Espaços em conflito foi o tema, e o norte, da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, encerrada no ultimo sábado. Dos temas dos 117 filmes (entre longas e curtas) que foram exibidos no festival mineiro este ano, a grande maioria trouxe questões que enfocaram conflitos territoriais, culturais, políticos e até mesmo existenciais.

Não por acaso, na Mostra Aurora, a principal do evento, dedicada, via de regra, a cineastas jovens que assinam seus primeiros e segundos longas, o vencedor foi Jovens Infelizes ou Um Homem que Grita não É um Urso, de Thiago B. Mendonça.

Ao contrário de diversas produções que concorriam na Aurora, em Jovens, o conflito não está na relação entre campo e cidade, ou branco e índios, mas sim entre os artistas urbanos e suas utopias em contraponto à moral e os costumes vigentes, impostos pela sociedade média e pelo governo.

“A gente não sabia dizer se alguém ia ver e gostar do filme. Mas vimos tanta gente se identificar com o que a gente estava dizendo que ver o filme ser recebido como foi aqui é algo muito emocionante. E nos faz acreditar que podemos usar o cinema para a luta. E fazer com que nossos sonhos possam se materializar, fazer cinema como a gente faz, no peito e na raça ”, declarou o diretor ao receber o prêmio.

“Queria dedicar este prêmio às guerreiras de São Paulo, as Mães de Maio. Este ano são dez anos de luta por justiça e memória. A gente fala de luta, de justiça e memória sempre pensando no passado. Mas estas mães lutam por isso e pelos filhos da democracia, pros filhos do presente”, completou Thiago.

 

Ainda que a mostra Aurora tenha trazido um veterano simpático e de discurso fascinante, o cineasta Luiz Paulino dos Santos (nome conhecido do Cinema Novo, que assinou o documentário Índios Zoró – Antes, Agora e Depois?), de fato foi o cinema feito por jovens e suas inquietações que ganhou destaque maior na seção.

Curiosamente, não foi um jovem, mas sim uma jovem vaca (com voz de homem) um dos principais protagonistas da Aurora. Animal Político, de Tião, conta a saga do bovino que vive feliz na cidade até que num dia, véspera de Natal, dá-se conta de que sua existência não passa de uma ilusão e parte em busca de um sentido maior e mais nobre para sua vida.

O tom é de humor e o discurso político de Animal não é tão explícito quanto o de Jovens, mas o subtexto do longa é profundo e, como o nome deixa claro, político e contestador das normas que ditam os gostos e até mesmo o padrão do que é ser feliz no mundo contemporâneo.

Já na Mostra Transições, dedicada a diretores mais jovens e por vezes radicais ainda, o vencedor, eleito pelo júri jovem, foi o incômodo, mas inventivo, Tropykaus, de Daniel Lisboa. Não suportando o calor, às vésperas do vertiginoso carnaval, de sua cidade, Salvador, um poeta mergulha num inferno niilista, que se alterna do vazio existencial ao fogaréu do verão soteropolitano.

'Tropykaus', vencedor da Mostra Transições, um dos mais experimentais longas da seleção
‘Tropykaus’, vencedor da Mostra Transições, um dos mais experimentais longas da seleção

O longa foi um dos títulos mais experimentais na mostra, com destaque para a participação do cineasta baiano Edgar Navarro. O debate em torno do filme foi agitado, pois houve quem enxergasse no personagem (e principalmente em uma fala em que ele se diz não preparado geneticamente para o clima, e os raios ‘ultraviolentos’ da cidade baiana) uma representação da elite branca dominante e, em Tropykaus, um ‘filme de burguês’.

Ao receber o prêmio, Lisboa agradeceu e passou ao largo da polêmica: “Estou muito feliz. Primeiro por ter sido selecionado e agora por ter sido premiado. Isso sabendo que na Mostra tinha muito filme legal. Não preparei p… nenhuma porque achava que não ia rolar. Dedico à equipe do filme, pois deu muito trabalho para ser feito.”

Outro filme da Transições que teve debate acalorado foi Jonas. O primeiro longa da cineasta Lô Politi conta a história do jovem Jonas (Jesuíta Barbosa), apaixonado pela garota Branca, filha dos patrões de sua mãe, vivida por Laura Neiva. Eles cresceram juntos, mas o abismo social e econômico que há entre os dois torna o amor impossível. Tomado de ciúme, Jonas sequestra Branca e a mantém em cativeiro na ‘barriga’ de uma enorme baleia, um carro alegórico da escola de samba paulistana Pérola Negra.

