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festival-rio-seloNa boa safra da Première Brasil do Festival do Rio 2016, dois filmes se destacam por tratar justamente da adolescência e seu dolorido, mas frutífero, processo de amadurecimento.

Ainda que corram em pistas muito diferentes na questão de estilo e construção de atmosfera, Mate-Me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira e Califórnia, de Marina Person, enfocam adolescência e seus desafios, com olhar instigante. Este segundo vai ganhar uma merecida análise futura. Já o primeiro, está em pauta aqui.
Longa de estreia da jovem diretora carioca, com produção da Bananeira Filmes, de Vania Catani,
Mate-me Por Favor
é inventivo e trabalha a atmosfera do universo retratado com extrema habilidade. O foco está sobre um grupo de adolescentes da Barra da Tijuca que, entre as experiências da idade, como paquera, namoro, sexo, corpo, identidade, ainda tem de lidar com um assassino à solta, que mata em série garotas (e um garoto) que têm quase a mesma idade que elas.

O clima e o olhar atento aos detalhes de Anita, com um quê muito bem vindo do cinema da argentina Lucrecia Martel e de David Lynch, criam um universo em que o medo e o desejo caminham juntos na vida da garota Bia (Valentina Herszage, em ótima performance), de 15 anos.

Ela vive com o irmão mais velho João, um DJ niilista interpretado com competência por Bernardo Marinho, e vê a mãe, que sempre está na casa do namorado, quando esta passa para deixar dinheiro para os filhos.

A solidão em casa e a íntima contrastam com a balbúrdia da vida escolar e social, pautada pelos papos intermináveis com as amigas e a pregação sem fim da pastora-funkeira do culto neopentecostal que ela, seu namorado devoto e os amigos frequentam. Para completar o cenário, o assassinatos povoam seu coração e mente, em um misto de fascínio, medo e paranoia.

Anita já havia anunciado o que viria em seu primeiro longa com curtas como O vampiro do meio-dia (2008), Handebol (2010) e Os mortos-vivos (2012). Handebol, a propósito, levou o Prêmio Especial do Júri no Curta Cinema e o Prêmio da Crítica Internacional (FIPRESCI) no Festival de Oberhausen de 2011. Em Cannes 2012, ela integrou a Fábrica do Cinema do Mundo, projeto que reúne jovens talentos para trabalharem nos roteiros de seus futuros longas. O resultado desta experiência se vê em Mate-me, que integrou a Mostra Horizontes do Festival de Veneza de 2015, em setembro.

Ao contrário de obras que seguem à risca a cartilha do thriller clássico, em Mate-me, mais que criar uma trama de suspense com reviravoltas e respostas que dão ao espectador a satisfação de ver o mistério revelado, Anita investiga com uma lente íntima as sensações que as experiências (e os hormônios) provocam no corpo e na mente de Bia. Valentina Herssage é dona de uma beleza nada óbvia e de um olhar forte, capaz de conduzir o espectador por seus desejos, ainda que algumas vezes seja este um fascínio pela morte.

Mate-Me Por Favor

Sábado, 24/10 – 20h45 no Reserva Cultural 2 | Segunda, 26/10 – 16h no Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca 1 | Segunda, 2/11 – 17h no Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca 5

A vida explode dentro e fora dela, tanto ao observar o corpo de suas amigas quanto ao beijar seu namorado e até mesmo ao se deparar com alguém à beira da morte. “Sangue é vida”, diz a pastora teen em um dos cultos. Em um período em que os hormônios, o medo e a curiosidade do mundo, são muitas vezes incontroláveis, a pulsão pela morte é tão vital quando pela vida. Contraditório, mas altamente real.

É a construção desta dicotomia que vive Bia que faz da narrativa do filme um tecido intrincado, mas forte. A fotografia de João Atala, que trabalha muito bem o choque entre as cores, e o desenho de som (supervisionado por Bernardo Uzeda e essencial para criar a atmosfera do longa) estão a serviço desta trama.

Ainda que o clímax do suspense tradicional nunca chegue (pelo menos não da forma como os clichês do gênero nos acostumaram), não é esta a principal questão. Mas sim o fato de que adolescer é um longo processo entre descobertas e o medo, entre sensações e pulsões, entre o excesso de companhia e a solidão.

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Nossa Opinião

8.0
Ao contrário de obras que seguem à risca a cartilha do thriller clássico, Mate-me, mais que criar uma trama de suspense com reviravoltas e respostas que dão ao espectador a satisfação de ver o mistério revelado, investiga com lente íntima as sensações que as experiências (e os hormônios) provocam no corpo e na mente dos jovens.
Nota 8.0