selomostra39Se em Frances Ha Greta Gerwig vivia aquela típica garota tão indecisa quanto adorável, em Mistress America, o novo filme de Noah Baumbach, que tem o brasileiro Rodrigo Teixeira (RT Features) como um dos produtores, somos apresentadas à uma espécie de irmã gêmea muito menos simpática daquele personagem, a arrogante e quase insuportável Brooke.

É a partir do encontro dela com a adolescente Tracy (Lola Kirke) que o roteiro se desenvolve. As duas estão prestes a se tornarem meia-irmãs, já que seus pais planejam um casamento para breve.

Como é de se esperar de uma comédia, as duas têm temperamento oposto: enquanto a mais nova é tímida e tem um objetivo claro na vida (tornar-se escritora), Brooke é daquelas figuras extrovertidas e capazes de inventar um novo desejo a cada minuto, ainda que não dê sequência à maioria destes.

Quando conversam, em diálogos entoados sempre em alta velocidade, Brooke está naturalmente voltada ao próprio umbigo, aparentemente alheia aos problemas de Tracy. Isto, porém, não impede que a caçula postiça fique fascinada por aquele estilo de vida, pelo menos à primeira vista.

Como já havia feito em Enquanto Somos Jovens, Baumbach, que tem 46 anos, aproveita a oportunidade para, além de celebrar, alfinetar a geração de nova-iorquinos que veio logo depois dele e hoje está na casa dos trinta e poucos.

No caso do filme anterior, era o documentarista com um pé na vanguarda e outro no vintage interpretado por Adam Driver. Agora, a jovem pretensamente empreendedora retratada por Greta, à procura da próxima frase que vai bombar no twitter.

Ambas parecem pessoas certamente apaixonantes no início, mas que, quando colocadas sob observação, não demoram a revelar traços menos lisonjeiros, muitos deles diretamente ligados à falta de maturidade exigida pela vida adulta.

Frances Ha já tinha um pouco disso, mas tanto Enquanto Somos Jovens como Mistress America usam um elemento que o primeiro filme desta sequência não tinha: um antagonista, alguém que não se encaixa no perfil hipster, mas de alguma forma sofre as consequências deste estilo algo inconsequente e acaba tendo que assumir a posição de voz da razão. Foi o papel de Ben Stiller em Enquanto Somos Jovens e é o de Lola Kirke em Mistress America.

Mesmo assim, o cineasta costuma não pesar no julgamento de seus personagens centrais. Com bom humor, ele acaba encontrando um desfecho que, em vez de propor uma grande transformação, passa a mão na cabeça destas figuras, como que dizendo: “deixa pra lá, eles são assim mesmo e não vão mudar”.

E vem dando certo. Discípulo assumido de Woody Allen, Noah Baumbach é hoje um dos principais nomes do cinema autoral norte-americano, talvez comparável apenas a Wes Anderson e Paul Thomas Anderson. Certamente é, entre os três, o observador mais realista.

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Nossa Opinião

7.5
Como já havia feito em Enquanto Somos Jovens, Baumbach, que tem 46 anos, aproveita a oportunidade para, além de celebrar, alfinetar a geração de nova-iorquinos que veio logo depois dele e hoje está na casa dos trinta e poucos
Nota 7.5