CinemaFestival de Cannes 2017

Em trama violenta de Lenny Ramsay, Joaquin Phoenix é o maior destaque

Último filme em competição a ser exibido no Festival de Cannes 2017, You Were Never Really Here, de Lenny Ramsay, para o bem e para o mal, foge de vários clichês. Para começar, ainda que de uma violência escancarada que muitas vezes não se justifica, o longa desfaz o chavão do ‘olhar feminino’ quando se trata de uma mulher na direção.

O filme da mesma diretora de Precisamos Falar Sobre Kevin (que concorreu em Cannes em 2011) é brutal, violento e trata de um universo majoritariamente retratado por cineastas homens: um veterano de guerra (Joaquin Phoenix) vive com a mãe no subúrbio de Nova York, na mesma casa em que cresceu sofrendo com a violência sistemática do pai. Joe trabalha para uma organização fazendo serviços violentos e atualmente está numa missão de resgate de Nina (Ekaterina Samsonov), garota filha do senador Votto (Alex Manette) que foi transformada em escrava sexual. A trama, e a rede de pedofilia, envolve políticos famosos e tudo se complica quando uma missão dá errado.

Outro clichê que Lynne quebra é a velha noção de que seu protagonista é o herói (ou anti-herói) traumatizado e culpado que se redime ao salvar a heroína. “A garota é quem salva a si mesma. Não é o tipo de filme em que um homem heroico vem e salva tudo”, comentou a diretora em entrevista coletiva após a sessão do filme em Cannes.

De fato, e aqui não há spoiler ao se afirmar isso, Nina é quem se resgata e acaba por resgatar também Joe de seu próprio abismo. Como ela o faz e o caminho que Joe traça até chegar a este ponto é justamente o que Lynne filma com a agressividade e, ao mesmo tempo, com calma e detalhismo.

Com pouco mais de 90 minutos, o filme é relativamente curto em relação a outros títulos longuíssimos da competição, mas o ar é tão rarefeito na narrativa que You Were Never Really Here parece ter horas. “Este corte ainda não é o final, ainda vou mexer um pouco no filme, mas a duração será mais ou menos esta. Meus filmes são todos curtos. Não queria entediar vocês em plena Cannes vendo um filme interminável”, disse a diretora quando questionada sobre a economia da narrativa. A questão é que Joe quase não fala, move-se como um Minotauro por um labirinto de sangue e silêncio. A atmosfera um tanto claustrofóbica do filme ganha efeito com a bela trilha sonora de Jonny Greenwood, do Radiohead.

No entanto, o grande destaque do longa é a atuação de Joaquin Phoenix. Seu Joe é um touro, já meio cambaleante, que perdeu certa força com o passar do tempo, mas que pesa uma tonelada diante da câmera. Carrega cicatrizes visíveis e invisíveis. Carrega também um martelo em vez de uma arma de fogo. “É algo único o fato dele usar um martelo em vez de uma arma. Ele estava deixando sua marca”, comentou Lynne. “Na verdade, a gente não tinha dinheiro para armas”, brincou a diretora.

Por falar em brincadeira, há a tentativa de um certo humor em cenas que mesclam o absurdo da violência e o surreal de situações esdrúxulas (como referências a Psicose, um dar as mãos entre um assassino e seu matador, por exemplo). Mas talvez falte um dom para o comentário irônico por parte de Lynne. A violência quase sádica incomoda mais ou torna a plateia mais indiferente do que as tentativas de olhar com graça para Joe.

No entanto, é um bom personagem. Ele é capaz de atos de violência extrema, mas é terno com a mãe (a ótima Judith Roberts) e com Nina. Não demonstra prazer em matar, mas se refugia do barulho do mundo e de sua própria mente respirando dentro de um saco plástico (o que rende as cenas mais sensoriais e interessantes do longa). Tem nuances e encantos o personagem e a interpretação de Joaquin.

“Parece muito óbvio o que eu vou dizer, mas ele sofreu muito na infância. Ele passou por um grande drama. A gente queria ficar longe do típico de corpo que Hollywood mostra. Queríamos dar a ele o corpo mais real possível. Esta era a ideia pro trás de tudo que ele é”, explicou o ator.

De fato Phoenix está em ótima performance e poderia até ameaçar o favoritismo de Robert Pattinson e/ou Louis Garrel à Palma de Melhor Ator, mas a trama de Lynne se perde na exploração excessiva do tom rarefeito e da violência exacerbada. O vazio joga contra a premissa forte da qual parte a diretora. Caberá ao público decidir se, assim como em Precisamos Falar Sobre Kevin, Lynne acertou na sua forma de tratar da violência e da busca de redenção de Joe.

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