No ano em que completa 49 anos, o Festival de Brasília do Cinema, o mais antigo do País, mostrou mais uma vez seu caráter sempre politizado que o tornou famoso e relevante no circuito de grandes festivais de cinema do Brasil.

A mostra que começou na noite de terça com a sessão não competitiva de Cinema Novo, dirigido por Eryk Rocha e produzido por Diogo Dahl, vencedor do L’Oeil D’Or no Festival de Cannes em maio, com dedicatória do diretor para todos que se indignam e resistem em um momento grave da história do Brasil, seguiu seu primeiro dia de competição na quarta com o longa Rifle, de Davi Pretto.

Duro, mas belo, o filme do diretor gaúcho retrata o drama do homem do campo do Sul do Brasil, sempre ‘empurrado’ pelos latifundiários que não aceitam não como resposta. Na trama, uma família dona de uma pequena propriedade na região de Don Pedrito tem de lidar como assédio constante dos ‘compradores’ e Dione (o próprio Dione Ávila de Oliveira) é o personagem-chave da resistência e da luta por seu lugar, contra a violência de um sistema que expulsa os pequenos produtores de suas terras geográficas e afetivas. Dione resiste e faz-se ouvir, de forma extrema, mas talvez estas fossem sua única arma e reações possíveis. O longa estabelece um paralelo tanto com o cinema western quanto com o do naturalismo de cineastas como o iraniano Abbas Kiarostami, ao trabalhar com atores não-profissionais e com um tempo dilatado, que traduz a solidão dos moradores de regiões longínquas e esquecidas do Brasil.

Cena de 'Rifle', de Davi Pretto, que retrata a luta de um rapaz do campo por sua terra no Sul do Brasil
Cena de ‘Rifle’, de Davi Pretto, que retrata a luta de um rapaz do campo por sua terra no Sul do Brasil

Precisamos falar dos Guarani-Caiowá
Não por acaso, em uma curadoria que já deixa claro que joga luz nas minorias (que não são poucas, mas que recebem pouca atenção seja da grande mídia seja de grande parte dos brasileiros), o longa da noite seguinte foi Martírio do cineasta e indigenista Vincent Carelli, que fundou nos anos 1980 o Vídeo nas Aldeias para capacitar comunidades indígenas a realizarem produções audiovisuais.
A questão da luta por um lugar, por sua cultura e por ser reconhecido que começou com a pequena família de Rifle dialogou com a sessão catártica de Martírio (que narra, fazendo uma ponte triste, mas contundente com Rifle) a luta dos Guarani-Kaiowás no Mato Grosso do Sul para se manterem vivos e terem suas terras finalmente demarcadas. Terras estas em constante ameaça da indústria agropecuária e do lobby da bancada rural em Brasília.
Em uma sessão catártica, com direito a vários aplausos em cena aberta, como quando Ailton Krenak, discursou há 29 anos na Assembleia Nacional Constituinte, com contundência sobre o valor da cultura indígena e o desprezo que os brancos vêm dando a ela desde tempos imemoriais enquanto pinta o rosto e afirma que os “o povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil”.

Houve também vaias. Estas distribuídas para a bancada ruralista, que, por exemplo, em um encontro de produtores filmado por Carelli, chega ao ponto de afirmar que um certo político não é confiável porque “recebe em seu gabinete índios, gays etc…”. Em outro momento, um dos que falam no encontro chega até a apelar ao Santo Daime para afirmar que quem defende o direito às terras indígenas toma o preparado e “vê coisas.”
Do outro lado da balança, estão famílias Guarani-Caiowás que vivem, desde a Guerra do Paraguai (e Carelli, em uma inciativa didática, mas nunca entediaste, vai até o passado para explicar ao espectador o processo histórico) um sistemático processo de aniquilação de sua cultura, perda de suas terras e ataques que resultam muitas vezes em muitas mortes.
O épico vivido pelos indígenas seguiu-se durante as políticas positivistas do Marechal Rondon, pela era Vargas, pela Ditadura e continua até hoje. “Não é que o filme acabou e agora tudo parou. Os ataques continuam. A questão continua”, declarou o líder Tonico Benites Ava Guarani-Caiowá, durante a conversa com a imprensa nesta sexta.
De fato. Em um dos momentos em que os indígenas filmam, com a câmera que o diretor entregou a eles, um destes ataques cometidos por uma empresa de segurança, é impossível não se indignar com tamanha naturalidade com que os ‘seguranças’ atiram contra o local onde os Guarani-Caiowás estão acampados.

