botaooscarBrigar com um urso. Escapar após ser enterrado vivo. Sobreviver comendo iguarias como fígado de bisão cru. Parece roteiro do extinto No Limite, programa que a Rede Globo exibiu durante a primeira década dos anos 2000, mas são alguns dos obstáculos que o personagem de Leonardo DiCaprio vive em O Regresso, filme que lhe tornou favorito ao Oscar de melhor ator e ainda conquistou doze indicações no total, recorde desta edição.

Sozinho em cena ou impossibilitado de falar durante aproximadamente um terço do longa, DiCaprio aproveita para mostrar um repertório de expressões faciais e corporais, sem nunca cair no exagero. É uma atuação do tipo ‘tour de force’, que costuma encher os olhos da Academia, haja visto os últimos vencedores em sua categoria: Eddie Redmayne, que fez Stephen Hawking em A Teoria de Tudo, e Matthew McConaughey, que emagreceu cerca de vinte quilos para Clube de Compras Dallas.

O ator vive Hugh Glass, explorador que no século 19 percorreu os confins da América do Norte como espécie de guia para uma companhia que caçava animais na região. Sua história foi contada em livro escrito por Michael Punke, lançado recentemente no Brasil pela editora Intrínseca.

Nossa Opinião

9.0
Sozinho em cena ou impossibilitado de falar durante aproximadamente um terço do longa, DiCaprio aproveita para mostrar um repertório de expressões faciais e corporais, sem nunca cair no exagero.
Nota 9.0

O projeto da adaptação foi parar nas mãos do mexicano Alejandro G. Iñarritú, e caiu como uma luva. Famoso por seu estilo virtuoso, o cineasta vislumbrou a chance de fazer um épico de grandes proporções e assinou o contrato para comandar a produção, ainda em 2011.

Dali até a estreia, o longa passou por uma produção turbulenta, com atrasos no cronograma de filmagem, estouros de orçamento, debandada de parte da equipe, que não aguentou as baixas temperaturas e pediu arrego. No meio tempo, o diretor ainda escreveu, rodou e lançou Birdman, pelo qual colheu prêmios diversos, incluindo o Oscar.

 

Em alta na indústria, Iñarritú manteve a segurança para fazer o filme que queria fazer, sem abrir mão de suas escolhas. As principais: só gravar usando luz natural (aquele tom de azul, roxo e laranja que cobre o céu em boa parte do tempo é totalmente real) e evitar cenários construídos em computação gráfica.

Assim, quando o inverno na locação original (Canadá) não foi tão rigoroso como esperavam e a neve começou a desaparecer, a equipe inteira foi deslocada para a Patagônia, onde as últimas cenas foram rodadas.

Isso tudo pode parecer aos olhos de seus críticos como pura afetação, mas o fato é que o visual de O Regresso impressiona. A fotografia magnífica de Emmanuel Lubezki (atual bicampeão do Oscar, por Gravidade e Birdman) aproxima o espectador do drama de Glass, alternando entre a visceralidade e a poesia. O trabalho pode lhe render uma histórica terceira estatueta consecutiva.

Iñarritu, DiCaprio e Lubezki (de costas): a tríade responsável pela força de 'O Regresso'
Iñarritu, DiCaprio e Lubezki (de costas): a tríade responsável pela força de ‘O Regresso’

Pontuada pela respiração pesada de seu protagonista, destacada em vários momentos, a trama remete a sensações primitivas não só na humanidade, mas também em parte dos animais, como os instinto de sobrevivência e maternal/paternal. Não é por acaso que o clímax, um embate entre herói e vilão, dispense armas de fogo e seja uma luta corpo a corpo, o modo de combate mais básico possível.

A via crúcis de Hugh Glass começa a partir do encontro com uma mãe urso que busca defender sua prole. Não demora para que ele próprio se veja nessa situação, quando acompanha os abusos do colega vivido por Tom Hardy sobre seu filho, o mestiço Hawk (Forrest Goodluck).

Vestindo a pele espessa de um dos bichos que subjuga, Glass fica cada vez menos o que reconhecemos como homem, e mais animal. “Somos todos bárbaros”, diz uma placa deixada num dos índios aniquilados por uma expedição francesa, a outra vértice deste triângulo conflituoso que confronta os nativos defendendo suas terras da exploração norte-americana e europeia – e o resultado dessa briga desigual ecoa até hoje.

Gravado em condições extremas, O Regresso é uma obra de um diretor em seu auge. “A dor é temporária, mas o filme fica para sempre”, disse Iñarriitu no discurso de agradecimento no Globo de Ouro, fazendo referências as dificuldades que todos da equipe enfrentaram durante os nove meses de filmagem. Nem todo artista consegue ficar à altura das próprias ambições, mas, definitivamente, não é seu caso.

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