Num mercado cultural tão acostumado a dividir suas produções em caixinhas e rótulos, deve ser difícil enquadrar André Moraes. Suas maiores referências musicais são Michael Jackson, Hermeto Pascoal e Frank Zappa. No cinema, cita dezenas de títulos, começando pelos Goonies até chegar a Michel Gondry, passando por Sam Peckinpah, Stanley Kubrick, Martin Scorsese e Quentin Tarantino.

O caldo deste autêntico liquidificador de cultura pop corre nas veias de Entrando Numa Roubada, seu longa de estreia, já em cartaz.

É uma comédia com tons metalinguísticos, sobre uma turma de amigos que tem cem mil reais para fazer um filme de ação. Um deles entra na produção escondendo um plano de vingança contra um ex-companheiro, hoje pastor, e convence o grupo a gravar um road movie, sem dizer que os assaltos à posto de gasolina que farão pelo caminho serão reais.

O filme tem humor negro, situações que brincam com o absurdo, sátira aos líderes evangélicos, alucinações, e até passagens que remetem à linguagem das animações e histórias em quadrinhos. Mas uma coisa ficou de fora, conscientemente: piadas escatológicas ou que atacam minorias.

“Não gosto deste tipo de piada. Eu acho que fazer isso é roubar no jogo”, diz o cineasta, em entrevista ao TelaTela. Entrando Numa Roubada arrisca uma ideia diferente daquela que o público está acostumada a ver nos exemplares do gênero que chegam aos montes nas telas.

“Tudo que é novo, é difícil as pessoas apostarem. Quando está muito na moda uma determinada música, surgem milhões de bandas que vão naquele estilo, as gravadoras querem que se fabriquem coisas daquele jeito. No cinema é a mesma coisa”, compara André.

“Você vê uma comédia como Se Eu Fosse Você, que é bacana dentro daquilo que se propõe, e aí vem um monte de filme igual, até saturar. E aí quando você vem com algo novo é difícil as pessoas quererem patrocinar. Elas normalmente pedem pra você fazer público primeiro, pra só depois fazer o filme que você quer”.

De fato, esta saturação pode até espantar quem já torce o nariz de antemão para as comédias nacionais, em sua maioria rasteiras. Mas a proposta de Entrando Numa Roubada é diferente. Digamos que está mais próximo ao Porta dos Fundos do que à série Vai Que Cola, se fosse para traçar um paralelo. E, o que é fundamental, não repete uma fórmula televisiva. É cinema.

Bruno Torres, Deborah Secco, Lúcio Mauro Filho, Júlio Andrade e Ana Carolina Machado estão no elenco principal, que também tem Marcos Veras e Tonico Pereira
Bruno Torres, Deborah Secco, Lúcio Mauro Filho, Júlio Andrade e Ana Carolina Machado estão no elenco principal, que também tem Marcos Veras e Tonico Pereira

Mesmo com patrocínio de algumas empresas como Cavelera e Johnson e Johnson, o filme teve orçamento de R$ 1,8 milhões, o que é considerado modesto para os padrões. Outra comédia recente, Meu Passado Me Condena 2, por exemplo, custou mais que o triplo: R$ 7 milhões.

A presença de atores como Lúcio Mauro Filho e Deborah Secco só foi possível pois são seus parceiros de longa data. Lúcio estava no elenco do primeiro curta do diretor, o sensacional Ópera do Mallandro (assim mesmo, com dois Ls, pois faz homenagem a Sérgio Mallandro) e Deborah irá estrelar um talk show com direção de André, para o portal Gshow.

Os dois astros gravaram depoimentos em vídeo que foram usados pelo autor ao defender seu projeto no Minc, quando recebeu apoio vindo de edital.

No filme, Lúcio e Deborah visivelmente se divertem em cena, interpretando artistas fracassados, algo que era um das ideias presentes desde a concepção do roteiro. Outra vontade era falar dos cinemas que viram centros de culto religiosos, realidade comum em muitas cidades brasileiras.

“Quando era moleque, em Brasília, eu ficava revoltado de não conseguir ir mais ao cinema, a não ser em shopping. Isso porque todos os cinemas de rua fecharam para se transformar em Igreja”. A lembrança acrescenta um toque de catarse pessoal ao desfecho de Entrando Numa Roubada.

Além de cinéfilo, André é músico, um requisitado compositor de trilhas sonoras. Seu longo currículo na área inclui títulos como Lisbela e o Prisioneiro, Meu Tio Matou um Cara, Assalto ao Banco Central e a série Sexo Frágil.

Além de já pensar seus filmes com a trilha na cabeça, a experiência faz com que ele tenha uma abordagem peculiar na condução de seu elenco. “Eu faço uma partitura para meus atores. Falo para onde eles têm que andar, o que têm que dizer, tudo isso a partir de um tempo que é muito musical”.

Neste mês de setembro, André Moraes está não só nas telas, mas também no palco do Rock in Rio. Ao lado de André Abujamra, do norte-americano Constantine Maroulis (ex-American Idol) e dos Heavy Metal All Stars, ele comandará uma homenagem aos clássicos do terror, dia 25, no Palco Sunset. Um caldeirão de referências, bem ao seu estilo.

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