A Chegada, de Denis Villenuve, faz parte da melhor tradição das ficções-científicas: aquelas que usam seres extraterrestres e naves espaciais para revelar algo sobre a alma humana. No filme, indicado a oito categorias no Oscar deste ano, isto é tão latente que não há explosões de pontos turísticos, perseguições ou lasers cobrindo os céus.

As naves que desembarcam de surpresa na Terra simplesmente planam acima de doze cidades. O que estes invasores querem, afinal? Estamos sendo observados e estudados? Há um ataque planejado? A incerteza e o temor diante do desconhecido, dois dos sentimentos mais angustiantes que uma pessoa pode experimentar, são potencializados. O instinto diz que um conflito está para começar, e é bom estarmos preparados.

A tarefa da linguista Louise (vivida por Amy Adams, absurdamente deixada de fora na corrida pela estatueta de melhor atriz) é convencer o exército norte-americano de que pode haver outra interpretação, mais profunda do que a mentalidade do atirar primeiro e perguntar depois.

Se fazer entender pelos colegas militares prova-se tão difícil quanto o intricado sistema que a personagem tenta desenvolver para se comunicar com as criaturas interplanetárias. Passam séculos e a comunicação entre os homens continua a ser falha – não à toa, o conto de Ted Chiang que abre o livro de onde foi extraída a história de onde o roteiro se baseou fala sobre a Torre de Babel.

Indicações ao Oscar 2017

Filme, Diretor, Roteiro adaptado, Fotografia, Edição, Mixagem de Som, Edição de Som e Design de Produção.

O cerne filosófico e existencialista é o ponto que se sobressai em A Chegada, além da perfeição técnica com a qual Villeneuve constrói a atmosfera daquele quartel general na qual Louise cai meio de paraquedas.

A entrada de Amy Adams e da equipe pela primeira vez na nave dos visitantes, blocada em planos longos e trilha climática para aumentar o caráter de suspense é uma sequência que já tem lugar garantido na história do gênero, assim como as cenas da protagonista com os aliens.

Um filme da camadas tão profundas, porém, escorrega para um desfecho brega em seu ato final. Toda a capacidade de Louise como profissional, força motriz da trajetória da personagem até então, dá lugar às questões de maternidade e casamento, que parecem obrigatórias à maioria das protagonistas femininas do cinema hollywoodiano.

O lugar-comum era desnecessário em uma obra tão original. Mesmo assim, a impressão é que, entre todos os indicados na categoria de melhor filme, este é um dos que irá sobreviver melhor ao teste do tempo.

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