Nossa Opinião

9.0
Um filme que remete a obras nacionais tão representativas quanto 'Eles Não Usam Black-Tie' (1981) e 'O Som ao Redor' (2012).
Casa Grande 9.0

Em tempos de ânimos exaltados nas ruas e redes sociais, surge o explosivo Casa Grande. O longa ficcional de estreia do diretor Fellipe Garmarano Barbosa apresenta pontos importantes de reflexão para um país que gosta de desconversar quando o assunto é a divisão de classes e a desigualdade de renda.

Em entrevista ao jornal O Globo em fevereiro de 2014, quando o filme fazia sua estreia no Festival de Roterdã, na Holanda, Barbosa contou que o roteiro foi um exercício autobiográfico. Ele próprio estudou no tradicional Colégio São Bento, cenário importante da trama, e veio de uma família abastada que passou por dificuldades financeiras.

Ele, porém, não esteve presente no período das vacas magras, visto que já estudava cinema em Nova York. Casa Grande seria então uma forma de vivenciar aquilo tudo, com o personagem do jovem Jean (Thales Cavalcanti) servindo de alter-ego. Virou bem mais que isso.

Visto sob a inevitável lente do Brasil pós-eleições que é palco de manifestações, a obra tem sua importância amplificada. Mostra uma elite ainda apegada a conceitos arcaicos, que não faz ideia do que é a vida além dos muros da mansão de condomínio fechado que habitam. Uma cena em especial é bastante emblemática: o pai (Marcello Novaes) conta para o filho que, após a saída do motorista, ele deve voltar para casa de ônibus e “puxar a cordinha” próximo ao ponto onde irá saltar. “Hoje em dia já tem botão”, interrompe a faxineira Rita (Clarissa Pinheiro), lá da Copa, para espanto dos patrão.

Casa Grande é repleto destes cutucões que nem sempre ficam no subtexto. A discussão sobre as cotas raciais, por exemplo, é posta em primeiro plano algumas vezes e chega a virar o discurso inflamado de uma das personagens, numa sequência que resvala para o didatismo.

Mais bem encaixadas estão algumas excelentes sacadas, como a maneira com que a filha mais nova é compulsoriamente ignorada pelo patriarca (eco claro do machismo), ou a maneira mecânica com que Jean repete as opiniões políticas do pai em diversas situações, sem se dar conta de que tem mais em comum com ele do que gostaria.

Ao falar do particular, o cineasta reflete o global. Um filme que remete a outras obras nacionais tão representativas do seu respectivo tempo, como Eles Não Usam Black-Tie (1981), Cronicamente Inviável (2000) e, mais recentemente, O Som ao Redor (2012). Tudo isso sem ser hermético demais, pelo contrário, se colocando ao alcance do público que quer debatê-lo. Certamente dos mais essenciais do ano.

Comentários

comentários