minucioso processo de restauro, que levou dez anos”. E continuou: “Saulo Pereira me pediu para agradecer pessoalmente à Fundação, para falar da memória do Sussekind, sem quem este filme não existiria mais. E me pediu para falar do Carlos e da Patrícia de Filippe, dona de um imenso saber em recuperação de filmes antigos.”E me pediu para agradecer à mulher dele, a Ayla, uma batalhadora incansável, que detém um dos maiores acervos do Mário Peixoto, além do Campos, que refez toda a trilha sonora do filme.”

“Tem 60 anos que eu batalho por isso. Limite está salvo e não vai desaparecer mais”, afirmou Saulo. “Mario Quintana dizia que a imaginação é a memória que enlouquece. Hoje é uma noite de imaginação e de memória graças ao Mário Peixoto e a vocês. Obrigada!”, conclui Salles.

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