Nossa Opinião

9.5
Um filme que constrói seu pilar na intimidade, em tudo aquilo que resiste mesmo após uma separação.
Nota 9.5

Ivo (Irandhir Santos) é um fotógrafo pernambucano que vem a São Paulo para fazer sua primeira exposição individual e se hospeda na casa da ex, Rita (Rita Carelli). É esse o ponto de partida de Permânencia, de Leonardo Lacca, um filme belíssimo e sensível que constrói seu pilar na intimidade, em tudo aquilo que resiste mesmo após uma separação.

Afinal, como diz um dos personagens à certa altura, palavras e cheiros são para sempre. Mas esta não é uma simples história de amor. É mais uma busca por raízes, por uma sensação de familiaridade e abrigo, por uma volta a algo que talvez nem esteja mais ali.

Na maior parte do tempo, Ivo é tratado como um estrangeiro na cidade, um ser quase folclórico. Em todas as conversas, seus interlocutores incluem algum tipo de citação à sua terra natal, com os clichês típicos: “Passei um Carnaval no Recife e me apaixonei pela cidade”, “lá vocês não usam casaco”, etc. Natural então que ele se volte cada vez mais para Rita, vista como a figura de um lar, e única que o vê além do estereótipo. A questão é que ela, agora casada, pisa em ovos para tentar manter a normalidade diante de uma situação visivelmente incômoda, principalmente para seu marido (Silvio Restiffe).

O roteiro de Lacca é exemplar ao usar meias-palavras, subtextos e silêncios para dar autenticidade aos personagens. Justamente por valorizar esses momentos “vazios”, cada palavra é muito bem colocada em cena, e diz muito mesmo quando o assunto são aparentes banalidades.

Em um depoimento durante a pré-estreia em São Paulo, o autor contou que, enquanto apresentava o projeto para potenciais parceiros e investidores, ouviu que o filme não era alternativo o suficiente, ou até que “não tinha nada de brasileiro”. De fato, se é para comparar, sua temática urbana e o tom agridoce remetem a elementos que fizeram do cinema argentino incensado por aqui desde que começou era Ricardo Darín – e para quem ainda está nessa, convém abrir o olho para o que está sendo feito em território nacional e nem sempre tem o merecido destaque.

Essa dificuldade em embrulhá-lo num rótulo é o que faz de Permanência capaz de transitar entre gêneros e diferentes tipos de público. Se vai chegar às pessoas depende de muita coisa, mas certamente surpreenderá a quem assistir.

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