A pergunta é antiga, mas se mantém sempre, ou talvez até mais atual: o que é preciso para que o cinema brasileiro não só coproduza cada vez mais com outros países mas também que os filmes sejam selecionados para os principais festivais do mundo? As duas questões foram a tônica de dois debates distintos, mas complementares, realizados esta semana na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Em tempos em que o festival mineiro, além de abrir o calendário cinéfilo do ano, também abre a cabeça do público e da crítica para propostas das mais variadas e novas, como encontrar novos parceiros para realizar novos filmes e circuito de exibição, tanto em festivais quanto em cinemas, TV e VOD para produções que incluem desde os chamados ‘filmes do meio’ como Através da Sombra e Jonas, quanto mais engajados como Índios Zoró – Antes, Agora e Depois?, de Luiz Paulino dos Santos, e Taego Ãwa, de Henrique Borela e Marcela Borela, passando por mais radicais como Urutau, Animal Político e Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois?

Antes de exibir, é preciso encontrar formas de se produzir e coproduzir. Cada vez mais o Brasil, a exemplo do cinema de vizinhos como Argentina, Uruguai, Colômbia, Chile, busca parcerias Internacionais, que facilitam não só a produção como a distribuição. Afinal, uma vez também europeus (ou de outras nacionalidades), os filmes se tornam produtos locais em dois (ou até mais) mercados.

“Um dos pontos principais é saber escolher seus sócios e parceiros. Como escolher e como saber? É difícil ter a certeza, mas se pode tentar errar o menos possível”, afirmou, sincero e direto, o produtor brasileiro radicado na Alemanha Paulo de Carvalho.

Ele, que também é programador e já integrou a comissão de seleção do Festival de Locarno, na Suíça, por vários anos, é coprodutor, com sua alemã Autentika Films, do longa Antes o Tempo não Acabava, de Sergio Andrade e Fábio Baldo, que integra a Mostra competitiva Panorama no próximo Festival de Berlim (de 11 a 21 de fevereiro).

Ao lado de Paulo, por Skype de São Paulo, a produtora Sara Silveira também apontou alguns caminhos para quem quer começar a coproduzir com países como Argentina, Uruguai, Portugal, Itália, França, Alemanha, entre outros. Sara é a Produtora, pela Dezenove Som e Imagem, de Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, que também integra a Mostra Panorama em Berlim.

“No caso deste filme, é um projeto de baixíssimo orçamento e não houve coprodução, mas estou finalizando vários outros projetos que têm nós como produtores no Brasil e outros países, como Vazantes (de Daniella Thomas, com Portugal), Pela Janela (de Caroline Leone, com a Argentina) e As Boas Maneiras, uma incursão no horror, que vamos filmar este mês e é coproduzido com a França”, explicou Sara.

Os produtores Paulo Carvalho e Sara Silveira (por Skype) durante debate em Tiradentes
Os produtores Paulo Carvalho e Sara Silveira (por Skype) durante debate em Tiradentes

Paulo, que também tem o olhar de quem seleciona e procura filmes que dialogam com os festivais pelos quais já integrou e integra as equipes, ressaltou que cada país e cada fundo tem suas especificidades e que é preciso estar atento, assim como no caso dos festivais, para o que cada um busca e exige.

“Há quem diga que a Alemanha é muito burocrática e sofra com isso, pois as especificidades e prestações de contas são muito minuciosas e chega a haver um auditor externo para acompanhar isso”, observou ele, que trabalha com fundos alemães como o World Cinema Fund, ligado ao Festival de Berlim.

“A escolha dos parceiros é muito importante. Os franceses trabalham diferente com os alemães, que trabalham diferente dos latinos. É preciso buscar parceiros que trabalham para o projeto. Tem produtor que quer a parte dele, para quem o projeto em si nem é tão importante”, acrescentou Paulo, que, com Sara Silveira e Teia (casa de produção mineira), realizou Girimunho, uma coprodução com a Espanha (com o produtor Luis Miñarro) e que contou com financiamento da Ibermedia.

“Este caso é muito interessante. O Ibermedia é ibero-americano. Então, essa etapa foi uma iniciativa da Sara, da Luana (Melgaço) e do Luis, pois eu era o alemão no caso. Fiquei de fora tecnicamente, mas acompanhei o processo todo”, contou Paulo, que também é colaborador do CineMundi, encontro de coprodução que ocorre em Belo Horizonte sempre em outubro.

“A participação espanhola, por regra, previa a contratação de atores espanhóis. Mas o projeto, dirigido por Clarissa Campolina e Helvécio Marins, tinha um caráter muito particular de não ter atores nem brasileiros, mas sim pessoas (ou personagens) reais que atuariam em suas rotinas. Tivemos de explicar para os espanhóis que não havia, portanto, como haver atores espanhóis. E o gasto que haveria com isso foi, depois, na pós-produção de som em Barcelona, e outros gastos”, explicou o produtor.

Para Paulo e Sara, as burocracias têm de ser entendidas e, claro, cumpridas, mas, de fato a questão principal é a escolha do parceiro. E para isso é preciso pesquisar, estudar os regulamentos dos fundos, linhas de créditos internacionais para o audiovisual, acordos de coprodução entre o Brasil e diversos países, além de entender qual país e qual parceiro é o ideal para cada projeto. E disso, depende muito o networking e uma rede de contatos.

“Repito: os parceiros são cruciais. Quem é o outro produtor com quem você vai praticamente dormir e acordar por vários anos? Produzi quatro filmes com o Peru e só em um tive reais problemas com o coprodutor. Tenho um atual projeto com o Paraguai, o longa Exercícios de Memória, de Paz Encina, (de Hamaca Paraguaia), que é pequeno, mas que já estamos há dois anos e meio. Há problemas suficientes no projeto para que se tenha mais problemas com os próprios parceiros.”

E como fazer a escolha? A fórmula não existe, mas a intuição e o já citado estudo, sim. “Temos de ficar atentos às diferenças e semelhanças culturais. Os coprodutores franceses de orçaram em 500 mil euros. Isso para os alemães já é caro. Se eu chego com um documentário pequeninho, do Paraguai, para um alemão a este custo, eles vão rir da minha cara. É uma outra mentalidade. Então, estar sempre atento a questões como esta é crucial”, concluiu o produtor.

Comentários

comentários