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‘Ela Volta na Quinta’ retrata família da periferia que poderia ser a sua

No debate após a premiere internacional de Ela na Volta na Quinta, no festival FID, em Marseille, uma senhora francesa pediu a palavra e, emocionada, disse ter se visto na tela. “Eu olhei aquilo e pensei ‘cara, esse filme feito em Contagem, com os pais do André, se comunicou com essa mulher, do sul da França, que tem toda uma história de vida’. Alguma coisa tocou dentro dela”, relembra o produtor Thiago Macêdo Correia.

O causo serve bem para mostrar que classificar o primeiro longa de André Novais Oliveira como um filme “de nicho” pode ser uma definição preguiçosa.

Sim, o formato de Ela Volta Na Quinta foge do convencional. Tem uma linguagem naturalista levada ao extremo, conversas soltas como fluxos de pensamento sem script pré-definido ao pé da letra e um casal de meia-idade em crise, que nunca chega a um embate em cena, daqueles repletos de frases de efeito e troca de acusações.

Criado na periferia da grande Belo Horizonte, no município de Contagem, o cineasta faz da sensação de estar à margem dos grandes acontecimentos sua assinatura artística. Seu olhar está fora do que seriam as curvas dramáticas e pontos de virada de um roteiro convencional, e concentrado justamente nos pontos periféricos do que seria uma narrativa padrão.

É voltado para aquilo que, de tão cotidiano, costuma passar batido em situações de crise conjugal: a ansiedade melancólica dos filhos diante da perspectiva da separação dos pais, o casal que dorme na mesma cama mas já não divide mais o cobertor, a vida que segue com as tarefas do dia-a-dia, como o conserto de uma geladeira. Nada é apressado, é é daí que vem muito de sua beleza. Afinal, para a maioria das pessoas os dias não passam em ritmo de videoclipe.

“Nem sempre as crises passam por questões muito dramáticas. Às vezes uma crise pode ser bem silenciosa, até escondida”, explica André, que escalou seus pais, irmão, cunhada e namorada para atuarem, todos com seus nomes verdadeiros mantidos nos personagens, recurso que usou também nos curtas Quintal (2015) e Pouco Mais de Um Mês (2013), ambos exibidos em Cannes e com passagens premiadas por festivais no Brasil e no mundo.

Por tratar tudo em família, ser filmado na casa onde Seo Norberto e Dona Maria José realmente moram, e também pelo registro extremamente intimista, Ela Volta na Quinta tem sido considerado mais um exemplo das produções recentes que misturam as fronteiras entre ficção e documentário, como Castanha (2014), de Davi Pretto, e Olmo e a Gaivota (2015), de Petra Costa e Lea Glob.

Thiago e André, no entanto, rechaçam a comparação. “Eu prefiro tratar o filme como ficção. Foi pensado e filmado desta forma. Acho que não há necessidade de discutir o que é ou não realidade”, afirma André. Para Thiago, o fato de parte do público chegar a acreditar que está vendo um documentário é um elogio: “Acaba sendo um mérito da direção que não interfere o tempo todo, e sinal de que as pessoas embarcam na história”.

André dirige os pais, Maria José Novaes e Norberto Oliveira
André dirige os pais, Maria José Novaes e Norberto Oliveira

Mais consciente é a escolha que André, ele próprio um realizador negro, faz ao decidir quem são os protagonistas de seu longa. “Minha intenção é colocar o negro como alguém que vive normalmente. Sem a questão da violência ou do tráfico de drogas, que geralmente é como é retratado no cinema brasileiro e até no cinema mundial”, defende.

“Algumas pessoas não entendem o quanto é político isso, no sentido que é uma forma de acostumar o olhar das pessoas de que o negro da periferia também vive em harmonia. Isso está em Ela Volta na Quinta e provavelmente estará em projetos meus no futuro”.

Este é o primeiro título da produtora mineira Filmes de Plástico (que além de André e Thiago também tem como sócios os diretores Gabriel Martins e Maurilio Martins) a chegar no circuito comercial, o que gera uma expectativa diferente. Criada em 2009 como uma ação entre amigos, onde todos colaboram e revezam funções nos projetos dos outros, a produtora é presença constante em festivais que dão preferência a obras mais autorais e inovadoras, como Brasília e Tiradentes.

Agora vivem uma experiência que ainda não conheciam. Lidam com contratos de distribuição, dão mais entrevistas, leem críticas nem sempre favoráveis, participam de debates abertos a um público mais amplo e pré-estreias e sessões especiais – só em São Paulo foram duas, nos dias que antecederam a estreia, na quinta (25).

“Nesse processo a gente acaba revisitando e redescobrindo coisas, a partir da interpretação das pessoas que conversam com a gente”, relata André, empolgado com essa espécie de renascimento do longa, que já roda festivais desde 2014, tendo sido premiado em vários deles, como o Panorama Internacional Coisa de Cinema, Semana dos Realizadores e o Olhar de Cinema, em Curitiba.

E o que mais surpreende o diretor nestas reações? “O carisma dos meus pais. Eu amo meus pais, e fui ter uma visão diferente deles depois do filme. Não sabia o tanto que eles eram carismáticos para as pessoas, isso é muito doido”.

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