O último 25 de junho marcou o centenário de nascimento de João Batista Vilanova Artigas, um dos principais nomes da arquitetura brasileira, principalmente na escola paulista. São dele alguns dos projetos que viraram cartões postais de São Paulo. Na lista estão, por exemplo, o Estádio do Morumbi, o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (na USP) e o Edíficio Louveira. Sua biografia também se destaca pelo engajamento político e social, que o levou inclusive a um período de exílio no Uruguai por sua associação ao Partido Comunista, em 1969.

Na mesma data chegou às salas do Espaço Itaú espalhadas pelo Brasil o documentário ‘Vilanova Artigas: O Arquiteto da Luz’. Todas as sessões são gratuitas.

O filme, dirigido por Pedro Gorski e Laura Artigas, neta do homenageado, repassa sua vida e obra, com depoimentos colegas de geração como Ruy Othake e Paulo Mendes da Rocha, além da família e outros personagens que o conheceram na intimidade, como o ator e amigo Juca de Oliveira.

Sobre esse projeto artístico e familiar, Laura conversou por email com o TelaTela:

TelaTela – Como foi seu contato com seu avô? Você chegou a conhecê-lo? Que histórias sobre ele você ouvia?

Laura Artigas – Não me lembro dele, infelizmente. Sempre escutei histórias bastantes pessoais e muito afetuosas a seu respeito. Seu comportamento sempre me pareceu instrutivo, engraçado, ousado.

Você sempre teve a noção de sua importância ou sua relação era mais com as memórias do seu avô?

Imaginava, mas não tinha a dimensão porque durante muito tempo não me interessei pelo universo da arquitetura. Antes de fazer o filme, poucas vezes havia parado para pensar no tipo no impacto que ser neta dele tinha na minha vida. Comecei a racionalizar isso quando decidi fazer o filme. Além da questão familiar, acredito que a maneira que me relaciono com os espaços e com a cidade são as principais marcas que ele deixou na família.

Que traços da personalidade dele você só tomou conhecimento ao fazer a pesquisa para o filme?

Dois fatos bem curiosos me intrigaram. A história da construção do Louveira (não vou contar porque está no filme) e a paixão dele por fogos de artifícios. Ele inclusive, presenteava os netos de 6 e 7 anos, na época, com rojões. De modo geral, conclui que o Artigas era uma mente inquieta, um artista no melhor conceito da palavra, com alma de criança, sempre disposto a aprender, descobrir o mundo, e nunca se repetir.

Mais do que uma contribuição para a arquitetura, o Edíficio Louveira, em Higienópolis, é uma contribuição para o audiovisual, já que é utilizado como cenário para filmes e séries de TV. Para você, como cineasta, existe uma ligação diferente com esta obra?

O prédio é lindo e extremamente fotogênico, mas minhas preferências visuais, principalmente como espectadora, costumam tender para uma linguagem visual e narrativa mais realista. O prédio não tem grade, destoa muito do contexto social e visual da cidade. É a exceção. De modo geral, não seria verossímil em um filme ambientado na São Paulo de hoje, por exemplo. Mas, na vida real adoraria morar lá.

Além de sua atuação na arquitetura, Artigas foi alguém fortemente engajado politicamente, chegando até a ser exilado pelo Regime Militar. Como vocês tratam isso no documentário?

Com um viés intimista. Pessoas que conviveram, e o ajudaram, relembram os fatos e as sensações que observaram do Artigas neste período.

Artigas tinha uma preocupação com o social, em fazer suas obras dialogarem com a cidade. O que você acha que ele diria sobre o atual momento da cidade de São Paulo, com as discussões sobre mobilidade urbana e os planos de ocupação do espaço público pela cidadania?

É difícil dizer, mas pensando na sua trajetória e no seu processo de criação, ele costumava estar bem conectado com o momento histórico e bastante atualizado nos avanços da tecnologia construtiva. Arrisco dizer que ele teria uma postura bastante crítica quanto ao uso do carro nas grandes metrópoles, continuaria fazendo projetos bem integrados com a paisagem urbana, como já fazia e utilizaria tecnologias e processos construtivos social e ecologicamente corretos.

Comentários

comentários