O mais agitado de todos os debates de Tiradentes (que costuma ter de fato debates sempre acalorados, mas que este ano foi mais palco de concordância que de dissonância entre realizadores e público), trouxe questões sobre a abordagem da violência contra a mulher e a possível síndrome de Estocolmo que Branca sofre ao longo da trama, sem contar observações sobre o possível racismo ao se escalar uma atriz negra (a rapper Carol Conka) para viver uma personagem “passiva e usada por Jonas” na trama.

“Claro que qualquer sequestro é violento e abusivo. Mas a história da síndrome de Estocolmo existiria de qualquer maneira no roteiro. A gente está falando de ficção. É uma ficção de amor, de ilusão”, argumentou a diretora ao TelaTela.

“Branca confia em Jonas porque eles cresceram como irmãos. É uma situação em que seu irmão pode fazer algo absurdo, como ele faz, mas que não vai fazer mal de fato a você. Sabendo da força que ela tem sobre ele, e do fato de saber o que ele fez, ela o manipula”, completou Lô.

'Banco Imobiliário' faz uma radiografia do mercado imobiliário paulistano, e da engrenagem da especulação que hoje move o meio.
‘Banco Imobiliário’ faz uma radiografia do mercado imobiliário paulistano, e da engrenagem da especulação que hoje move o meio.

Outro longa paulista que também trouxe questões polêmicas foi Banco Imobiliário, de Miguel Antunes Ramos. Apesar de sua estética e montagem clássicas, o longa se destacou na Transições ao fazer uma radiografia do mercado imobiliário paulistano, e da engrenagem da especulação que hoje move o meio.

A sessão do documentário foi uma das que mais arrancou risos (não necessariamente pretendidos) da plateia. Durante o debate, ao ser apontado como irônico em relação a seus personagens, o diretor e sua equipe negaram que pretendiam ironizar seus entrevistados, mas sim se manter o mais próximos e abertos a eles.

Ao acompanhar os corretores e incorporadores de São Paulo, a equipe não pretendia de antemão fazer um retrato irônico do meio, mas retratar as partes desta engrenagem para revelar o todo do motor que ergue cada vez mais condomínios e prédios que mais isolam do que integram seus moradores ao espaço comunitário da cidade.

A questão é que o espectador de Tiradentes, naturalmente mais propenso ao modo de olhar a cidade por um viés mais humanizado e menos mercantilizado, vai de fato rir nos momentos em que absurdos (pelo menos sob o olhar de quem não ‘compra’ os slogans do mercado imobiliário) são proferidos pelos corretores de Banco Imobiliário.

O diretor Miguel Antunes Ramos e a montadora do longa durante o debate sobre 'Banco Imobiliário'
O diretor Miguel Antunes Ramos e a montadora do longa durante o debate sobre ‘Banco Imobiliário’

“O apartamento é pequeno e você tem mais tempo para ficar fora”, diz um corretor, ‘vendendo’ a ideia dos apartamentos de 18 metros quadrados, “como os do Japão, que é tendência”, enquanto abaixa uma cama embutida que não chega a ficar de fato na horizontal sobre o sofá da sala.

Como não gargalhar? Não rindo do corretor, nitidamente repetindo um treinamento que lhe foi incutido, mas sim do discurso do sistema em si. Como não se deparar com a escolha (interessante, aliás) da questão que foi feita a outros personagens, mas que recebeu de um deles uma resposta diferente. O diretor indaga ao incorporador o que é uma cidade. A resposta é outra pergunta. O personagem hesita, em genuína dúvida e devolve algo como: “Vocês sabem? Difícil esta questão.”

De fato. Difícil responder o que é cidade em uma metrópole movida ao vertiginoso movimento de destruição e construção. Mas talvez se repensada a saudável ironia intrínseca ao filme, Miguel e sua equipe dominem mais os próximos debates e se apropriem melhor de sua obra. Um documentário, como tratamento criativo da realidade retratada que é, tem, sim, liberdade para construir seu discurso. Basta que os realizadores reflitam sobre o tom a ser dado.

