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Em clima mais pesado, ‘Psi’ quer tocar o desejo que nos violenta

Nossa Opinião

8.0
Sem os questionamentos de Carlo, o drama dá lugar a uma predominância por um tom mais episódico, nem sempre preferível
Nota 8.0

É providencial que a segunda temporada de Psi tenha escolhido convidar diretoras brasileiras tarimbadas como Laís Bodansky (Bicho de Sete Cabeças) e Tata Amaral (Hoje e Antonia), além de Alex Gabassi (O Hipnotizador), Rodrigo Meirelles (A Vaga) e Max Calligaris.

O olhar fresco sobre um personagem como Carlo Antonini (Emílio de Mello) casa bem com sua nova fase, já de volta ao Brasil com interesse renovado pela profissão.

Se antes a rotina do consultório o levava a extremos em busca de novos casos clínicos, seu recém-encontrado desejo por ser terapeuta encontra na direção dos episódios um olhar diferenciado sobre as pessoas do lado de lá do diagnóstico.

“Ele não está mal com a profissão e não tem mais as questões que tinha ao partir”, disse Emílio ao TelaTela num evento para jornalistas. “Os protagonistas também não são os pacientes, como era antes. Psi continua não sendo uma série de divã.” O ator foi recente e merecidamente indicado ao Emmy Internacional de melhor ator em série dramática; a produção também recebeu indicação na categoria melhor drama.

A 2ª temporada fala muito da violência. É o nosso desejo se voltando contra nós mesmos
— Contardo Calligaris
Nos episódios iniciais desta segunda temporada, o implacável médico psiquiatra, psicólogo e psicanalista se dirige, especialmente, para a classe média brasileira. E jamais com olhar benevolente.

“Há muitos assuntos tabu, como a violência doméstica, detentas mulheres, adolescentes de classe alta que se prostituem, uma filha que é abusada sexualmente com ciência do pai”, elenca Emílio.

“Não há nunca um tom moralista”, completa Claudia Ohana, que vive Valentina, a parceira de clínica de Emílio. “Eles buscam entender o comportamento humano. São quase detetives, quase Batman e Robin”, diverte-se.

Emilio de Melo

Nas palavras de Contardo, a série trabalha com o “protótipo do não neurótico, o que deixa os neuróticos perplexos”. “Para ser terapeuta, é preciso ter a capacidade de se surpreender com coisas ordinárias e achar ordinárias as coisas mais surpreendentes”, completa ele, que assume que colocou muito de si no personagem que também estrela dois romances.

É nesse contexto que certas obsessões de nossa sociedade aparecem em episódios bastante marcados pela violência (“É o nosso desejo se voltando contra nós mesmos”). Como se sem misericórdia, Carlo desafia convenções sociais ao expor, sem rodeios a sordidez, as perversões, e os desejos interditos que as mobilizam.

Justamente por optar escolher nessa zona, a segunda temporada tem clima muito mais sombrio. Também por Carlo estar tão seguro de si, o drama que servia como pano de fundo dos primeiros episódios, agora, dá lugar a uma predominância por um tom mais episódico, nem sempre preferível.

Psi reafirma com o início desta segunda temporada que não é uma série de divã na mesma medida em que não aborda excentricidades ou patologias pouco conhecidas do mundo da psiquiatria. Sua matéria-prima são os dramas humanos em que, dolorosamente, nos reconhecemos em termos pessoais ou sociais.

É curioso que a dupla principal que conduz o enredo mantenha sempre, nas palavras dos próprios atores, a mesma cara de paisagem. Como a do analista que ouve impassível ao que você diz e mal esboça reação.

Isso coloca a nós, espectadores, no papel do paciente que se esforça em decifrar de volta o seu terapeuta (no caso, Carlo). O que o motiva? Qual seu posicionamento político? Que interesses pessoais desenvolve fora do consultório? Que vícios o acalmam ou excitam quando cai a noite?

Também por retornarem a esses personagens dois anos depois das gravações do primeiro ano, Claudia e Emilio esboçam pequenas diferenças na atuação que enriquecem o processo pelo qual passaram os personagens. Além dos atores que compõem o núcleo íntimo de Carlo (Aida Leiner, Igor Armucho, Raul Barreto, Victor Mendes, Camila Leccioli), retorna também Paula Picarelli que assume, de forma hesitante, a tarefa de deixar de ser uma paciente para ser uma parceira.

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