Nossa Opinião

8.0
O filme é, além de terror dos bons, um drama psicológico familiar pesado. Assim, a maior ameça não são os misteriosos acontecimentos externos, mas sim a maneira com que pais e filhos entram em parafuso e começam a trocar acusações diante deles.
Nota 8.0

Na enxurrada de títulos de terror despejada todo ano nos cinemas brasileiros (quase um por semana, em média), é comum ver produções que se contentam com o status de filme B. Não escondem a intenção de existir apenas para pregar um ou outro susto ocasional, abusam de clichês e crescentes súbitos na trilha sonora para provocar arrepios, e deixam de lado qualquer preocupação profunda com “detalhes” como roteiro, direção de arte, fotografia.

De vez em quando, porém, ainda aparece alguém querendo fugir do padrão hoje dominante no gênero, que já rendeu clássicos como O Iluminado (1980) e O Exorcista (1973). Em 2015 foi Corrente do Mal, de David Robert Mitchell. Este ano, chega um diretor estreante fincando o pé com autoridade, o norte-americano Robert Eggers, e seu A Bruxa.

A principal diferença: o filme é, além de terror dos bons, um drama psicológico familiar pesado. Assim, a maior ameça não são os misteriosos acontecimentos externos, mas sim a maneira com que pais e filhos entram em parafuso e começam a trocar acusações diante deles.

Ao contrário de um grupo de personagens unidos pela salvação, que muitas vezes serve de catarse para resolver questões pendentes e chegar a um final redentor onde os laços emocionais são remendados e estreitados, o longa de Eggers propõe uma literal caça às bruxas no quintal de casa.

Estamos no século XVII, numa comunidade rural isolada, região da Nova Inglaterra. A família de William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) se instala no local com os quatro filhos, após ser excomungada da congregação onde morava. Alguns meses depois nasce um quinto filho, que logo desaparece de maneira traumática. É o estopim da crise que se instala, agravada pelo componente religioso, que no caso mais causa temor do que conforta, já que os personagens estão sempre com medo da possibilidade de seus atos despertarem a ira de Deus.

Não demora muito para a filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy), ser considerada a principal suspeita de representar a encarnação do mal. Há aqui um subtexto explorado de maneira bastante hábil, no desejo sexual quase inconsciente que Thomasin desperta em seu irmão Caleb (Harvey Scrimshaw) – não é segredo que muito da perseguição às chamadas bruxas naquele período tinha a ver com uma sociedade machista confusa em lidar com a sexualidade feminina.

É mais um elemento de tensão na narrativa, inspirado em contos folclóricos que Eggers conhece desde criança. Obsessivo com cada detalhe, o cineasta passou cinco anos pesquisando os costumes da Nova Inglaterra de meados de 1600. Com sua reconstrução rigorosa de ambiente, figurino e objetos, A Bruxa é também um fiel filme de época.

Tamanha dedicação deu resultado: o diretor, que também escreveu o roteiro, foi coberto de elogios e premiado em Sundance, quando o longa fez sua estreia, em janeiro do ano passado. A produção tem o dedo do brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features, cada vez mais presente em produções independentes internacionais – em 2016 Teixeira já esteve em Sundance e Berlim com dois novos filmes: Indignation, de James Schamus e Little Men, de Ira Sachs.

O Brasil, por onde A Bruxa passou durante a Mostra Internacional de São Paulo, é um dos primeiros países no qual a obra entra em circuito comercial, só atrás de Estados Unidos e Canadá (onde entrou em cartaz há três semanas). Resta saber se chegará ao público mais amplo, e talvez anestesiado pela sucessão de mediocridades vendidas como terror.

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