CinemaFestival de Cannes 2017

Em Cannes, Todd Haynes mostra novo filme e defende modelo da Amazon

Depois de conquistar público e crítica com Carol, Eu Não Estou Lá, entre vários outros, o americano Todd Haynes chegou ao Festival de Cannes com um novo longa que prometia valer a imensa fila que se formou na frente do Palais des Festivals na quinta de manhã. Duas horas depois, Wonderstruck (Sem Fôlego no Brasil), o novo filme, arrancou aplausos, mas não muito calorosos.

O roteiro, baseado no livro de Brian Selznick (o mesmo de A Invenção de Hugo Cabret), é uma história que une tempos e personagens diferentes que se encontram no infinito de um roteiro quase fabular, o que é coerente, uma vez que o livro homônimo é um romance juvenil. O garoto Ben completa 12 anos sem saber sequer quem é seu pai. Sua mãe morre pouco tempo depois e ele sofre um acidente que o deixa surdo. Mesmo assim, ele foge do hospital em direção a Nova York, com uma pista remota que pode levá-lo finalmente a seu pai. Em paralelo, nos anos 20, a menina Rose, também com cerca de 12 anos e surda, foge de um pai austero e uma mãe ausente em busca da ajuda do irmão, que trabalha no magnífico Museu de História Natural de Nova York.

Ben é interpretado pelo garoto Oakes Fegley (da recente nova versão de Meu Amigo, o Dragão, produção da Disney) e Rose, pela garota Millicent Simmonds (que é de fato surda e faz sua estreia no cinema). O elenco conta ainda com a atriz Julianne Moore, parceira de Haynes de diversos filmes, que faz dois papeis cruciais na trama. Um deles é o da mãe ausente de Rose, Lillian Mayhew, atriz do cinema mudo e do teatro, que, depois de se divorciar, deixa a filha com o pai. Outro destaque é Michelle Williams, que vive a mãe de Ben.

Por mais que o elenco esteja bem acertado, a direção seja elegante, e a sinergia entre direção de arte e a fotografia trabalhem perfeitamente para construir a atmosfera das duas épocas, algo falta para que a saga de Ben e Rose seja capaz de arrancar, se não lágrimas, aplausos mais calorosos da plateia. Há uma sensação de que há certas histórias que somente diretores como Steven Spielberg deveriam filmar. Ironia à parte, a trama de Wonderstruck requer uma inocência e leveza que Haynes quase alcança, mas o tom de fábula não chega.

É um filme competente, mas as voltas e voltas que a montagem dá ao redor das duas histórias só ganha costura com a trilha sonora muito presente. Chega a ser interessante como um longa que narra a saga de duas crianças surdas em busca de seu lugar no mundo faça tamanho uso da trilha para costurar um tempo ao outro. É o tema, que permeia todo o filme, que modula a trama de Rose, passada na década de 20, e faz com que os cortes para 1977, ano em que se passa a história de Bem, fluam bem na narrativa.

“Algo que a gente fez bem quando editamos foi mostrar o filme para as crianças, em várias fases da montagem. E as crianças viram o filme e fizeram ótimos comentários e nos ajudaram a decidir quando a gente iria fazer as transições de uma história para a outra”, comentou Haynes em conversa com a imprensa na manhã de quinta. “Quando a gente ia contar a história de um personagem e quando ia mudar para o outro. Foi realmente uma jornada”, completou o diretor.

Após ouvir Haynes, de fato faz sentido Wonderstruck ser o que é. Ou melhor, como é. A trama de Rose é um filme mudo e foi rodado não só em preto-e-branco como em película 35mm anamórfica, o que não lhe dá o aspecto de filme mudo, mas confere uma atmosfera nostálgica. Já as cenas de Ben foram captadas também em película, mas colorida. As cores da década de 1970 são de fato tão marcadas quanto os clássicos da época, resultado alcançado depois de extensão pesquisa do diretor e equipe, que assistiram não só a muitos filmes mudos como longas dos anos 70, como Conexão França.

Narrar a saga de duas crianças surdas fez com que Wonderstruck seja quase um filme mudo, o que torna a narrativa interessante e exige boas soluções criativas. Ainda assim, o longa passa bem na Croisette mas passa também longe da Palma. Até agora, o russo Nelyubov (Sem Amor), do sempre rigoroso Andrey Zvyagintsev (de Leviatã), e este longa trouxeram crianças em sua trama, mas ambos são tão diametralmente opostos que o júri presidido por Pedro Almodóvar ainda deve ter muito trabalho pela próxima semana.

A propósito de Almodóvar, que comentou na entrevista coletiva do júri que o on demand (especificamentea Netflix, que este ano tem dois filmes na seleção oficial: Okja e The Meyerowitz Stories), Haynes foi questionado sobre como vê a questão, uma vez que seu longa é uma produção da Amazon Studios. O cineasta não acha que seja este o caso de Wonderstruck, uma vez que a Amazon quis investir no cinema e sua equipe formada por profissionais do cinema independente, que se dedicou muito. Diferentemente da Netflix, sua concorrente mais famosa, a plataforma online costuma estrear suas produções no cinema antes de disponibilizá-las no catálogo de streaming.

“O departamento de cinema da Amazon é formado de cineastas de verdade, gente que adora filme e que quer de verdade dar a oportunidade para que filmes independentes encontrem seu espaço em um mercado que passa por uma grande mudança. Wonderstruck sempre foi pensado para ser algo que deve ser visto na tela grande e eu acho que a Amazon está tão comprometida com isso quanto nós estamos”, declarou o diretor.

A polêmica on demand X tela grande não deve acabar com Haynes e, na verdade, a discussão está só começando. As duas produções do Netflix têm sessão nos próximos dias e o debate em torno do formato, da plataforma e do ‘futuro do cinema’ ainda vão esquentar muito mais na Croisette.

A competição segue nesta quinta com o longa Jupiter’s Moon, de Kornél Mundruczo.

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