'Taego Ãwa', que ao lado de 'Índios Zoró' retratou a questão indígena, foi uma das boas surpresas do festival
‘Taego Ãwa’, que ao lado de ‘Índios Zoró’ retratou a questão indígena, foi uma das boas surpresas do festival

É a ironia, a propósito, em seu único e pequeno momento em todo o filme Taego Ãwa, que reflete como grande parcela da sociedade ‘do progresso’ enxerga o índio no Brasil. “Eu até gosto de índio, até crio alguns aqui. E agora tudo é terra índígena?”, questiona um dos ‘entrevistados’ brancos do documentário, cuja voz só é ouvida enquanto a tela está preta (pois a câmera estava escondida por motivos óbvios, em um terreno minado em que o povo Ãwa luta pela demarcação de suas terras, na Ilha do Bananal, no Tocantins).

Ainda que imperfeito, mas profundamente belo, principalmente em seus momentos mais melancólicos diante de uma cultura que vem sendo vilipendiada ao longo de séculos, Taego Ãwa, de Marcela Borela e Henrique Borela, foi um dos grandes destaques da Mostra Aurora. Mesmo que tenha saído sem prêmios de Tiradentes, o longa tem carreira internacional já garantida, com a participação em um grande festival europeu em abril. E merece ser visto por mais espectadores no Brasil.

Ao trazer cenas como a em que o velho índio Tutawa, depois de ensinar seus netos a se pintarem, tira seu shorts e diz que, ao contrário dos mais jovens, não tem vergonha de ficar pelado, Taego Ãwa nos confronta com nossa própria noção idílica (ou a do espectador majoritariamente identificado com a cultura do branco) de que ver o índio em seu ‘estado natural’ é mais aceito do que vê-lo urbanizado e vestido.

Ao mesmo tempo, é preciso aprender a respeitar o índio urbano, que assimilou muito da cultura do branco (os Ãwas têm TV, vestem-se como qualquer brasileiro ‘comum’ e vão à escola, trabalham), mas que não perderam características cruciais de sua cultura original. “O Brasil vai ter de aprender a lidar com o índio urbano”, diz Marcela.

De fato. Não por acaso um dos três longas brasileiros em competição no Festival de Berlim este ano, que ocorre de 11 a 21 de fevereiro, é Antes o Tempo não Acabava, de Sergio Andrade e Fábio Baldo, justamente sobre Anderson, um rapaz de origem indígena que deixa sua aldeia e se vê dividido entre a vida na metrópole e as tradições de seu povo.

A urbanização e seus conflitos, encontros e desencontros, teve seu ápice em Futuro Junho, de Maria Augusta Ramos. A diretora, que sempre parte do espaço e dos embates nele travados (como em Juízo e Justiça) realizou um minucioso retrato do Brasil, tendo São Paulo como a metonímia de um País em grande agitação social, política e econômica, às vésperas da Copa do Mundo de 2014.

Por fim, com uma amostragem imperfeita, mas inquietante, bela e instigante, a Mostra de Cinema de Tiradentes inaugura bem o ano cinematográfico nacional e sinaliza para os tantos futuros do cinema brasileiro. Resta agora torcer para que os filmes não só premiados, mas selecionados, encontrem diálogo e, claro, também entrem em saudável conflito, com o espectador das diversas regiões do País. Há que se ocupar o espaço de telas brasileiro, este também sempre terreno de conflito. Seja esta ocupação, como bem observou Andrea Tonacci, em circuito não comercial, em DVD, na TV ou até mesmo na internet.

Vale lembrar que em março, a Mostra de Tiradentes chega a São Paulo, pelo quarto ano consecutivo, numa parceria com o Sesc São Paulo, onde os principais filmes da seleção serão exibidos.

Confira a lista completa dos premiados na 19a Mostra de Cinema de Tiradentes:

Melhor longa da Mostra Aurora pelo Júri da Crítica: 
Jovens Infelizes ou um Homem que Grita não é um Urso que Dança (SP), de Thiago B. Mendonça

Melhor longa da Mostra Transições pelo Júri Jovem:
Tropykaos (BA), de Daniel Lisboa

Melhor longa pelo Júri Popular:
Geraldinos (RJ), de Pedro Asbeg e Renato Martins

Melhor curta pelo Júri Popular:
Madrepérola (RS), de Deise Hauenstein

Melhor curta da Mostra Foco pelo Júri da Crítica:
Noite Escura de São Nunca (RJ), de Samuel Lobo

Melhor curta pelo Canal Brasil:
Eclipse Solar (ES), de Rodrigo de Oliveira

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