Precisamos falar da violência contra a mulher

É a voz destas minorias que não são poucas e dos excluídos que são muitos que a curadoria presidida por Eduardo Valente traz para as telas da capital do País. Não por acaso, na quarta, foi a vez de também assistir e debater Câmara de Espelhos, de Dea Ferraz e Precisamos Falar do Assédio, de Paula Sacchetta, produzido por Gustavo Rosa de Moura.


Dois documentários de dispositivo, que partem de uma premissa pré-estabelecida para criar o universo a ser filmado, os filmes de Dea e Paula também estabelecem uma conversa incômoda, mas necessária e atual, sobre a forma como a mulher é vista e percebida na sociedade (no caso de Espelhos) e sobre os tantos assédios, dos mais graves aos mais banais, que todas as mulheres já passaram (no caso do segundo filme).
Em Câmara de Espelhos, a pernambucana Dea reuniu homens, que responderam a um anúncio de jornal para participar de um documentário, em uma sala e filmou suas conversas diante de diversos temas, que eram exibidos em uma TV. “Meu sonho é casar com uma mulher muda, surda e boa doméstica. Com essa nova lei está caro contratar uma doméstica”, afirma um. “Se ela sai com uma roupa dessas, ela quer o que?”, diz outro participante. Curioso é que o longa foi exibido justamente no dia em que o DataFolha divulgou pequisa que revelou que três em cada dez brasileiros acreditam que “a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada.”

'Precisamos Falar do Assédio' reúne o depoimentos de 26 mulheres, de diversas idades, sobre diversos tipos de violência sofridas
‘Precisamos Falar do Assédio’ reúne o depoimentos de 26 mulheres, de diversas idades, sobre diversos tipos de violência sofridas

A mulher que “quer o que?” do filme de Dea responde com seu depoimento doído mas representativo no filme de Paula. Precisamos falar do Assédio reuniu 26 depoimentos de um total de 140, coletados em março deste ano. Uma van do projeto circulou no Rio e em São Paulo e ficou disponível para as mulheres que quisessem entrar e, sozinhas, com a porta fechada, dessem seu depoimento sobre o assédio para uma câmera. Durante o desabafo, nem Paula e nem a equipe ouviam o que cada uma dizia. Algumas saiam soluçando e neste momento (alguns mostrados no filme), a jovem diretora se confrontava com a difícil tarefa de documentar e também tentar ajudar as personagens de seu projeto.

Câmara de Espelhos, de Dea Ferraz, discute a imagem que o homem faz da mulher
Câmara de Espelhos, de Dea Ferraz, discute a imagem que o homem faz da mulher

O resultado dos 80 minutos de filme soam como um grito preso na garganta de toda mulher. Houve quem dissesse que o longa se encaixaria melhor no formato curta-metragem, pois alguns relatos soam repetitivos. Mas é a repetição, e a noção de que estes casos de assédio e violência se repetem todos os dias com mulheres de todas as classes sociais, raças e idades, que dá mais força ainda ao projeto. Para ver os depoimentos que não entraram no filme basta acessar www.precisamosfalardoassedio.com.

Ainda que fora de competição, os dois filmes dialogam entre si para falar da questão da mulher e da violência contra o feminino em uma sociedade que via de regra amordaça as vítimas e protege os agressores.
Impossível não fazer a ponte entre as tantas vozes que merecem atenção em uma seleção que não abre mão da qualidade cinematográfica, mas que se abre para questões de um Brasil profundo e plural, em que as minorias são muitas e cada vez mais não aceitam as mordaças que lhes foram impostas ao longo da história.
O Festival de Brasília 2016 segue até dia 27 e certamente terá mais filmes que trazem o cinema como ferramenta para se contar bem as histórias de tantas vozes quase nunca ouvidas. Neste sábado, por exemplo, é a vez de assistir na Mostra Competitiva a Antes o Tempo não Acabava, de Sergio Andrade e Fabio Baldo. O longa, que conta a história do indígena que deixa sua aldeia para viver na cidade conversa sem dúvida com Martírio e Taego Awã (outra importante obra, dirigida por Marcela Borela e Henrique Borela, exibida em Brasília fora de competição).

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