40mostra_peqNo pôster da 40ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, um homem, de costas, aparece em meio à figuras católicas como o Papa e freiras em posição de súplica, e uma multidão de punhos cerrados num protesto.

É uma imagem forte, que dialoga diretamente com o momento político e social do Brasil, especialmente de São Paulo, mais especificamente ainda com a Avenida Paulista, cenário das mais diferentes manifestações nos últimos meses, e região onde se concentra grande parte da programação dos 322 filmes que integram o evento em 2016. Vale lembrar que, desta vez, o circuito também se expande pelas periferias, graças às salas da Spcine em CEUs da região periférica paulistana, num movimento fundamental de democratização do acesso à cultura.

O desenho é de autoria de um dos homenageados deste ano, o cineasta italiano Marco Bellocchio, que, convidado a fazer a tradicional arte do pôster, se baseou em uma de suas obras mais importantes, Bom Dia, Noite (2003). A coincidência com o clima conturbado do País foi, segundo Renata de Almeida, diretora da Mostra, uma coincidência, movida pela sensibilidade típica dos grandes artistas de captarem um certo espírito do tempo, de forma quase intuitiva.

E a safra que irá movimentar a capital paulista de 20 de outubro a 2 de novembro tem muito a dizer sobre o mundo de hoje. Um dos destaques por exemplo, o francês Elle, de Paul Verhoeven, exibido no último Festival de Cannes, toca na questão delicada do empoderamento feminino de forma polêmica e com um certo sarcasmo. Isabelle Huppert, a atriz francesa que faz a protagonista, definiu recentemente a obra como “pós-feminista”.

A questão indígena, outro assunto bastante em voga no cinema contemporâneo, principalmente o nacional, está representado por filmes como Antes o Tempo Não Acabava, de Fábio Baldo e Sérgio Andrade, e o pungente Martírio, de Vincent Carelli, recentemente exibido no Festival de Brasília.

Sempre conectados com o que há de mais humano na contemporaneidade, os irmãos Dardenne estão de volta, com A Garota Desconhecida, sobre os dilemas de uma jovem médica.

A dupla belga divide espaço com outros habitués do Festival, como o filipino Lav Diaz e os 485 minutos de Canção Para um Doloroso Mistério, o sul-coreano Park Chan-Wook com The Handmaiden, Jim Jarsmusch e seu Paterson, estrelado por Adam Driver, a estreia em tela grande dos dois primeiros episódios da série The Young Pope, do italiano Paolo Sorrentino, e o curta-metragem Me Leve Para Casa, último trabalho do iraniano Abbas Kiarostami, falecido em julho deste ano.

Homenagens

'Persona', de Ingmar Bergman
‘Persona’, de Ingmar Bergman

Mantendo a característica de olhar para o presente e futuro ao mesmo tempo em que reverencia o passado e dá chance do público cinéfilo rever boa parte da filmografia de grandes mestres do cinema, a 40ª edição da Mostra caprichou neste quesito.

O já citado Marco Bellochio ganha o Prêmio Leon Cakoff e, além de seu longa mais recente, Belos Sonhos, escolhido para a cerimônia de abertura, traz outros 11 títulos que repassam o que há de mais significativo em sua carreira, desde 1965.

O cinema polonês é tema da seção anual ‘Foco’, que, além de apresentar filmes atuais do país, homenageia dois de seus mais célebres representantes: Krzysztof Kieslowski (com a exibição da obra-prima O Decálogo) e Andrzej Wajda, cuja morte, aos 90 anos, na semana anterior ao início da Mostra, apenas torna ainda mais oportuna a possibilidade de revisitar os 17 títulos de sua autoria que estão espalhados na programação.

O norte-americano William Friedkin é outro cineasta que ganha homenagem, na carona dos 45 anos de Operação França, thriller policial que foi o grande vencedor do Oscar em 1972. Ele fará uma masterclass no dia 22 de outubro, e tem sete de seus filmes no evento, incluindo o clássico O Exorcista.

Para além das salas de projeção, a Mostra ainda traz para o Itaú Cultural a exposição Por Trás da Máscara – 50 Anos de Persona, que investiga origens e impacto de Persona, também conhecido no Brasil pelo título Quando Duas Mulheres Pecam, um dos filmes mais importantes de Ingmar Bergman. É a primeira vez que o acervo, formado por cadernos do cineasta, fotos e imagens de bastidores, deixa a Suécia.

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